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Os corredores de Damasco

A Síria arrisca-se a tornar-se o terreno onde a grande rivalidade da região se desenlaçará. Como sempre, a posição geográfica da Síria continuará simultaneamente a sua bênção e o seu martírio.

Manuel Castello Branco
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Nos últimos dias, as tensões no Médio Oriente voltaram a escalar. No domingo, forças americanas bombardearam a ilha iraniana de Larak, numa operação destinada a enfraquecer ainda mais o controlo do Irão sobre o estreito de Ormuz, e a retaliação iraniana, infrutífera, veio pouco depois sob a forma de ataques às bases americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos. Que estes tenham sido os primeiros ataques de parte a parte em mais de um mês é, no entanto, talvez o aspeto menos relevante desta história. A guerra arrasta-se agora para o sétimo mês, e habituou-nos já a ataques intermitentes e a cessar-fogos que o são apenas em nome. O que esta nova onda de ataques revela é que a velha ordem da região, tanto militar como comercial, está hoje obsoleta. Mesmo que o conflito com o Irão termine em breve, os traumas ficarão, e a experiência de ficar refém de um regime tão imprevisível e pouco fiável como o iraniano servirá apenas para acelerar o desacoplamento de chokepoints como o estreito de Ormuz e a procura de novas rotas de exportação assentes em múltiplos canais redundantes de escoamento. E talvez nenhum país esteja tão bem posicionado para beneficiar desta reestruturação da ordem regional como a Síria.

Depois de quinze anos de guerra civil, subjugação ao regime iraniano e estagnação económica quase total, a Síria de Ahmad al-Sharaa apresenta-se hoje mais estável, e a sua posição geoestratégica, no coração de várias rotas comerciais potenciais, faz do país um parceiro cada vez mais difícil de ignorar. Mas é precisamente esse potencial que constitui o risco mais significativo para a sua estabilidade a longo prazo. A guerra lançada por Trump contra o Irão mostrou aos aliados históricos de Washington na região que a proximidade com os Estados Unidos se tornou uma vulnerabilidade, forçando uma procura urgente de diversificação das parcerias de segurança. Diversificação essa que teve nos acordos de Meca o seu reflexo mais claro.

O vazio deixado pelos Estados Unidos está a ser rapidamente preenchido por novas arquiteturas de segurança organizadas em torno de rivalidades regionais, que opõem um eixo sunita composto pela Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, com o Egipto e o Qatar como parceiros próximos, a um eixo que podemos designar Indo-Abraâmico, composto por Israel, os Emirados e a Índia, com Marrocos, Chipre e Grécia na sua órbita. Esta rivalidade já se manifestou da Líbia ao Sudão, da Somália ao Iémen, mas é na Síria que se jogará o seu ponto mais crítico, com Israel e a Turquia a disputarem influência num país que pode vir a ser peça-chave na nova ordem regional.

A posição geográfica da Síria sempre foi o seu maior ativo. Como elo entre a Mesopotâmia, o Egipto e o Mediterrâneo na Rota da Seda, cidades como Alepo ou Palmira tornaram-se centros de cultura e de riqueza extrema, reunindo mercadores de todo o mundo. Já na era das conquistas islâmicas, Damasco tornou-se capital do império Omíada, servindo de centro a um império que se estendia da Península Ibérica ao Paquistão. Hoje, já sem grandes impérios ou Rotas da Seda, a Síria não perdeu a sua importância, servindo de elo de ligação direto entre as monarquias do Golfo e os portos mediterrânicos de Tartus e Latakia. A própria linha ferroviária de Hejaz (que visava ligar Medina a Damasco), que o Império Otomano ergueu e que a Primeira Guerra Mundial deixou em ruínas, foi objeto de conversações entre Riade e Ancara em 2009 para a sua reconstrução, conversações essas rapidamente interrompidas quando a guerra civil deflagrou. Sob o regime de Bashar al-Assad, essa centralidade geográfica tornou-se um problema. Com a eclosão da guerra civil, o Irão aproveitou-se do caos para transformar o país numa plataforma de distribuição de armamento para os seus proxies, sobretudo o Hezbollah no Líbano. Anos de guerra destruíram a infraestrutura do país, e a proximidade de Assad com os ayatollahs conotou a Síria como um ativo iraniano, pelo que, não obstante a sua posição privilegiada, o país deixou de ser visto como uma rota comercial viável.

Foi em parte para contornar precisamente esta Síria em ruínas e amarrada a Teerão que se concebeu o IMEC, projeto anunciado em 2023: uma nova rota que uniria os portos ocidentais da Índia, como Mundra, Jawaharlal Nehru e Kandla, à Península Arábica, atravessando os Emirados, a Arábia Saudita e a Jordânia até ao porto de Haifa, de onde a exportação seguiria depois para a Europa. Lançado num momento em que os Acordos de Abraão pareciam bem encaminhados, ao ponto de se falar numa normalização de relações entre a Arábia Saudita e Israel, o projeto visava, por um lado, diversificar as rotas comerciais, e, por outro, responder a preocupações já então existentes quanto aos chokepoints da região, nomeadamente o Bab al-Mandab e o estreito de Ormuz (preocupações que viriam a revelar-se plenamente justificadas).

Os ataques do Hamas a 7 de outubro descarrilaram, porém, todo o esforço diplomático, e a resposta israelita subsequente em Gaza inviabilizou qualquer hipótese de normalização entre Israel e a Arábia Saudita, transformando o IMEC em mais uma vítima do conflito. Em Israel, no entanto, erroneamente, a perda de fôlego do projeto não foi lida como catástrofe, uma vez que qualquer esforço de diversificação de rotas continuaria necessariamente a passar por solo israelita, com o Iraque, a Síria e o Líbano ainda mergulhados em guerras que inviabilizavam qualquer investimento de longo prazo. O consenso nos círculos israelitas parecia ser o de que Israel dispunha de carta branca para assegurar os seus interesses em Gaza e na Cisjordânia sem que isso pusesse em causa a sua posição como parceiro incontornável da região.

No entanto, a queda de Bashar al-Assad veio mudar radicalmente o cálculo. Enquanto Israel se mantinha imóvel quanto aos seus objetivos maximalistas, tornando a proximidade com Telavive particularmente tóxica para qualquer governo árabe, a Síria de al-Sharaa começou a apresentar-se progressivamente como parceiro mais fiável e estável, reabrindo a possibilidade de cooperação económica com os vizinhos.

Em abril e junho deste ano, os governos da Jordânia, Arábia Saudita, Síria e Turquia acordaram em reconstruir a linha ferroviária de Hejaz, e em julho o Iraque e a Síria acordaram reabilitar o oleoduto Kirkuk-Baniyas, destruído durante a invasão americana do Iraque em 2003, de forma a criar uma saída permanente do petróleo iraquiano para o Mediterrâneo. Cada um destes projetos vai claramente ao encontro da visão apresentada por al-Sharaa, através de Asaad al-Shaibani e Hakan Fidan, no Chipre em abril, de reabilitar a iniciativa Four Seas Nine Corridors, que ambiciona fazer da Síria o principal ponto de ligação entre o Cáspio, o mar Negro, o Mediterrâneo e o golfo Pérsico. Os investimentos da Arábia Saudita no projeto SILKLINK e dos Emirados no porto de Tartus revelam quão significativa a Síria pode tornar-se para as potências da região, e revelam sobretudo algo mais profundo: que estes Estados estão dispostos a comprometer o seu capital com um país ainda instável em troca da previsibilidade de longo prazo que a redundância de rotas promete, aceitando o risco imediato como preço da segurança futura.

Nada disto deve ser lido como afirmação perentória de que o futuro da Síria está assegurado. A instabilidade política é ainda assinalável, com disputas constantes entre o governo e minorias étnicas como os drusos, e a integração das SDF, as forças curdas, no exército nacional tem sido tudo menos tranquila. Ainda assim, o processo de reabilitação do país tem-se revelado, até agora, bem-sucedido, e os grandes investimentos das potências regionais, ao ligarem o seu dinheiro ao futuro da Síria, jogam a favor de Damasco.

Mas é precisamente este ressurgimento que ameaça Israel. Por um lado, a reconstrução da linha de Hejaz, se bem-sucedida, diminuirá a importância de Israel para o IMEC e o seu papel como porta mediterrânica dos Estados árabes, pelo que o rápido aprofundamento das relações comerciais entre a Turquia, a Síria, a Jordânia, a Arábia Saudita e o Iraque ameaça deixar Israel de fora da construção da nova arquitetura do Médio Oriente. É certo que portos israelitas como Haifa continuam significativamente mais atrativos do que as alternativas libanesas ou sírias, com a vantagem adicional de o grupo Adani, que controla o porto de Mundra na Índia, deter também uma participação maioritária em Haifa, o que faz de Israel, ainda com alguma margem, o parceiro ideal para um projeto como o IMEC. Nesta linha, poder-se-ia objetar que esta superioridade portuária, sendo económica e não política, resistirá à erosão diplomática, e no curto prazo a objeção procede. Mas vemos cada vez mais os Estados da região dispostos a tolerar custos mais elevados hoje em troca de previsibilidade amanhã, pelo que a aposta em Israel, ainda que porventura a mais racional no imediato, poderá revelar-se pouco atrativa se Telavive não demonstrar intenção de moderar as suas tendências confrontacionais nem de viabilizar a autodeterminação palestiniana.

Por outro lado, uma Síria mais forte implicará sempre uma Turquia igualmente mais forte. O regime de Erdogan foi desde o início o maior patrocinador de al-Sharaa, evitando cuidadosamente projetar a imagem de uma Síria dominada por Ancara — imagem que agravaria as ansiedades dos restantes Estados árabes quanto a eventuais intenções neo-otomanas—, ao mesmo tempo que entrelaça o destino das duas nações. É esse entrelaçamento que faz da reconstrução síria um problema turco aos olhos de Israel: cada avanço de Damasco é também um avanço de Ancara nas suas fronteiras. E é aqui que reside o maior risco, uma vez que, com os Estados Unidos em retirada auto-imposta e o Irão militarmente derrotado e diplomaticamente isolado, a rivalidade entre Israel e a Turquia marcará a região num futuro próximo.

É esta a lógica que explica a postura israelita desde a queda de Assad. Netanyahu não tem interesse num Estado sírio unificado e forte, seja por constituir um rival direto na corrida à diversificação de rotas, seja porque, aos seus olhos, uma Síria robusta significa uma presença turca reforçada às portas de Israel. Daí que o primeiro-ministro israelita se tenha movido desde cedo para esvaziar o país enquanto potência militar: arrasou o que restava da força aérea síria, fortificou a fronteira, apoderou-se da zona-tampão que a ONU vigiava nos Golã e tem mantido ataques recorrentes em território sírio, incluindo em Damasco. A esse esforço militar soma-se um esforço de fragmentação interna: Israel tem procurado capitalizar as tensões étnicas entre o governo de al-Sharaa e os drusos, sobretudo em Suwayda, com o objetivo implícito de minar a integridade territorial do país. O ataque de 18 de agosto à base de Abu al-Duhur, em Idlib, condensa esta estratégia. A base estava inoperacional, mas o governo israelita justificou a operação alegando estar iminente o destacamento de tropas turcas para o local (a base situa-se a apenas setenta quilómetros da fronteira turca).

Não será coincidência que Netanyahu procure escalar o confronto com a Turquia a menos de dois meses das eleições para o Knesset. Apresentar Ancara como o novo Irão afigura-se como peça basilar da campanha do atual primeiro-ministro que se quer apresentar ao eleitorado como o único protetor à altura das ameaças que cercam o país. Mas seria erro reduzir estes ataques a puro eleitoralismo, até porque o cálculo eleitoral e o cálculo geopolítico aqui reforçam-se. À medida que a Síria se reconstrói e se insere no eixo sunita, mais real se torna a ameaça que representa para a visão israelita da região, e é essa ameaça de fundo que torna a Turquia um adversário tão conveniente nas urnas.

Isto não significa que um confronto militar direto entre Israel e a Turquia seja provável. Não o é, desde logo porque a Turquia é membro da NATO. Mas quanto a este ponto há, porém, uma nuance que convém não ignorar. Um ataque israelita a forças turcas na Síria não acionaria automaticamente o artigo 5º, uma vez que, nos termos do artigo 6º, a garantia de defesa coletiva se limita ao território dos Estados-membros e a determinadas zonas marítimas e aéreas. Por outras palavras, um ataque a uma base turca dentro da Turquia seria, por isso, juridicamente muito diferente de um ataque às mesmas forças em solo sírio.

No dia de ontem, Israel e a Grécia assinaram em Telavive um dos maiores contratos de exportação militar da história israelita: um escudo antimíssil de três mil milhões de euros, batizado Achilles Shield, cujas baterias serão instaladas, entre outros locais, nas ilhas do Egeu, a poucos quilómetros da costa turca. O simbolismo é óbvio. A rivalidade entre Israel e a Turquia continua a escalar nos seus vários palcos. Mas é na Síria que ela encontrará o seu teatro decisivo.

A Síria, se já é hoje uma peça fundamental, com o apoio dos seus parceiros, terá apenas tendência para aumentar o seu peso nos desenhos regionais. Mas esse ressurgimento apresenta-se como uma ameaça direta aos projetos económicos e militares de Israel para o Médio Oriente, excluindo Telavive dos novos corredores e abrindo a porta para uma reforçada presença turca no seu backyard geopolítico. A Síria arrisca-se assim a tornar-se o terreno onde a grande rivalidade da região se desenlaçará. Como sempre, a posição geográfica da Síria continuará simultaneamente a sua bênção e o seu martírio.