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(A) :: A propósito da memória digital

A propósito da memória digital

Eu desconfio das memórias que se ajustam à minha subjetividade e me capturam a alma, para lhes contar o que as suas máquinas nunca mais vão esquecer.

Rodrigo Adão da Fonseca
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O meu avô Aureliano, médico de profissão, avô por via paterna, tinha a fotografia como a sua grande paixão. Fotógrafo amador, são dele as melhores memórias da família de um certo tempo em que ele era o patriarca. Como dermatologista, construiu ao longo de décadas um espólio impressionante de fotografia médica, que guardava em diapositivos meticulosamente organizados. Penso que uma das suas fotos lhe valeu um prémio internacional, que o levou à Suíça durante um mês. Na casa da minha avó materna no Douro, as paredes tinham retratos de pessoas que nunca conheci, familiares com histórias que me foram contadas, mas que hoje já esqueci, e não faz mal, a vida mudou, e essas histórias ficaram com quem as viveu, porque a vida é efémera e são poucas as coisas que merecem perpetuar-se na memória do tempo. As paredes de casa dos meus pais permanecem forradas de livros, que contam histórias, e são elas a fonte de memória que vale a pena guardar, a par do que permanece perdido em gavetas que por vezes tenho a curiosidade de abrir.

Li algures, numa revista, que não temos uma câmara dentro da cabeça, que recordar é inventar outra vez, e pensei no meu avô e na minha avó. De cada vez que víamos os álbuns, algo de novo aparecia, e não garanto que as versões das várias histórias mantivessem grande coerência entre si. Esquecemos, graças a Deus, esquecemos, e é o esquecimento que nos vai limando as arestas dos dias, que deixa morrer com decência as pessoas que fomos, porque uma memória que nada perde, li isso também, acaba por não compreender coisa nenhuma, afogada na minúcia e na análise de cada segundo, de cada frase, de tudo e de todos.

No tempo em que vivemos, de repente, decidimos mudar as regras do jogo, e está a tornar-se consensual que não é nada útil esquecer. Gastam-se triliões, destrói-se o ambiente, consome-se energia e água, fazem-se guerras na luta por “matérias-primas raras”, porque temos de construir essa grande utopia da memória permanente e da capacidade de correlacionar tudo com qualquer coisa, porque parece, é daí que vai nascer um Homem Novo e um futuro mais brilhante para a Humanidade.

Estamos a construir máquinas que guardam tudo, sem cansaço, sem pudor, a fotografia de 2009 ao lado da fotografia de ontem, com a mesma luz, os mesmos rostos, a mesma tarde intacta, e não só guardam, atenção, contam, resumem, escolhem por nós, respondem-nos com uma vozinha solícita que junta os cacos e nos devolve uma história coerente sobre quem fomos, coerente e plausível, note-se, porque a verdade, para estes engenhos, é um detalhe que só os tolos ainda valorizam. E a história ajusta-se a quem pergunta, ao momento, ao contexto, ao gosto do freguês. Dantes, uma carta dizia o que dizia, um retrato mostrava aquele instante e não outro, os papéis eram teimosos como as tias velhas, não mudavam para nos agradar. Agora o próprio registo tornou-se moldável, obsequioso, e eu desconfio das memórias que se ajustam à minha subjetividade e me capturam a alma, para lhes contar o que as suas máquinas nunca mais vão esquecer.

E desconfio por mais do que uma razão, mas desde logo, porque ainda sou de um tempo onde duas pessoas saíam da mesma sala com visões diferentes, cada qual viu do seu lugar, guardou umas palavras, perdeu outras, e era dessa desordem que nascia o testemunho, a discussão, a história quando havia sorte, e da discussão saia solução, chamava-se pluralismo, era uma expressão da liberdade, ao passo que milhões a perguntarem o passado à mesma máquina recebem o passado já composto, penteado, sem hesitações, e não é preciso censura nenhuma, basta a comodidade, a censura somos nós a pedir mais, organizados em bolhas que se degladiam em blocos homogéneos onde pensar é um exercício demasiado cansativo que delegamos à máquina.

Lembro-me de Julie do filme do polaco, a que perde o marido e a filha e vende a casa, deita fora as partituras, corta com tudo, queria ser livre como só os mortos o eram, e a memória voltava-lhe pela música, sem pedir licença, entrava-lhe pela janela como os pardais. Não conseguiu esquecer, claro que não conseguiu, mas podia tentar, o mundo dava-lhe esse espaço, e o nosso já não dá, o arquivo devolve-nos a morada antiga, o rosto que quisemos perder, a frase infeliz de há quinze anos, nada prescreve, nada nos perdoa, e um dia destes nem a misericórdia de perder a nitidez nos deixam, a nós que precisávamos que o passado se calasse de vez em quando para podermos recomeçar.

Que as máquinas guardem os documentos, as contas, as certidões, nos ajudem em tantas coisas, tudo bem, elas guardam melhor do que eu, que perco tudo, e podem ser úteis em tanta coisa chata que vale a pena dispensar. Mas o que sei de cor ainda é meu, mistura-se cá dentro com o que li e com o que perdi, deforma-se, gasta-se, e é nesse gastar-se que se torna pensamento, como as pedras do rio. E não quero que me roubem a minha autenticidade, quero ser soberano sobre a minha subjetividade, e escolher o que sobre mim é público ou privado.

Durante milénios tivemos medo de esquecer, inventámos a escrita, os arquivos, os retratos, as nuvens, tudo para vencer essa pequena morte.

Agora, receio de quem procura por mim, e o que lhe vão contar; não será seguramente a versão do meu avô quando abria as suas gavetas e me mostrava os seus álbuns. Não gosto desta sensação de que os meus registos são todos eles calibrados, ordenados, e entregues a quem os peça, analisando apenas a parte de mim que é digital, sem conhecer a minha empatia, a minha forma de sorrir, as minhas manhãs difíceis, e o que me faz chorar. Não gosto destas gavetas que se abrem sozinhas, ou a pedido, feitas para agradar quem, na sua larga maioria, nunca me viu. Nós éramos feitos de experiência e esquecimento. Talvez só venhamos a dar conta disso tarde demais, à maneira do costume, quando a degradação seja, em muitos aspetos, irreversível.

A minha avó paterna era formada em medicina, e interessada pela psiquiatria, numa altura em que às mulheres este mundo era quase proibido. Parece que estava escalada para ir estudar com Freud, mas ficou em Portugal, porque casou. Nunca terá contado da sua desistência até que, um dia, o meu avô abriu as suas gavetas e descobriu uma série de documentos. Encontrou também um conjunto de cartas, todas por abrir, que, em tempo de guerra, do quartel, lhe enviou diariamente de Mafra. A minha avó, com quem vivi numa idade importante da juventude e me ensinou que “se os nossos pensamentos fossem públicos, ninguém sairia à rua de vergonha”, respondeu, ao que consta e se a minha memória já não está falha, “o que está nessa gaveta é meu, e peço que não a voltes a abrir. E sim, nunca abri as tuas cartas, nada do que ali tenha sido escrito me interessava”.

O mundo em que vivemos já não vai voltar atrás, mas vale a pena pensar, em que mundo tecnológico queremos viver no futuro.