A Garagem Atlântico, na Rua Alexandre Herculano, no Porto, vai ser convertida num “espaço cultural e criativo aberto à cidade”. Os responsáveis pelo projeto apontam a reabertura do antigo terminal rodoviário para 2028.
“Estamos muito contentes. É uma zona caracterizada por muitos hotéis, por isso ter esta oportunidade dada pelos investidores para desenvolver um espaço muito orientado para a cidade foi um desafio muito bom e estamos muito entusiasmados”, afirma ao Observador Filipe Teixeira, 48 anos, um dos curadores do projeto. Com um percurso ligado a espaços de referência da noite e da restauração portuense, como a discoteca Plano B ou a Pizzaria Generosa, o gestor foi abordado “há menos de um ano por um grupo de investidores e proprietários que tinham um espaço disponível para desenvolver um projeto ligado à comunidade, criativo, com uma forte componente social, cultural e empresarial”.
A liderança criativa conta ainda com a consultoria de José Rebelo — figura ligada ao LX Factory, ao Out Jazz, ao Mercado de Fusão e fundador do 8 Marvila, em Lisboa. A intenção é trazer para o Porto a dinâmica de “laboratório urbano” que caracterizou essas intervenções na capital. “O nosso objetivo é pegar num espaço que era de passagem, ponto de partida e chegada — era um “não lugar” — e torná-lo num ponto de paragem”, sumariza Filipe Teixeira, sublinhando que “a estrutura vai ser mantida, assim como o nome e a história”.
A Garagem Atlântico, situada na zona da Batalha, operou durante décadas como o principal terminal rodoviário privado de autocarros e expressos no centro do Porto. O edifício perdeu a sua função de central rodoviária em maio de 2017, altura em que as operações da operadora Transdev se transferiram integralmente para o Terminal Rodoviário do Campo 24 de Agosto — que acabaria por também perder o uso com a criação do Terminal Rodoviário de Campanhã. Desde então, o edifício tem estado de portas fechadas.

Com um investimento global estimado que “provavelmente chegará aos 10 milhões de euros, contando com a aquisição do imóvel”, a intervenção arquitetónica está a ser desenhada pelo Atelier Sérgio Rebelo, cabendo a identidade visual ao estúdio KOIÁSTUDIO. O espaço — que o curador descreve nesta fase como “uma tábua branca” — acolherá um cruzamento de valências. A gastronomia terá uma presença forte através de projetos permanentes e pop-up, coexistindo com áreas reservadas a novos criadores, como designers, alfarrabistas e lojas de discos. Também está prevista uma galeria de exposições com quase 300 metros quadrados, um mini-horto em formato de estufa ou uma zona de coworking. Outro dos pontos centrais da infraestrutura será uma blackbox — uma sala de espetáculos e clube insonorizado. “Pode ser usada num horário mais alargado, até porque tem uma entrada independente”, detalha o curador, apontando para uma utilização versátil que vai desde o teatro e a dança até aos concertos e DJ sets.
As obras deverão arrancar no início de 2027 e durar pelo menos um ano, estando o projeto conceptualmente desenhado para não abrir completamente preenchido. “Queremos ter a certeza de que o projeto é adequado à cidade e que temos os parceiros certos, mas acima de tudo queremos que abra com uma ocupação mínima”, clarifica Filipe Teixeira. A ideia é “deixar espaço para que lojas e exposições possam ser apropriadas e ocupadas à medida que o projeto abre ao público”, mantendo uma dinâmica viva de rotação. Entre as parcerias já alinhadas estão a plataforma de arte urbana Circus Network e a East Side Radio, rádio local independente que passará a emitir diretamente do edifício. “Queremos ter uma faixa etária de pessoas muito abrangente”, remata o curador.
Quatro dias de portas abertas antes de as máquinas entrarem
Antes de as máquinas entrarem e de a transformação arrancar, o público vai poder espreitar o espaço por dentro. Entre os dias 10 e 13 de setembro, a antiga garagem abre as portas em formato open house, num evento que serve de ensaio geral para a convivência entre as várias linguagens artísticas que virão a passar por ali.
Ao longo de quatro dias, a estrutura pré-obras acolhe uma programação que inclui feiras de vinil e livros, DJ sets, concertos e sessões de cinema, a par de workshops de cerâmica, pintura e yoga. A oferta inclui ainda uma exposição curada pela galeria Because Art Matters, um segmento com curadoria do Bloom Festival e atividades dedicadas às famílias. Segundo a equipa promotora, este momento funciona como um diagnóstico prático do espaço — uma “tábua branca” posta à prova — para aferir a recetividade do público e validar os modelos de parceria que integrarão a oferta futura do espaço.

Investidores anónimos
A narrativa pública do projeto constrói-se em torno da devolução do imóvel à cidade, assumindo até a escolha por um modelo de menor rentabilidade em detrimento de mais um hotel. Por trás da operação estão “mais de 30 investidores de diferentes nacionalidades com mais investimentos no Porto”, que preferem manter o anonimato.
Consultada pelo Observador, a certidão do Registo Predial resgata o percurso imobiliário do número 126 da Rua de Alexandre Herculano: o espaço, originalmente de Manuel Alberto Mendes Ramirez, foi vendido em agosto de 1981 à sociedade Alberto Martins de Mesquita & Filhos, Lda. Mas a empresa viria a entrar em asfixia financeira, colapsando num processo de insolvência no início da década de 2010. Formalmente encerrada a liquidação a 4 de dezembro de 2025, a sociedade permanece inativa, mas os registos averbaram ainda uma movimentação relevante: em junho de 2025, uma das frações do prédio viu a sua afetação alterada para uso habitacional.
Questionada sobre o futuro do antigo terminal, a Câmara Municipal do Porto remeteu ao Observador que, por não se tratar de um imóvel municipal, a autarquia não tem qualquer envolvimento no projeto, limitando-se ao papel de entidade licenciadora caso venha a ser submetido um pedido de controlo prévio de operação urbanística.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]