(c) 2023 am|dev

(A) :: O xerife que pode ter a bala de prata da direita para Belém

O xerife que pode ter a bala de prata da direita para Belém

Direita precisa de candidato para enfrentar Seguro em 2031. Calendário e posições sobre segurança e imigração, a que soma veia liberal, podem tornar Moedas no cimento do espaço não-socialista.

Rui Pedro Antunes
text

António José Seguro venceu de forma tão clara na segunda volta que, logo na noite eleitoral, houve quem antecipasse que o novo Presidente estava na prática a conquistar uma estadia de 10 anos em Belém. O próprio, cauteloso e institucionalista, fala sempre em cinco anos de mandato. Alguns dos seus mais próximos conselheiros garantem, aliás, que o chefe de Estado não dá como adquirido que ficará uma década em Belém — até porque considera o contexto, de maioria de direita, desfavorável a uma reeleição tranquila.

A grande dúvida é: quem teria notoriedade e seria suficientemente agregador, à direita, para poder desafiar um Presidente em funções? Apesar de faltarem quatro anos e meio, nas hostes laranjas já circula um potencial candidato à boca pequena: o presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas. A hipótese é certamente extemporânea (menos, claro, no plano da análise política), mas pode não ser totalmente descabida. Alguns astros podem alinhar-se nesse sentido.

Desde logo, o calendário não é desfavorável. O presidente da câmara de Lisboa prometeu no último Congresso do PSD, em junho, em Anadia, que iria conseguir obter a maioria em Lisboa em 2029, anunciando de forma velada a recandidatura para um terceiro e último mandato. Caso seja reeleito no final do verão/outono de 2029, Moedas poderia sair um ano depois para se candidatar a Belém. Não o faria sem críticas da oposição — de abandono, falta de respeito pelo eleitorado, entre outros mimos — mas até estaria a prestar um serviço ao partido dando tempo a um sucessor para se afirmar (como Costa fez com Fernando Medina).

O histórico da política nacional também diz que um presidente da câmara de Lisboa, quase só pela circunstância de ter ocupado o cargo, se torna presidenciável. O exemplo mais claro disso é Jorge Sampaio que saiu a meio do segundo mandato para se dedicar à campanha presidencial e foi eleito Presidente da República. Esse foi um caso de sucesso eleitoral, mas houve outros potenciais candidatos. Pedro Santana Lopes dois anos e três meses depois de ser eleito presidente da câmara de Lisboa chegou mesmo a dizer numa entrevista ao Expresso, em fevereiro de 2004: “Se for candidato às presidenciais [de 2006] julgo que as ganho”. A partir daí apareceu em diversas sondagens para Belém.

António Costa, depois de ser presidente da câmara de Lisboa, também foi muitas vezes apontado à chefia do Estado. Quando tentava a fuga inopinada no terceiro mandato, em vésperas das fraticidas primárias socialistas em Lisboa, o então todo-poderoso Jorge Coelho chegou a dizer que o autarca deveria ir para Belém: “Um [António José Seguro] ia para primeiro-ministro e o outro [António Costa] para a Presidência da República, evidentemente, pelas características que tem, não o estou a ver a ficar na Câmara de Lisboa.” Em abril de 2024, Costa foi até apontado como favorito em sondagens presidenciais — cargo que sempre achou demasiado aborrecido para ocupar. Não é, por isso, sequer inovador que um partido olhe para o presidente da maior autarquia do País como presidenciável.

Carlos Moedas teria depois de unir a direita em torno de um candidato, o que será mais fácil para ele do que para muitos outros notáveis do PPD. O presidente da câmara de Lisboa tem, por exemplo, um discurso securitário que é muito mais próximo da linha do Chega do que a posição oficial do seu partido. O vice-presidente do PSD tem tido uma guerra com Luís Neves (o que, já agora, também o deixa bem visto à direita) a exigir mais polícias em Lisboa. Nem sequer tem pudor, nesta matéria, em adotar um discurso mais popular, ou até populista.

Quando a justiça libertou um suspeito de estar envolvido num tiroteio na Baixa de Lisboa, Moedas recorreu às redes sociais para dizer: “É inaceitável esta decisão! Além do exemplo socialmente reprovável que se transmite, é também um sinal de falta de autoridade para as nossas forças de segurança”. Os contornos não estão claros, até porque a vítima, uma mulher sueca, foi atingida após uma troca de tiros entre vendedores de louro prensado e a medida de coação aplicada ao suspeito acabou por ser violência doméstica. Apesar de ter sido aplicada a lei, e de se terem seguido os princípios do Estado de Direito, Moedas ativou o modo xerife e declarou que aquele homem tem de estar detido. Na Universidade de Verão do PSD, na sexta-feira, voltou a repeti-lo: “Uma senhora leva um tiro em plena Baixa de Lisboa e o suspeito já foi libertado. Isto é normal neste país?” Este discurso é música para os ouvidos de muitos eleitores lisboetas, mas também para os eleitores (nacionais) do Chega.

Apesar de ser um homem que vem da Comissão Europeia — que tem uma agenda progressista e muitas vezes é acusada de wokismo pela direita conservadora e radical — Moedas tem tido decisões que agradam a conservadores. Rejeitou ter a bandeira LGBTQIA+ no município, hasteando-a apenas na praça em frente. Além desse gestos e da visão securitária, Carlos Moedas também esteve sempre um passo à frente do PSD no pedido de regulação da imigração e — já com o Governo de Montenegro em funções — avisou que o País não podia “aceitar uma política de portas escancaradas que conduz à desordem”. Tudo isto lhe dá crédito à direita do PSD.

Por outro lado, se há uma característica que Moedas herdou da Comissão Europeia é o pendor liberal na economia. É verdade que os transportes gratuitos e a oposição ao licenciamento zero, por exemplo, contrariam essa visão, mas o homem das Fábricas de Unicórnios é defensor do investimento estrangeiro e também do desagravamento fiscal (como a devolução da participação municipal do IRS, além de ser o precursor da ideia de redução do IMT para jovens na compra da primeira habitação). Por esta veia de Chicago que trouxe de Bruxelas, Moedas também cola bem junto dos liberais, mesmo que lhe falte um certo je ne sais quoi que parece ser distintivo para Cotrim quando se submete a votos. E, sem esquecer, claro, que já uniu liberais numa coligação em Lisboa.

Na mensagem política, Carlos Moedas também é um polarizador. Poucos no PSD conseguem diabolizar a esquerda-ex-geringonça como o autarca de Lisboa. Malhar no PS, no Bloco de Esquerda e no PCP (apesar dos elogios constantes ao vereador João Ferreira) é a modalidade preferida de Moedas — o que ajuda a criar o antagonismo esquerda-direita. O único caminho para derrotar António José Seguro, em 2031, seria nopolarizar o debate entre um candidato de esquerda e de direita. Moedas teria, aparentemente, condições para protagonizar uma candidatura unida da direita a Belém. Seria, porventura, mais difícil passar da primeira volta do que vencer a segunda.

Ainda falta muito tempo. E é certo que António José Seguro é o incumbente, pelo que tem mais do que razões para ser o superfavorito à vitória nas Presidenciais de 2031. Além disso, a primeira ambição de Carlos Moedas foi sempre ser primeiro-ministro, não sendo de descartar que — dependendo do contexto — possa querer entrar na corrida à sucessão de Montenegro (o que só se atravessará neste calendário se o atual chefe de Governo não vencer as próximas legislativas). Apesar de ser cedo, a atuação política e o calendário eleitoral são favoráveis a que Carlos Moedas possa vir a ser o candidato da direita. Só há mais uma nuance: para vencer a chefia do Estado ainda tem de voltar a vencer Lisboa. E, também fruto do contexto, pode ser mais fácil vencer uma eleição nacional do que as eleições na capital.