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Nem casamento católico nem bênção. Igreja garante que Ronaldo e Georgina foram apenas à missa em Fátima

A celebração religiosa no dia do casamento de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez levantou dúvidas. Diocese de Leiria-Fátima diz ao Observador que foi celebrada uma missa pelas intenções do casal.

João Francisco Gomes
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Foi só através de um artigo publicado na revista norte-americana Vogue que vieram a público os detalhes das ultra-sigilosas e há muito antecipadas cerimónias do casamento de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez, a 11 de agosto deste ano. O dia começou com o casamento civil, realizado de forma privada na sala da casa da família, em Cascais. Depois, Ronaldo e Georgina seguiram até ao Santuário de Fátima, onde, nas palavras da Vogue — que entrevistou os noivos —, um padre iria “fechar um pequeno santuário e dar-lhes uma bênção”. Tudo isto na companhia do prestigiado fotógrafo de moda alemão Juergen Teller, que retratou os recém-casados numa das capelas mais reservadas do Santuário de Fátima.

O programa do dia do casamento levantou, nos meios católicos, várias questões. Afinal, o que aconteceu em Fátima? Os católicos Ronaldo e Georgina casaram pela Igreja? O que foi a tal “bênção” descrita pela Vogue? E até que ponto essa bênção foi compatível com as normas em vigor dentro da própria Igreja Católica acerca das bênçãos a casais em situação irregular (é assim que as leis católicas descrevem as pessoas casadas pelo civil, mas não pela Igreja) e a casais de pessoas do mesmo sexo? Representava esta bênção ao casal Ronaldo e Georgina a abertura de um precedente que permitiria a muitas outras pessoas historicamente marginalizadas pela Igreja celebrarem numa igreja católica o dia do seu casamento?

Leiria-Fátima garante que “não houve matrimónio” nem “bênção”

O Observador procurou esclarecimentos junto do Santuário de Fátima sobre a celebração realizada na Capela de Nossa Senhora das Dores, situada numa das casas de retiros que ladeiam o recinto do santuário, mas, até agora, a instituição tinha-se limitado a dizer que as suas capelas “estão ao serviço dos peregrinos, que as podem reservar para diferentes celebrações” e que, “para celebrações particulares, basta contactar os serviços do Santuário de Fátima e expor o que se pretende”, que a instituição reserva “a capela mais apropriada”.

As explicações não impediram que rapidamente se disseminasse no espaço público que o que tinha acontecido na capela fora algo próximo de um casamento católico. Rapidamente se tornou viral a história do padre Ronaldo Araújo, o homónimo brasileiro do futebolista que presidiu à celebração em Fátima — e a imprensa desportiva brasileira, por exemplo, chegou mesmo a falar dele como o padre “que celebrou o casamento de Cristiano Ronaldo e Georgina”.

Agora, a diocese de Leiria-Fátima esclareceu ao Observador que não foi isso que aconteceu em Fátima. O que se passou na capela, diz fonte oficial da diocese atualmente liderada pelo bispo José Ornelas, foi uma missa “pelas intenções do casal que a solicitou” e que foi “realizada de acordo com as normas litúrgicas e eclesiásticas aplicáveis”. Mais concretamente, a diocese confirmou que “não houve celebração de matrimónio católico, nem foi solicitada ou realizada qualquer bênção específica associada ao casamento civil”.

“Como sucede com muitos peregrinos, foi pedido o uso de uma capela e a celebração de uma missa. Na tramitação deste pedido, o Santuário seguiu a sua prática habitual. O Bispo diocesano teve conhecimento prévio da realização da celebração, embora este tipo de ato não careça de autorização prévia explícita da sua parte”, esclarece ainda a diocese de Leiria-Fátima. “O Santuário de Fátima foi também informado da presença de um fotógrafo particular para a ocasião. Não foi, porém, informado de que estaria prevista uma sessão fotográfica destinada a ser publicada num órgão de comunicação social. A utilização e divulgação posteriores das fotografias são da exclusiva responsabilidade de quem as produziu e publicou.”

Papa Francisco aprovou bênção a casais em “situação irregular”. Mas com condicionantes

Para perceber porque é que este tipo de detalhes levantou questões, é necessário recordar as evoluções que se têm registado nos últimos anos dentro da própria Igreja Católica no que respeita à moral familiar e às questões do casamento. A Igreja Católica continua a considerar o matrimónio católico entre um homem e uma mulher como a única forma legítima de união entre duas pessoas com o objetivo de constituir uma família. Tudo o resto cai sob a implacável designação de “situação irregular”, o que tem alimentado forte polémica ao longo dos últimos anos.

Uma destas situações irregulares diz respeito, por exemplo, ao divórcio. Como a Igreja Católica considera o matrimónio indissolúvel, o divórcio é impossível (apenas é possível, em situações excecionais, declarar a nulidade de um matrimónio, isto é, considerar que ele, na verdade, nunca aconteceu). Para muitos católicos, independentemente das razões pelas quais se divorciaram — até mesmo, no limite, em casos de violência doméstica —, a separação converteu-se em motivo de exclusão. Um católico que se divorcie continua, tecnicamente, casado pela Igreja. Por isso, se voltar a casar pelo civil, está, para a Igreja, a violar o seu primeiro casamento. Como consequência, fica em “situação irregular” e fica impedido de aceder à comunhão.

Até que, em 2016, o Papa Francisco publicou a exortação apostólica Amoris Laetitia, na qual escreveu que, em situações excecionais, um católico divorciado que se tivesse voltado a casar poderia aceder à comunhão. Esse inédito sinal de abertura mostrado pelo Papa argentino valeu-lhe forte oposição por parte da ala mais conservadora e até acusações de heresia. A polémica estendeu-se a Portugal, com o então patriarca de Lisboa, o cardeal Manuel Clemente, a recomendar a abstinência sexual aos divorciados recasados.

Encontra-se, também, aos olhos da moral católica, numa situação irregular um casal, casado pelo civil ou não, que viva junto antes de se casar pela Igreja — e, por razões óbvias, um casal de pessoas do mesmo sexo, já que a doutrina da Igreja Católica continua a classificar a homossexualidade como uma “propensão” que é “objetivamente desordenada” e os “atos de homossexualidade” como “contrários à lei natural”. Todas estas pessoas encontram-se impedidas pela Igreja Católica de aceder aos sacramentos, com a comunidade LGBT a constituir um dos grupos mais marginalizados pela doutrina católica.

"Precisamente para evitar qualquer forma de confusão ou escândalo, quando uma oração de bênção é requerida por um casal numa situação irregular, mesmo sendo expressada fora dos ritos prescritos pelos livros litúrgicos, esta bênção nunca poderá ser proferida em conjunto com as cerimónias de uma união civil, nem em conexão com elas."
Excerto da Fiducia Supplicans, exortação apostólica aprovada pelo Papa Francisco em 2023

O pontificado do Papa Francisco veio, ainda assim, trazer sinais de abertura. Além da Amoris Laetitia, em 2016, o pontífice argentino aprovou, em 2023, a declaração Fiducia Supplicans, na qual o Vaticano abriu pela primeira vez a porta à possibilidade de uma bênção para casais de pessoas do mesmo sexo. Publicada no contexto de fortes discussões fraturantes no seio da Igreja Católica (temas como o papel das mulheres, a comunidade LGBT, a autoridade do clero e os abusos sexuais de menores marcaram, por exemplo, o recente Sínodo sobre a Sinodalidade), a Fiducia Supplicans declarou, na prática, que a Igreja Católica podia abençoar um casal em situação irregular ou um casal de pessoas do mesmo sexo.

O documento foi recebido pela ala conservadora da Igreja Católica como uma afronta inaceitável e pelos progressistas como um passo insuficiente. Na sua essência, o texto diz que todas as pessoas, sem exceção, podem ser abençoadas por Deus — o que não significa que a Igreja aprove todas as situações. Por isso, o Vaticano passava a permitir a bênção de um casal em situação irregular ou de um casal de pessoas do mesmo sexo, mas impunha condicionantes: não podia ser uma bênção com uma fórmula ritual própria e não podia ser feita de modo a parecer um casamento religioso. Para a Igreja, este ponto era fundamental: não podia haver espaço para confusões.

“Precisamente para evitar qualquer forma de confusão ou escândalo, quando uma oração de bênção é requerida por um casal numa situação irregular, mesmo sendo expressada fora dos ritos prescritos pelos livros litúrgicos, esta bênção nunca poderá ser proferida em conjunto com as cerimónias de uma união civil, nem em conexão com elas. Nem pode ser realizada com quaisquer vestimentas, gestos ou palavras que sejam próprias de um casamento. O mesmo se aplica quando a bênção é pedida por um casal de pessoas do mesmo sexo”, lê-se no texto do Vaticano.

Responsáveis do Santuário surpreendidos com divulgação de imagens da cerimónia

No caso de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez, apesar de ambos serem católicos (Ronaldo descreve-se como um católico que vai à igreja todas as semanas e Georgina Rodríguez é uma conhecida devota de Nossa Senhora de Fátima), optaram por não casar pela Igreja, mas quiseram incluir uma celebração religiosa no dia do seu casamento. Caso se verificasse o que escreveu a Vogue e a celebração tivesse sido uma bênção para o casal — formalmente em situação “irregular” —, teriam de se aplicar as normas da Fiducia Supplicans, que proibiam justamente o que aconteceu: uma celebração relacionada com o casamento civil, seguida de uma sessão fotográfica de casamento com as roupas do casamento, no interior da capela.

A diocese de Leiria-Fátima garante, agora, que não foi uma bênção deste tipo que ali aconteceu, mas apenas uma missa normal para um grupo de pessoas que reservou uma capela, como qualquer grupo de peregrinos poderia fazer. Mas a realização de uma cerimónia dessa natureza no Santuário de Fátima abre, de resto, precisamente o precedente que a Igreja Católica tanto tem tentado impedir: em teoria, nada impede um casal de pessoas do mesmo sexo de reservar uma capela em Fátima para ali fazer uma celebração religiosa imediatamente após um casamento civil — e até poderá mesmo fazer a sessão fotográfica da dimensão religiosa do seu casamento.

Terá sido só quando a Vogue publicou as fotografias das cerimónias que os responsáveis do Santuário de Fátima e da diocese de Leiria-Fátima perceberam o modo como aquela celebração religiosa seria projetada no espaço público.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]