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Novo ascensor da Glória deve ser inaugurado em 2029, diz Carris. "O ascensor será novo, o lugar continuará histórico"

Futuro ascensor da Glória será totalmente novo, revelou a Carris. Terá duas cabines, que não serão de madeira, e travagem automática. Concurso será lançado no início de 2027, para inaugurar em 2029.

Alexandra Machado
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O Elevador da Glória será totalmente novo. “É uma nova instalação” e a “solução para o futuro” que foi anunciada em Lisboa, na Ordem dos Engenheiros, pela Carris, que resultou “de um processo complexo”, realçou Rui Lopo, presidente da transportadora.

No primeiro trimestre do próximo ano deverá ser lançado o concurso público internacional, para que em 2029 possa ser inaugurado. “Queremos que até ao final do primeiro trimestre de 2027 o concurso esteja lançado, de forma a que até ao ano de 2029 seja possível inaugurar”, indicou Luís Gonçalves, diretor de novos empreendimentos da Carris que, no entanto, alertou para alguma vicissitude que atrase este calendário.

Na próxima quinta-feira passa um ano do acidente do Elevador da Glória, que provocou 16 vítimas mortais e cerca de 20 feridos. Sem que se saiba ainda em definitivo o que provocou o acidente — as auditorias ainda decorrem –, a Carris anunciou “a solução para o futuro” do Elevador da Glória. Mas pouco se ficou a conhecer do projeto técnico e muito menos do investimento que será necessário.

A solução ainda vai ser desenhada nos próximos cinco meses e a Carris não divulga para já o desenho completo que esta terá. Só indica que será uma solução nova. Também não divulga estimativas de investimento. “O valor em concreto depende da solução técnica definitiva que vier a ser desenvolvida”, indicou Gonçalo Reis aos jornalistas, dizendo acreditar que não será difícil encontrar soluções para o seu financiamento.

A Carris, com uma comissão técnica independente, decidiu avançar para um Elevador da Glória totalmente novo, que não passará pela recuperação do anterior ou de partes do anterior. Vai ser aproveitada a oportunidade para revitalizar toda a Calçada da Glória, mantendo-se o acesso aos peões, mas impedindo a circulação automóvel.

“A recuperação do sistema anterior não corresponderia a uma simples reparação ou reposição. O acidente provocou danos profundos em todo o sistema”, o que justifica a decisão de avançar para um sistema novo. “Uma réplica exata não permitiria responder plenamente aos atuais requisitos de segurança, acessibilidade, conforto, operação e manutenção”, ainda que “o objetivo seja o de preservar os elementos essenciais da identidade da Glória, sem reproduzir literalmente as soluções técnicas e construtivas do passado”, diz a Carris num conjunto de informações divulgadas sobre a nova solução.

“A responsabilidade da Carris não era apenas reconstruir o passado, mas projetar o futuro. Não é apenas uma solução para o novo ascensor”, mas é uma solução que assenta em cinco princípios orientadores do trabalho a desenvolver. “Estamos perante uma nova instalação” que tem de ser “absolutamente segura”. A preservação da Calçada da Glória ficará assegurada, “como a conhecemos nos últimos 140 anos”, maximizando a continuidade da utilização pública da calçada. Ascensor, calçada, até a própria inclinação fazem parte da identidade e serão preservados. “O ascensor será novo, o lugar continuará histórico”, indicou Rui Lopo.

A resposta “tem de passar por aprender com a experiência para fazer uma solução mais segura, mais robusta e mais preparada para o futuro”, concluiu Rui Lopo. “Preservar não significa ficar parado no tempo, mas significa que vai continuar a existir”.

Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, explicou que o mandato dado à Carris assenta em quatro eixos:

  1. A Carris tem de desenvolver uma solução robusta e tecnicamente avançada, que garanta a eficácia e a segurança ao nível das melhores práticas do mundo;
  2. Solução forte em termos de mobilidade e transportes que se compatibilize com a requalificação do espaço público;
  3. Solução moderna, avançada, tecnológica mas que em paralelo respeite a identidade, o caráter e a personalidade do Elevador da Glória, que é um equipamento histórico. A solução deve assim ser moderna mas mantendo presente o caráter próprio do Elevador da Glória;
  4. E que seja um processo exemplar, feito através de concurso público internacional, transparente, com participação máxima de parceiros em igualdade de circunstâncias.

O autarca garante que “validámos a proposta apresentada” pela Carris.

“Reconstruir não vai significar esquecer e vai acrescentar uma nova camada de história”, indica Leonor Medeiros, do grupo de trabalho que está a trabalhar na solução futura.

Duas cabines (sem ser de madeira) e travagem automática

Pouco se sabe sobre o desenho final da solução que será adotada para o futuro Elevador da Glória e mesmo a imagem apresentada ainda é apenas uma representação conceptual. O desenho técnico definitivo vai ser trabalhado nos próximos cinco meses.

Para já, Rui Lopo, presidente da Carris, garante apenas que terá duas cabines, com guarda-freio, mas não está ainda decidido se funcionarão de forma autónoma uma da outra. No antigo Elevador da Glória, as duas cabines estavam ligadas. Ainda assim, num conjunto de informação que a Carris colocou disponível no seu site indica-se que, “tendencialmente”, o novo sistema “continuará a funcionar com duas cabines ligadas por cabo”. “É essa a solução que a Carris validou junto de especialistas como sendo aplicável ao caso da Calçada da Glória e aquela que considera continuar a ser a melhor para este sistema”.

A Carris garante, por outro lado, que as cabines já não serão de madeira e terão de ser de materiais que não se partam facilmente. As cabines não poderão ser iguais às anteriores que “não sustentavam os requisitos de segurança exigidos atualmente”. Só a identidade característica dos elevadores históricos da Carris será preservada.

A Carris quer que o novo ascensor seja concebido como “um sistema integrado”, “sujeito aos requisitos atualmente aplicáveis a uma infraestrutura de transporte de passageiros”. Ou seja, Rui Lopo garante que não será um equipamento excecionado (que não precisa de cumprir algumas regras) como o Elevador da Glória era. “Independentemente da solução mecânica que venha a ser adotada, pretende-se que o futuro sistema disponha de uma arquitetura tecnológica integrada, capaz de articular o comando e controlo do equipamento, a instrumentação de segurança, a monitorização dos subsistemas críticos, o registo de eventos, o diagnóstico técnico e o apoio à manutenção”, realça a Carris, acrescentando que as evoluções têm de abranger os sistemas de tração e frenagem; a supervisão e monitorização do funcionamento; a deteção de obstáculos e de situações de risco; a segurança estrutural e passiva das cabines; as condições de acessibilidade e conforto dos passageiros; os procedimentos de operação e manutenção; os sistemas de comunicação e controlo; e a articulação entre o equipamento e o espaço público”.

Serão ainda avaliados “princípios de redundância, defesa em profundidade, funcionamento em condição segura perante falha, ou fail-safe, e a segurança funcional dos sistemas de comando e controlo”. E será avaliada a criação de um gémeo digital (representação tridimensional digital da infraestrutura) do mecanismo, que também ajudará na sua manutenção e supervisão.

Ou seja, não estando ainda definidas as soluções técnicas, a Carris garante que “o objetivo é desenvolver um sistema global no qual diferentes medidas e níveis de proteção contribuam, de forma articulada, para a prevenção e o controlo do risco”.

As cabines e a própria Calçada serão adaptadas para permitir a pessoas com mobilidade reduzida a sua utilização. Não há ainda indicação de quantas pessoas pode levar cada cabine que também dependerá em função do espaço a reservar para passageiros com mobilidade reduzida.

As intervenções acontecerão em toda a envolvência, quer à superfície, quer no subsolo, já que a calçada é parte da infraestrutura do equipamento.

E se a Calçada continuará com peões, não terá carros, essa indicação foi dada por Rui Lopo: “A Calçada da Glória era permeável a automóveis, mesmo que o elevador estivesse a funcionar. No futuro, já não vai ser possível”, diz, ainda que no site da Carris a informação seja um pouco mais recuada. “A organização futura do espaço público e as condições de circulação ainda não têm uma solução fechada. Contudo, estão a ser avaliadas diferentes soluções para a coexistência entre o Ascensor, os peões, os residentes, os serviços de emergência e os restantes utilizadores da Calçada, tendo como prioridade a segurança e o adequado funcionamento do sistema. Qualquer decisão será tomada no âmbito do desenvolvimento do projeto e em articulação com as entidades competentes, mas a nova solução terá regras diferentes e mais exigentes quanto aos atravessamentos e outras utilizações rodoviárias”.

Por outro lado, a reabilitação da Calçada recuperará outras estruturas “esquecidas”. O arquiteto que está a trabalhar no projeto, Ricardo Bak Gordon, reforça que todo o enquadramento da Calçada será trabalhado, inclusive recuperando o chafariz que, lamenta, “não está a funcionar e está enterrado na calçada”.

Concurso público internacional para nova unidade. Manutenção terá componente externa

A Carris pretende lançar um concurso público internacional até ao final do primeiro trimestre de 2027 para a conceção e instalação do novo ascensor. Espera ter a nova estrutura pronta em 2029, mas vai já alertando para possíveis atrasos face a essa data. Não se compromete com valores de investimento. Garante apenas que será um concurso transparente e que precisa de tanto tempo para a conclusão porque se realiza em duas etapas paralelas: a construção de duas novas cabines e a construção integral da nova infraestrutura na Calçada da Glória.

Questionado quanto à manutenção dos novos equipamentos, Rui Lopo garante que “há uma orientação interna clara de reforçar aquilo que são as nossas capacidades, o nosso conhecimento, para respondermos mais e melhor em questões de manutenção”, inclusive, como o Observador já avançou, contratando novos quadros. Mas o presidente da Carris assume que não é possível fazer tudo internamente. “Há algum tipo de externalização que tem de continuar a ser feita. Há matérias que são tão específicas e que os técnicos são tão certificados que em Portugal não existe experiência suficiente, expressão suficiente. Portanto, algumas matérias têm de continuar a ser externalizadas, outras nós vamos reforçar”.

Para já a Carris revogou todos os contratos de fornecimento que tinha com a empresa de manutenção que trabalhava no Elevador da Glória, a MNTC e que, segundo o Público, foi constituída arguida no processo de investigação ao acidente.

https://observador.pt/especiais/carris-deixou-de-ter-contratos-de-manutencao-com-mntc-depois-de-acidente-do-elevador-da-gloria/

Acontecimento será recordado em museu e memorial. Quando, não se sabe

Ricardo Bak Gordon, arquiteto que está a trabalhar no novo ascensor, diz que está a ser olhada esta situação como “uma oportunidade para a revisão crítica do lugar”, tendo comparado a consequência do acidente do Elevador da Glória com o incêndio do Chiado e até com a guerra civil espanhola. E foi com o quadro Guernica, de Picasso, em pano de fundo que indicou que “é nossa intenção memorizar o acontecimento e musealizar, nomeadamente partes da carruagem 1, e que isso venha a ser também visitável e parte do processo de musealização”.

Todos os componentes que sejam desmontados “serão alvo de um registo arqueológico e documental rigoroso, garantindo a sua identificação, catalogação e conservação” e a cabine “será preservada e irá integrar um núcleo expositivo, valorizando assim o património associado ao Ascensor da Glória”, indica a Carris.

Haverá um memorial que deverá ser inaugurado esta semana, segundo tinha avançado o Correio da Manhã.

Decorrem ainda as auditorias internas e externas e as investigações sobre o acidente do Elevador da Glória. O GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Ferroviários) já anunciou que iria ter o relatório final no primeiro trimestre do próximo ano.

Neste momento há quatro indemnizações pagas para 16 mortos e cerca de 20 feridos. Gonçalo Reis garante que a Fidelidade, que é a seguradora da Carris, já apresentou propostas a todos, alguns aceitaram, e “espero que sejam resolvidas o mais rapidamente possível”, salienta Gonçalo Reis.

“É um acidente que marca profundamente a cidade, a Carris e os seus trabalhadores”, assegurou Rui Lopo.

Restantes elevadores ainda sem decisões

Quanto aos outros elevadores (Bica, Lavra e Santa Justa), Rui Lopo não se compromete com o que irá acontecer. Estão a ser avaliados pela comissão técnica independente. “A comissão técnica independente está a trabalhar, juntamente com a Carris, e um conjunto de gente para avaliar tecnicamente sobre a matéria”, mas “ainda é prematuro avaliar o que é que, efetivamente, vai acontecer”. “Os processos são demorados e complexos tecnicamente. Está a ser feita a avaliação técnica rigorosa, a segurança não é negociável, não pode haver precipitações”, realça Rui Lopo.

Ainda que a análise ao Elevador de Santa Justa esteja mais avançada. Mas mesmo nesse caso, Rui Lopo não se compromete com prazos de abertura. “Está mais avançada, mas ainda vai demorar. Está dependente de tanta coisa”, exemplificando com a falta de fornecedores para este tipo de estruturas.

Para já, só o Funicular da Graça está em operação. Foi reaberto ao público a 30 de abril de 2026.