1.412. Na sexta-feira, este será o número de dias em que Giorgia Meloni terá ocupado o cargo de primeira-ministra de Itália. Governando o país desde outubro de 2022, prepara-se para bater um recorde na política italiana, tradicionalmente associada à instabilidade. O atual Executivo italiano vai tornar-se aquele que tem o mandato ininterrupto mais longo desde a ditadura do duce Benito Mussolini, ultrapassando o segundo Governo de Silvio Berlusconi. Um feito histórico que a primeira-ministra não deixará passar sem celebrações — será um feito um comício em Bari, no sul de Itália, que contará com um discurso de Giorgia Meloni.
Aliás, ainda falta um ano para o mandato do Governo italiano terminar — acaba apenas na segunda metade de 2027. No entanto, o recorde desta sexta-feira provou que a aliança à direita montada por Giorgia Meloni foi bem-sucedida. A primeira-ministra juntou-se à Lega de Matteo Salvini, de direita radical, e à Forza Itália, o partido de centro-direita que foi fundado pelo antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Esta grande coligação à direita abriu caminho para a estabilidade em Itália, que tinha vindo de períodos marcados pela agitação política.
Os escândalos de corrupção associados a Silvio Berlusconi contribuíram para um clima de instabilidade em Itália, assim como uma profunda desconfiança nas instituições públicas. O surgimento de um partido antissistema como o Movimento Cinco Estrelas (M5S), que venceu as eleições de 2018, evidenciou que os eleitores queriam alternativas políticas.
Em 2021, em plena pandemia e durante uma grave crise económica, o Presidente da República italiana, Sergio Mattarella, deu posse a um governo de unidade nacional liderado por Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu. Após esse período, Giorgia Meloni soube capitalizar o desgaste das forças políticas tradicionais e assumir as rédeas de um Governo de direita.

É certo que há algumas brechas na coligação que lidera o país: a Lega continua a adotar uma retórica mais radical, principalmente na área da imigração, enquanto a Forza Italia prefere um tom mais institucional e moderado. Contudo, Giorgia Meloni tem conseguido conciliar as diferentes sensibilidades da aliança.
Internamente, aproxima-se de Matteo Salvini e defende medidas migratórias mais restritivas, mantendo uma agenda social conservadora — manifesta várias dúvidas sobre o aborto e opõe-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Externamente, mantém boas relações com os dirigentes da União Europeia (UE) e apoia a Ucrânia sem rodeios, o que sossega o centro-direita.
Este ato de equilibrismo levou a que estivesse 1.412 dias à frente do Governo italiano. Giorgia Meloni tem demonstrado que sabe antecipar-se às crises políticas, domina a retórica difundida nas redes sociais — do centro à extrema-direita —, projetando uma imagem de firmeza e estabilidade. Não é por isso surpreendente que, em praticamente todas as sondagens, o seu partido, Irmãos de Itália, continue à frente com uma vantagem confortável sobre o centro-esquerda, representado pelo Partido Democrático (PD), que continua a ser o seu grande rival político.
A sina da instabilidade política em Itália que Giorgia Meloni conseguiu superar
Em 1861, Vítor Emanuel II unificou a Itália, até então composta por diferentes estados. O país converteu-se inicialmente numa monarquia constitucional com vários governos de orientação liberal. Ainda assim, estes tiveram sempre dificuldade em manter-se no poder. Num fenómeno designado por trasformismo, inserido num sistema político que permitia o voto apenas a alguns homens, os governantes trocavam de partido com bastante frequência com base em interesses pessoais. Os Governos eram de curta duração: em 47 anos, o país teve 20 primeiros-ministros.

Este foi o padrão da política até à Primeira Guerra Mundial, na qual Itália se manteve inicialmente neutra, juntando-se depois à Tripla Entente e terminando como uma das vencedoras. Depois disso, em 1919, o direito ao voto foi expandido a todos os homens. Porém, por essa altura, o país ainda vivia os efeitos devastadores do conflito, estando mergulhado numa profunda crise económica e social, ao mesmo tempo que surgia a ameaça do comunismo, que já se tinha imposto na Rússia. Foi neste contexto que emergiu Benito Mussolini, um antigo dirigente socialista que abandonou a extrema-esquerda e fundou o movimento fascista.
Após a Marcha sobre Roma em 1922, o Duce governou o país durante mais de duas décadas, transformando Itália numa ditadura fascista. Benito Mussolini manteve-se no poder até ser deposto em 1943, acabando fuzilado em 1945, ano do final da Segunda Guerra Mundial, na qual aliou o país à Alemanha nazi. Após o conflito, Roma aboliu a monarquia (que tinha coexistido com o regime fascista) e tornou-se uma república assente numa democracia liberal ao estilo ocidental.
A nova fase da política italiana deu a hegemonia ao centro-direita do partido Democracia Cristã, que venceu consecutivamente várias eleições, disputando o poder com o Partido Comunista italiano. Nos anos 90, o megaescândalo de corrupção conhecido como Mani Pulite (Mãos Limpas) veio abalar a estrutura política que vigorava desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Os partidos tradicionais sofreram um forte processo de descredibilização e abriu-se uma nova fase no país. O principal rosto desta mudança? Silvio Berlusconi.

O influente empresário da área da comunicação social dominou a política italiana durante décadas, consolidando-se em Itália um sistema de bipartidarismo. Como acontecia em muitos países europeus, Silvio Berlusconi disputava o poder sobretudo com o centro-esquerda, que mais tarde se organizou em redor do Partido Democrático. Contudo, um novo escândalo veio abalar a política do país a partir de 2010: as polémicas associadas às festas sexuais Bunga Bunga, nas quais o primeiro-ministro tinha participado.
Em 2010, juntamente com os escândalos das festas, Itália vivia também os efeitos profundos da crise financeira que afetou a Europa, o que contribuiu ainda mais para a instabilidade política. Assim, um ano depois, o na altura Presidente italiano, Giorgio Napolitano, nomeou um governo chefiado pelo tecnocrata Mario Monti, que durou até 2013. Porém, a confiança nas instituições parecia afundar-se de vez. Surgiu, neste contexto, o partido antissistema Movimento Cinco Estrelas, ao mesmo tempo que a direita radical da Lega ia ganhando força.
As eleições de 2013 deram a vitória ao centro-esquerda, mas não havia maioria para governar, o que tornou Itália praticamente ingovernável. O bipartidarismo instalado desde os anos 90 dava os últimos sinais de vida — ao mesmo tempo que o M5S e a Lega foram subindo nas intenções de voto. Tanto assim foi que, nas eleições de 2018, o Movimento Cinco Estrelas foi o partido mais votado e acabou por formar uma coligação com Matteo Salvini. A aliança durou, ainda assim, pouco tempo.

Itália voltou, em 2021, a um Governo de unidade nacional — apoiado por praticamente todos os partidos (da Lega ao Partido Democrático), à exceção do Irmãos de Itália e outras pequenas forças políticas. Na altura já liderado por Giorgia Meloni, este isolamento na oposição acabou por ser a chave do sucesso. Na altura, a agora primeira-ministra mantinha também uma retórica bastante mais radical, apresentando-se como a principal força antissistema no país. Esse esforço resultou, montando uma coligação com a Lega e a Forza Italia para as eleições de 2022.
O partido Irmãos de Itália venceu as eleições em 2022. Giorgia Meloni tornou-se a 31.ª pessoa a ocupar o cargo na era republicana — num país que teve 68 governos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, sinal de como a instabilidade é uma das marcas da política italiana. Jogos de bastidores, um sistema partidário fragmentado, golpes palacianos e vendettas políticas foram uma constante ao longo das décadas. Sobreviver a tudo isto era, afinal de contas, o principal desafio da chefe de Governo.
1.412 dias depois, Giorgia Meloni sobreviveu a este sistema estrutural instável e parece que isso vai continuar até às próximas eleições. Manteve a aliança que forjou inquebrável, num contexto internacional bastante complexo. Soube lidar com os dirigentes europeus, convencendo-os de que não era uma ameaça. Paradoxalmente, as relações com aquele que poderia ser o seu maior aliado — Donald Trump — azedaram, assim como a primeira-ministra soube conter as simpatias de Matteo Salvini e fechou totalmente as portas à influência da Rússia.

Ao atingir esta marca, lidera agora o governo ininterrupto mais duradouro da história da República Italiana, superando o recorde do segundo mandato (entre 2001 e 2005) daquele que foi um dos seus aliados (e até padrinhos) políticos, Silvio Berlusconi, que continua a ser o líder que mais tempo acumulado comandou Itália durante a democracia. Na história moderna do país, a longevidade do seu executivo só é ultrapassada pela de Benito Mussolini, que governou durante quase 21 anos. Contudo, o Duce instalou uma ditadura fascista e eliminou totalmente a oposição e as eleições livres e democráticas — ao contrário de Giorgia Meloni.
Estabilidade, mas a que custo? A falta de reformas, mas as contas certas de Meloni em Itália
Apesar da estabilidade, nem tudo são vitórias. A primeira-ministra conseguiu impor-se e controlou o sistema, mas está longe de o dominar. Em março deste ano, Giorgia Meloni sofreu uma pesada derrota: em referendo, os italianos chumbaram uma reforma judicial promovida pelo Irmãos de Itália e pelos seus parceiros na coligação.
Tal como muitos políticos do mesmo espaço ideológico, a chefe do Executivo considera que o sistema judicial “está politizado” e inclinado a favorecer a esquerda. Mais além do que isso, os tribunais têm-se oposto sistematicamente a várias medidas na imigração tomadas pelo Governo, algo que tem gerado profunda frustração.
Nas sondagens, o Irmãos de Itália continua à frente com cerca de 27% das intenções de voto — um resultado em linha com o que o partido angariou em 2022. Por outras palavras, Giorgia Meloni conseguiu, pelo menos, manter a sua base eleitoral satisfeita. A taxa de aprovação também se tem mantido estável: segundo uma sondagem da Ipsos no final de julho, 42% dos inquiridos aprovam a atuação da primeira-ministra. Embora não seja a figura política mais popular do país, também não gera uma profunda rejeição.
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Ainda assim, os críticos apontam precisamente que, apesar de a estabilidade até ter beneficiado o país, Giorgia Meloni governa com algum imobilismo, preocupando-se somente com os bons números das sondagens. A líder da oposição e secretária-geral do Partido Democrático é da opinião que foi uma “oportunidade histórica perdida”. Para Elly Schlein, Itália apresenta um crescimento económico pouco expressivo, registou-se um aumento do custo de vida e o sistema de saúde público continua com graves problemas.
O Irmãos de Itália tem ripostado esta versão da oposição. A primeira-ministra defendeu, numa longa entrevista ao New York Times, que o país está melhor do que em 2022 em várias áreas — como na taxa de desemprego, na inflação, no controlo da imigração e nos cuidados de saúde. “Mas é possível que não tenha feito nada”, disparou ironicamente Giorgia Meloni.
Os números efetivamente corroboram em parte a tese da primeira-ministra italiana. A taxa de desemprego baixou para níveis históricos — situando-se nos 6%. O défice orçamental passou de 8 para 3%. O número de migrantes desceu para metade: se em 2023 chegaram 157.651 pessoas às fronteiras italianas, em 2025 esse número caiu para 66.316. Num país com uma dívida pública que chega aos 139% do PIB, o Governo de Itália foi bem-sucedido em manter as contas certas e a promover a responsabilidade fiscal.

Há obra feita, é facto. No entanto, vários especialistas acreditam que Giorgia Meloni governou de forma superficial — e não deu resposta aos problemas estruturais que afetam Itália. À Reuters, Lorenzo Pregliasco, fundador da consultora YouTrend, frisa que “parte da razão pela qual Meloni foi capaz de ficar no poder quase quatro anos é que ela não tentou mudar muita coisa nem tentou desagradar aos eleitores”.
“É a lição mais valiosa que podemos tirar deste período”, conclui.
Na mesma linha, Lorenzo Codogno, líder da consultora económica LC Macro Advisors, vê com bons olhos a “responsabilidade fiscal” do Governo, sublinhando que serviu para atrair investimento estrangeiro. Se no passado a constante instabilidade política levava muitos investidores a afastar-se do país, esse cenário alterou-se com Giorgia Meloni. Contudo, o mesmo especialista aponta à Reuters que “não foi feito muito” no sentido de “promover o crescimento e reformar a economia”.
“Este governo procurou, sobretudo, sobreviver“, declarou à Agence France-Presse Tito Boeri, economista da Universidade Bocconi de Milão. Ou seja, no final destes 1.412 dias, Itália ganhou estabilidade política e económica — mas quase nenhuma reforma profunda. Do lado dos defensores da primeira-ministra, o aliado Fabio Rampelli explicou ao jornal The Times que, num eventual segundo mandato, será a altura de “baixar a dívida pública”, assim como de agir de forma ainda mais restritiva na área da imigração.
Mas será isso possível? A grande questão de Giorgia Meloni não se prende apenas consigo e com o seu partido. A primeira-ministra tem de gerir uma coligação com interesses frequentemente divergentes. A Lega de Matteo Salvini exige mais medidas na área da imigração e força-a a preservar uma certa essência antissistema e populista.
Em sentido oposto, a Forza Italia prefere focar-se na responsabilidade fiscal e nas questões de política externa, lembrando-a da necessidade de apoiar a Ucrânia e manter uma boa relação com a União Europeia.
Os três partidos são substancialmente diferentes e dirigem-se a públicos distintos. Matteo Salvini defende sobretudo os interesses do Norte de Itália, a sua grande base de apoio. A Forza Italia agrada ao eleitorado empresarial e às classes mais altas. Já o Irmãos de Itália possui um eleitorado mais transversal, sendo particularmente eficaz entre os mais velhos. É precisamente por causa destas diferenças que nem sempre estão de acordo — obrigando Giorgia Meloni a um complexo exercício de equilíbrio nos bastidores.
Como nota o jornal Il Foglio, Matteo Salvini e o líder da Forza Italia, Antonio Tajani, também vão celebrar a duração deste Governo. Porém, a distância entre os dois homens começa a notar-se, principalmente a um ano das eleições. Enquanto Antonio Tajani defende mudanças mais moderadas, Matteo Salvini exige medidas ainda mais restritivas na imigração — uma postura que colide com a institucionalidade do centro-direita, que continua, por sua vez, desconfiado das suspeitas ligações de Salvini a Moscovo.

Apesar de terem surgido alguns rumores de uma possível cisão, os três partidos parecem continuar unidos. Pelo menos gostam de projetar essa imagem de unidade — e farão essa demonstração a 4 de setembro. Entre o tom institucional de Antonio Tajani e o registo mais radical de Matteo Salvini, Giorgia Meloni vai gerindo Itália. É certo que nem sempre consegue seguir a sua agenda na íntegra e tem de ouvir constantemente os parceiros. No meio disto tudo, contudo, é ela quem manda — e que define as prioridades governativas.
A política externa. A área de prestígio de Meloni
Na política interna, as dificuldades em manter a coligação são algumas. Externamente, o caminho parece estar a ser mais fácil. Giorgia Meloni tem sabido tornar-se relevante e uma figura cada vez mais essencial no seio da União Europeia. Assim que tomou posse, vários dirigentes europeus — em particular os franceses — mantinham fortes dúvidas sobre o Governo italiano: Matteo Salvini tinha assumido posições eurocéticas no passado e a própria primeira-ministra nunca fora a maior apoiante do bloco comunitário.
No cenário mais pessimista, apontava-se que Itália se tornaria a nova Hungria e que Giorgia Meloni seguiria os passos do antigo primeiro-ministro húngaro. Em outubro de 2022, Viktor Orbán criticava o apoio europeu à Ucrânia e era uma força de bloqueio nas instituições europeias. Receava-se que a chefe do Executivo pudesse copiar esta abordagem de confronto com as instituições da UE. 1.412 dias depois, a postura não poderia ter sido mais diferente.

Ainda que continue a criticar algumas diretivas da União Europeia, a primeira-ministra italiana mantém uma relação particularmente boa com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. As duas líderes mantêm mesmo uma aliança sólida: enquanto a dirigente comunitária promete reforçar o controlo da imigração — uma mensagem que agrada ao Governo italiano —, Giorgia Meloni responde com um apoio inquebrável à Ucrânia, posicionando-se longe de ser uma força desestabilizadora em Bruxelas.
Aliás, o apoio de Itália à Ucrânia foi talvez uma das maiores surpresas ao longo do mandato de Giorgia Meloni. Contrariamente a muitos países europeus, Roma sempre manteve uma certa simpatia por Moscovo antes da invasão.
Silvio Berlusconi, por exemplo, foi durante anos um amigo próximo do Presidente russo, Vladimir Putin. Na coligação montada por Giorgia Meloni estava também Matteo Salvini — que confessou ser “fã” de Putin e chegou a ser fotografado na Praça Vermelha com uma t-shirt com o rosto do líder russo, a quem chamou, em 2019, “o melhor estadista do mundo”.
Mesmo assim, Giorgia Meloni continuou a apoiar militarmente a Ucrânia. Deslocou-se ao país em diversas ocasiões e recebeu o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por várias vezes em Roma. A chefe do Executivo transformou-se, talvez, na aliada mais inesperada de Kiev na União Europeia — e a Rússia não gostou nada. Em abril deste ano, o propagandista russo Vladimir Solovyov chamou-a “fascista” na televisão estatal russa. Em resposta, a primeira-ministra reagiu nas redes sociais, nas quais prometeu continuar a apoiar a causa ucraniana.

O apoio à Ucrânia fez Giorgia Meloni ganhar um prestígio considerável na União Europeia. Da mesma forma, a primeira-ministra não se converteu numa eurocética radical — tem preferido moldar pragmaticamente a União Europeia por dentro, através de acordos com Ursula von der Leyen e outros dirigentes comunitários. O deputado dos Irmãos de Itália, Marco Osnato, sublinhou à Agence France-Presse que, “no que diz respeito à política externa”, Itália nunca esteve numa posição “tão central, particularmente na Europa”.
Giorgia Meloni procurou, na mesma medida, manter uma excelente relação com o Presidente norte-americano, Donald Trump. Esteve na sua tomada de posse a 20 de janeiro de 2025 e converteu-se na sua maior defensora na União Europeia, a par de Viktor Orbán. A intenção da primeira-ministra passava por “tornar o Ocidente grande outra vez”.
As relações mantiveram-se muito boas e até Elon Musk — o magnata próximo do chefe de Estado americano — a visitou em Roma. Inicialmente, o movimento Make America Great Again parecia simpatizar com o Governo italiano.
Contudo, esse cenário alterou-se significativamente em 2026. A calorosa relação entre Washington e o Governo italiano deteriorou-se. No final de fevereiro, os Estados Unidos atacaram o Irão sem avisar previamente os aliados europeus, que rapidamente se demarcaram da participação no conflito. Mais do que isso, Roma recusou a utilização das bases militares italianas (particularmente na Sicília) por parte das aeronaves norte-americanas no âmbito da escalada militar.

Foi uma desfeita da aliada a Donald Trump. A relação ficou ainda mais turbulenta quando o Presidente norte-americano criticou duramente, em abril de 2026, o Papa Leão XIV — um ato considerado imperdoável pelo Governo e em particular por Giorgia Meloni, que assume o catolicismo como uma das marcas centrais do seu perfil político. Os ataques ao líder da Igreja Católica foram “inaceitáveis”, classificou a primeira-ministra.
Os elogios deram lugar às críticas e o Presidente norte-americano não perdeu tempo a responder. “Ela já não é a mesma pessoa, e Itália nunca mais será o mesmo país. A imigração está a matar Itália e toda a Europa”, atacou Donald Trump.
O chefe de Estado ia ainda mais longe: após a cimeira do G7 em meados de junho, insinuou que Giorgia Meloni lhe “implorou” para tirar uma fotografia com ele. Foi a gota de água: a primeira-ministra fez uma publicação nas redes sociais em que respondeu ao antigo aliado: “Declarações totalmente inventadas. Não tem esse vigor contra os inimigos do Ocidente. Itália nunca vai implorar por nada”.
Passados alguns meses deste choque, a primeira-ministra refletiu sobre o episódio com Donald Trump. Ao The New York Times, admitiu que pensava que “as coisas iam ser mais fáceis”, por conta da “convergência” em assuntos como a “imigração ou a cultura woke“. “As coisas inverteram-se”, lamentou, dando uma resposta evasiva quando questionada sobre se voltaria a falar com o Presidente norte-americano: “Logo se vê”.
O choque com Donald Trump foi abrupto. Porém, acabou por beneficiar a imagem da primeira-ministra. A guerra no Irão, as críticas à NATO e aos países europeus e a questão da Gronelândia mudaram radicalmente a imagem do Presidente norte-americano em Itália. Ao The Wall Street Journal, o analista Lorenzo Pregliasco destacou que “inicialmente, Trump era alguém de quem valia a pena” obter o respaldo político. Agora, o “eleitorado italiano considera-o tóxico”.
A opinião pública acabou, assim, por ficar do lado de Giorgia Meloni. A ideia que insiste em transmitir é a de que defende os interesses de Itália acima de tudo, não olhando a ideologias e mantendo-se pragmática. Exemplo disso é a proximidade na área da imigração com a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, pertencente à família dos socialistas europeus.
Mesmo que a mensagem seja embrulhada na afirmação da soberania italiana, a primeira-ministra sabe utilizar a confiança conquistada nas instituições internacionais como trunfo político, apresentando-a internamente como um êxito da sua liderança — e como prova de que a Itália voltou a ser respeitada no mundo.
Em Bari, esta sexta-feira, Giorgia Meloni vai festejar o feito histórico juntamente com os seus aliados. Durante estes quase quatro anos — que fazem do seu Governo o mais longo da História da democracia italiana —, a primeira-ministra devolveu ao país alguma credibilidade económica e geopolítica.
Ainda que possa não ser duradouro, houve ainda uma pausa no histórico de caos político em Roma. Para isso, a chefe do Executivo soube misturar pragmatismo com uma postura conciliadora. E se é certo que os consensos até a podem manter no poder, será que vão trazer a Itália as reformas estruturais de que o país necessita?