Num dia em que as T-shirts negras — muitas de merchandise de bandas de metal e hardcore — conviveram com os visuais hip hop no Parque da Bela Vista, à sua maneira foi um serão de peso para ambas as tribos musicais. O MEO Kalorama encerrou mais uma edição com os concertos deste domingo, 30 de agosto, com destaque para Deftones, Clipse, Turnstile e Freddie Gibbs & The Alchemist.
Um ano após tocarem no Porto, no Primavera Sound, os Deftones regressaram para encabeçar o terceiro e último dia de festival. A banda norte-americana, que marcou os anos 90 e 2000, atravessa uma fase de revivalismo graças a uma nova geração que os (re)descobriu ao longo dos últimos anos, insuflando a sua música nas plataformas digitais e redes sociais, fazendo-os chegar a palcos maiores neste momento da sua carreira.
Os Deftones não precisaram de se reinventar nem de fazer quaisquer cedências à sua identidade para que possam hoje desfrutar desta nova fase de sucesso. Trilharam sempre um caminho pelo campo mais alternativo do metal, criando uma música pesada através dos riffs de guitarra, mas sobretudo densa graças à carga emocional. Infelizmente não foi possível fotografar Deftones.
No Parque da Bela Vista, perante uma vasta plateia envolvida com Chino Moreno e companhia, equilibraram as erupções de guitarra que provocaram o mosh e o crowdsurf com texturas ambientais de ritmo mais lento, num registo atmosférico que também os foi caracterizando ao longo da sua trajetória e que demonstra como os Deftones, ao contrário de diferentes bandas de metal que surgiram na década de 90, possuem uma abordagem autoral com significado, que o seu peso é tudo menos superficial.
Intenso e enérgico, Chino Moreno foi entoando canções como Feiticeira, Entombed, Rosemary, Risk ou a particularmente bem recebida Sextape. O público devolveu tudo quanto recebeu, numa troca recíproca de afetos, como quem passa o domingo à noite em comunhão com os entes queridos. Foi aquilo a que soube o concerto de Deftones no Parque da Bela Vista, um reencontro com Lisboa quase uma década volvida.

Antes disso, os Clipse tinham conquistado a facção hip hop do público com a sua estreia em Portugal. A dupla dos irmãos Pusha T e Malice, projeto de culto dos anos 2000, está também a usufruir de uma nova vida desde que se reuniram no ano passado para lançar o aclamado álbum Let God Sort Em Out, produzido na íntegra por Pharrell Williams — o mesmo que os descobriu originalmente e os assinou com uma editora — e que serviu de base para o concerto deste domingo.
“Back by demand”, declararam, como quem diz que voltou porque havia procura da audiência. E não é que havia mesmo? Em palco, Pusha T e Malice têm uma química fraternal que emana experiência. Carregam um legado consigo, mas são um duo do momento: nomeado para cinco Grammys, Let God Sort Em Out foi um dos discos mais bem recebidos do ano passado e o melhor cartão de visita possível para assinalar um regresso.
Entre o braggadocio característico do hip hop e o discurso em torno do imaginário do tráfico de estupefacientes, os temas dos Clipse são vibrantes, com uma energia pulsante que foi correspondida pela multidão à sua frente. Chains & Whips foi logo o vigoroso pontapé de partida, So Be It e P.O.V. tornaram-se outros dos momentos altos do alinhamento, The Birds Don’t Sing revelou-se o tema mais comovente.
Com fotografias pessoais dos irmãos, referências pop (como Mike Tyson em M.T.B.T.T.F.) ou imagens mais ou menos estéticas de chaves ou armas — consoante as alusões das rimas — a servir como pano de fundo, Pusha T e Malice mostraram-se em pico de forma com um rap autêntico e consistente, de quem carrega a herança do gangsta rap, pôs a Virgínia no mapa e não tem nada a provar depois do mais recente trabalho. Os irmãos mostraram-se satisfeitos com a receção calorosa e chegaram a assinar discos em palco, devolvendo o amor com que foram acolhidos na Bela Vista.
A verdadeira apoteose, porém, aconteceu no palco principal com os Turnstile. A banda de Baltimore conseguiu o feito de furar o circuito de nicho do hardcore e atingir um patamar mainstream com os álbuns Glow On (2021) e Never Enough (2025), com uma abordagem melódica do vocalista Brendan Yates e arranjos mais pop que os levaram a conquistar uma vasta audiência. Desengane-se, contudo, quem ache que a experiência de ver os Turnstile ao vivo se tornou a mesma de assistir a um concerto de rock de estádio.




A multidão pode conter milhares de pessoas, pode tratar-se de um enorme recinto de festival ao ar livre e já não ser uma cave apertada para poucas centenas de fãs, mas nem por isso deixa de ser uma performance suada e intensa. Os Turnstile provocaram, sobretudo a reboque dos dois últimos discos, alguns dos maiores moshpits dos últimos anos no Parque da Bela Vista, agitando a plateia com os breakdowns de guitarra.
A par disso, raramente vimos crowdsurf tão intenso naquele local, com os seguranças sem mãos a medir para a quantidade de festivaleiros que se submeteram ao ritual de serem passados pelas mãos dos outros até chegarem ao fosso, onde voltavam a terra, com a ajuda dos seguranças, e percorrerem toda a frente de palco até regressarem ao recinto.
Foi uma real descarga de energia, com uma multidão em puro êxtase, e uns Turnstile satisfeitos com a sensação de missão cumprida. Nunca seria fácil levar o hardcore até ao circuito mainstream do rock n’ roll, mas fazê-lo sem comprometer as bases e a essência — a mensagem, a catarse, o ritmo eletrizante, a comunhão na interação ao vivo estão lá — é um feito ainda mais admirável.
Antes, Brendan Yates já tinha subido ao palco para partilhar um momento com Peaches, ao interpretarem juntos o clássico Fuck the Pain Away ao início da noite. Prestes a completar 60 anos, a artista fez aquilo que lhe competia ao apresentar-se igual a si própria, o que implica ser sempre diferente: fazer uma performance arrojada, provocadora, inventiva e imprevisível que encheu as medidas aos fãs e arrebatou todos os outros que se depararam com a sua figura em palco.
Com as suas batidas eletrónicas e atitude punk, as letras politizadas mas simples que funcionam quase como palavras de ordem numa manifestação, Peaches impressiona pelo lado teatral com que apresenta as canções de toda uma carreira, mas também do disco que editou este ano — o primeiro em mais de uma década —, No Lube So Rude.
Os figurinos, em constante metamorfose, brincam com a ideia de género e questionam a anatomia humana. “Trans Rights Now”, “Gay for Palestine” ou “Queer the Rich” foram alguns dos slogans que foi apresentando nas suas camisolas de alças. Pelo meio, ostentou trajes de designer com glamour, fez a espargata, esteve seminua como quem contraria e desconstrói o idadismo, cantou (e depois rebolou) enquanto era segurada pelo público, literalmente em cima da plateia.
Peaches poderia não encaixar propriamente no cartaz deste domingo — se é que alguma vez encaixou nalguma categoria — mas conquistou facilmente o seu próprio lugar através do seu carisma e abordagem artística e política ímpar. Numa era em que tantas estrelas da música receiam posicionar-se, artistas como Peaches são urgentes, fundamentais e verdadeiras lufadas de ar fresco.
O outro concerto marcante da noite foi aquele que juntou Freddie Gibbs e The Alchemist. Em dupla, o rapper de Indiana e o produtor da Califórnia já assinaram dois discos, Alfredo e Alfredo 2, numa recente mas prolífica parceria que tem puxado pelo melhor dos dois. Não é raro que os instrumentais de recorte clássico de The Alchemist encontrem rappers à altura, tendo em conta os talentos com que já trabalhou ao longo dos anos, mas Freddie Gibbs assenta particularmente bem sobre estes beats.

Vestido de kimono com um cinturão negro que rapidamente saiu de cena, Freddie Gibbs entrou em palco como um mestre da rima em topo de forma, seguro e inabalável, confortável e dominante, a demonstrar uma cumplicidade magnética com o produtor que teceu algumas das melhores bases instrumentais que os seus versos já encontraram, e que estava na sua retaguarda a soltar as batidas e a controlar o tempo da performance.
“Fuck police”, entoou repetidamente Freddie Gibbs ao longo do concerto, pedindo à plateia que o acompanhasse. Rapper de culto com uma legião dedicada de fãs em Portugal, surgiram no ar vários discos de vinil da sua obra, de quem pede um autógrafo e ao mesmo tempo mostra a devoção e o apreço pelo legado.
A voz grave e distintiva de Gibbs, com um flow imaculado, foi debitando as crónicas da sua vida de rua, entre as cicatrizes do passado no crime, a desconfiança e paranóia, com o luxo de quem hoje vive (e bem) do rap que pratica. A jornada de sucesso é digna de vanglória, bem como a disciplina e os códigos que o fizeram brilhar na vida — afinal, ele é um metódico das artes marciais, como o lendário Bruce Lee que vai aparecendo nas imagens projetadas atrás da dupla.
O grande final reservou ainda faixas que escapam ao repertório da dupla mas que são marcantes na história individual de cada um: The Alchemist desceu da sua mesa de DJ para interpretar a emblemática Hold You Down, enquanto Freddie Gibbs evocou outra parceria com outro produtor icónico do hip hop, Madlib, para a prestação de Crime Pays e Thuggin’, particularmente celebradas ao vivo. Ensalada foi outro dos momentos mais sublimes da noite, provando que o peso tanto pode vir de uma guitarra abrasiva como de um hip hop descontraído entranhado de vivências cruas. O MEO Kalorama despediu-se até para o ano com um dia que poderá deixar a organização a sentir-se orgulhosa.


