(c) 2023 am|dev

(A) :: Vómitos, suores frios, o colapso em lágrimas durante o jogo: como foi a noite em que Djokovic quebrou

Vómitos, suores frios, o colapso em lágrimas durante o jogo: como foi a noite em que Djokovic quebrou

Navone venceu Djokovic no US Open, Djokovic não perdeu contra Navone mas contra si mesmo no US Open, entre 70 erros não forçados e ataques de choro à mistura. Aos 39 anos, o sérvio quebrou. De vez?

Bruno Roseiro
text

Tinha acabado de salvar mais um ponto de break, tinha acabado de agarrar-se ao encontro como um último suspiro ao fazer o 3-1 no quinto e derradeiro set, tinha acabado de resgatar uma oportunidade final para ser feliz. No entanto, quando parecia estar a limpar o suor da cara com o braço direito, estava afinal a esconder aquilo que já não valia a pena disfarçar. Chorava, quebrava, punha as mãos na cintura. “Desistia”.

https://observador.pt/2026/08/31/novak-djokovic-eliminado-na-primeira-ronda-do-us-open-pelo-argentino-mariano-navone/

Quando, mesmo a perder e com todas as odds contra, agarrava um jogo de serviço após passar pelas vantagens e tinha o público de pé a fazer mais uma ovação, Novak Djokovic mostrava o porquê de ser quase uma máquina. Abria os olhos, colocava o dedo no ouvido, pedia mais barulho, acenava com a cabeça. Aquela era a sua força, uma força que ao mesmo tempo se traduzia na kryptonita de qualquer super-homem que o tentasse desafiar num território que se tornou seu com o tempo. Agora, tornou-se na sua fraqueza. Aos 39 anos, o sérvio cedeu para aqueles que nos primeiros anos de carreira foram os seus principais adversários: por um lado, o corpo; por outro, a cabeça. E foi assim que o US Open viveu aquilo que nunca vivera.

Depois daquele 3-1, Mariano Navone, 49.º do ranking mundial, que contava com aquela euforia argentina que vinha das bancadas como se fosse um jogo de futebol, não tremeu. Longe disso. Fechou o 4-1 com um jogo em branco, foi ao banco encontrar forças para acabar de vez com o que parecia destinado, fez o break no serviço de Djokovic e fechou a partida quase quatro horas e meia depois com um 6-1 que contrariou toda a lógica do que era habitual – afinal, e apesar de ter perdido o primeiro set no tie break (5), passou de seguida para a frente com 7-5 e 6-4 e parecia estar com tudo encaminhado para fechar tudo no quarto parcial. Foi aí, ou a partir daí, que quebrou. Quebrou de vez. Hoje, com a devida distância, aquele documentário da Prime Video com o nome “Novak Djokovic: o Lobo” mais parece um pré-aviso de final de carreira…

https://twitter.com/UniversTennis/status/2094284618862137557

A longa-metragem dirigida por Jason Hehir, que ganhara vários prémios com o “The Last Dance” que conta a história do sucesso dos Chicago Bulls de Michael Jordan nos anos 90 com seis títulos da NBA, “oferece um olhar sem precedentes sobre o homem por trás dos recordes, revelando a figura complexa e controversa que desafiou todas as expectativas para se tornar o maior tenista masculino da história”. E vai a tudo: as marcas que ficaram da guerra nos Balcãs, aquilo que sofreu com o conflito, os problemas financeiros que atravessou com a família a dar tudo para que tivesse uma carreira, as alterações que teve de fazer no seu jogo e na dieta para chegar aos Grand Slams, o estatuto secundário que sentiu sempre perante Roger Federer e Rafa Nadal, a novela do Open da Austrália de 2022 que ainda hoje pensa ser uma história mal contada.

https://twitter.com/TheTennisLetter/status/2094276249069961520

“Tive uma experiência negativa há alguns anos. Ainda sinto uma certa amargura porque muitas pessoas não entendem o que se passou. 99% das pessoas não sabem o que aconteceu naquela época, acham apenas que fui expulso da Austrália por não estar vacinado. Mas isso não é verdade. Não estava vacinado, mas tive Covid-19 duas vezes nos seis meses anteriores e, portanto, era elegível. Recebi uma isenção. Fui transformado num inimigo maior do que jamais havia experienciado nos círculos do ténis. O mundo inteiro via-me como um inimigo. Eu nunca disse que era a favor ou contra a vacinação. Até mesmo o movimento antivacinas me declarou herói, mas nunca me juntei a nenhum movimento”, conta o jogador sérvio no documentário. “O erro foi ele ter dito que estava a viajar para a Austrália com uma autorização especial. Deixou escapar isso e parecia quase que se estava a gabar, quando não estava”, diz também a mulher, Jelena.

https://twitter.com/Tiempodetenis1/status/2077010744688755006

Ninguém esperava que Djokovic ganhasse o US Open, ainda menos esperava que pudesse cair na primeira ronda. A derrota frente ao também argentino Thiago Agustín Tirante logo a abrir o Masters de Cincinnati não parecia passar de um deslize mas acabou por ser um prenúncio para o que viria a acontecer em Nova Iorque. Aos 39 anos, apesar de ter chegado à final do Open da Austrália com Carlos Alcaraz e às meias de Wimbledon frente a Jannik Sinner, o sérvio enfrenta aquilo que mais temia – o fim anunciado de uma era.

https://twitter.com/TheTennisLetter/status/2094277332328665186

A resistência de Navone foi épica mas o grande rival de Djokovic foi mesmo Djokovic. Alguém conseguia pensar que seria possível o mais titulado de sempre em Grand Slams fazer 70 erros não forçados num só jogo? Não, mas aconteceu. Isso e muito mais: Nole chegou a vomitar durante o jogo, sentia suores frios, tinha dores, não estava em condições apesar de ter feito de tudo para não quebrar. Não resistiu. Pela primeira vez desde o Open da Austrália de 2006, foi afastado na primeira ronda de um Major. Mais: nas 20 participações que teve no US Open levava um registo de 37-0 em vitórias nas duas rondas iniciais do Grand Slam.

https://twitter.com/josemorgado/status/2094296903760433383

“Foi uma sensação horrível. É algo que me tem acompanhado todos os encontros este ano, infelizmente. O corpo começa a colapsar, com cãibras e dores. As costas no final desistiram, tal como os ombros e não consegui fechar o encontro”, assumiu Djokovic depois de deixar o court a fazer o sinal com as mãos a pedir desculpa a todos os adeptos pelo que tinha acontecido. “O amor e o apreço que me deram no final tocaram-me realmente o coração. Foram incríveis. Sou muito grato por ter vivido isto. Foi óbvia a sensação horrível em court para mim. A forma como me senti fisicamente não foi nada agradável. Desprezei praticamente todos os momentos que passei em court por causa disso. Pensei em desistir mas ganhei o segundo e o terceiro sets e pensei que talvez houvesse uma oportunidade. Não queria render-me”, acrescentou.

https://twitter.com/SoyChristian/status/2094323221898137637

Fica agora a dúvida: haverá ainda Novak Djokovic nos próximos tempos? À partida, tudo aponta para que possa ainda estar presente no Open da Austrália, que venceu em dez ocasiões. No entanto, aquilo que se viu no US Open foi um claro anúncio de que o último dos Três Mosqueteiros está a chegar ao fim, mesmo numa fase da carreira em que escolhe de forma cirúrgica os torneios que faz ao longo da época…

https://twitter.com/BenRaby31/status/2094276198243160297