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Dois meses depois do anúncio, Met cancela exposição que homenageava John Galliano

15 anos depois da polémica que o afastou da posição de topo, Galliano seria a peça-chave no Met em maio de 2027, uma absolvição que não resistiu à onda de críticas e levou o museu a inverter a decisão

Maria Ramos Silva
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A exposição serviria como peça central na Met Gala de 2027, um dos mais cobiçados acontecimentos do universo da Moda — e faria de John Galliano apenas o terceiro designer vivo a ter direito a semelhante palco no Costume Institute do Museu Metropolitan de Nova Iorque, depois de Yves Saint Laurent em 1983 e Rei Kawakubo em 2017. “John Galliano: Horizons” foi anunciada em 31 de julho e exatamente dois meses depois, fica pelo caminho.

A marcha atrás foi tornada pública esta segunda-feira, pela instituição e pelo designer, que usou as suas redes sociais (agora resumidas a este comunicado) para comunicar o afastamento do projeto. Galliano explica que depois de “muita reflexão e discussão” com todos os envolvidos, decidiu que “o melhor é que a exposição não aconteça neste momento”. O designer reconheceu mais uma vez o mal-estar provocado pelas suas declarações antissemitas e racistas do passado e afirma que a reparação não pode ser alcançada por meio de uma exposição ou de um gesto público solitário. “Deve ser uma responsabilidade contínua, expressa por meio de escuta, aprendizagem e conduta ao longo do tempo.”

Passados 15 anos da polémica que o afastou da posição de topo — os comentários antissemitas, uma condenação por um crime de ódio num tribunal de Paris e um período de reabilitação –, o designer britânico vem dando passos lentos rumo à reabilitação da sua imagem, algo perfeitamente aceitável para uns, difícil de encaixar para outros tantos, que veem este empurrão da diretora editorial global da Vogue, trustee do Met, e amiga de longa data Anna Wintour (a quem compete a supervisão da Gala desde 1995), como a marca de absolvição que faltava.

A proposta inicial do Costume Institute, ambiciosa, seria precisamente cruzar legado criativo e celebração cultural com responsabilidade e ética no contexto da Moda, mas nem esse suposto caminho, que apostava em confrontar dimensões, sobreviveu à onda de críticas que foram subindo de tom nas últimas semanas, segundo relatava o The New York Times, fazendo eco do desconforto sobre a escolha. A decisão foi desde o começo “espinhosa” para o atual contexto, como assinalava aquele diário, lembrando como a Big Apple tem vivido o tema do antissemitismo na era Mamdani. De acordo com o jornal, Anna Wintour, o curador do Costume Institute, Andrew Bolton e John Galliano reuniram-se durante o último ano com alguns dos rabinos mais influentes e líderes da comunidade judaica da cidade. “Compreendo perfeitamente por que razão o momento pode parecer particularmente difícil agora, dado o alarmante aumento do ódio, mas acredito que isso torna as questões atuais ainda mais urgentes — e não menos”, dizia então o curador da exposição. “A questão mais importante não é se o comportamento artístico justifica a transgressão, mas como conciliar a realização artística e a responsabilidade ética sem permitir que uma apague a outra. E num momento de crescente polarização, sinto que o museu e eu temos uma responsabilidade real de enfrentar essas questões”, assinala Bolton.

O tema, contudo, teria desenvolvimentos. Segundo a Hollywood Reporter, na semana passada, Julie Menin, do Conselho da Cidade de Nova Iorque, fez chegar uma carta a Wintour, ao curador Andrew Bolton e ao diretor do Met, Max Hollein, defendendo que a decisão de homenagear Galliano foi “um grave erro”. Ao notar que a sua influência no mundo da moda tem sido “enorme” e “inquestionável”, Menin manifestou ter uma “profunda preocupação” com a decisão de prestigiar o designer.

“Nos últimos dias, a oposição ao plano do museu para homenagear Galliano cresceu entre os líderes judeus em Nova York e além,” relatou o The New York Times, dando conta de que vários patronos ponderavam retirar o seu apoio à instituição caso a mostra avançasse, o que motivara um necessário “controlo de danos”.

“Horizons” previa a exploração do acervo considerável da instituição — que inclui peças do primeiro desfile do designer, em 1984, quando apresentou a coleção de formatura na Central Saint Martins — e ainda roupas, acessórios, esboços, protótipos, cadernos e materiais de arquivo que contam a história dos primeiros anos de Galliano em Londres; passando pelos poucos meses na Givenchy; os 15 anos à frente da Dior e a reinvenção na Maison Margiela, já depois da polémica, entre 2014 e 2024. Dificilmente ficaria esquecido um dos momentos mais emblemáticos da sua carreira, associado ao Met. Há 30 anos, a princesa Diana subia a escadaria do museu para a sua estreia no evento. A edição distinguia Christian Dior e foi num vestido de alta costura da maison francesa que a recém-divorciada fez a sua aparição — não com uma criação original do pioneiro designer, ou um vestido de arquivo, antes um slip dress azul-escuro com o cunho de John Galliano, naquela que seria a sua primeira criação para a Dior depois de um sucesso arrebatador na Givenchy.

Se a Dior foi a sua ascensão e queda, 2026 abençoara já algumas tréguas. Em janeiro, John Galliano esteve no desfile de alta-costura da Dior e posou ao lado de Jonathan Anderson, marcando uma espécie de pazes públicas com a maison francesa. Já em março, foi a Zara a anunciar aposta no designer, uma colaboração com a gigante do fast fashion que deverá ser apresentada no final de setembro.