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(A) :: Francisco Balsemão, o senador

Francisco Balsemão, o senador

A partir desta terça, uma rua de Cascais terá o seu nome. Foi jornalista, político, trabalhador. E praticava, com prazer, o culto da vida. Maria João Avillez pergunta: quantos se podem gabar disto?

Maria João Avillez
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Vontade

1. Hoje, a esta hora e provavelmente em muitas das outras, voltará a ouvir-se falar dele: Cascais inaugurará uma rua com o seu nome, haverá gente, amigos, autoridades, curiosos. Memória e saudade.

O cidadão Francisco Pinto Balsemão — que também hoje faria 89 anos — mais que o merece, ele e o seu triplo e raríssimo currículo: combate pela democracia com a fundação do PPD com Francisco Sá Carneiro e Magalhães Mota; combate pela liberdade de imprensa iniciado ainda nas bancadas da Ala Liberal, na então Assembleia Nacional, nos idos de 1969, continuado no Diário Popular, alicerçado na criação do Expresso em 1973, e atingindo uma espécie de apogeu na aventura da SIC, em 1991, primeira estação de televisão privada do país; combate, enfim, pelo melhor entendimento de uma cidadania ao serviço do país. Acedendo a permanentes solicitações nacionais de vulto, cumprindo múltiplos e prestigiantíssimos compromissos internacionais em grandes fóruns, presidindo a alguns deles, inspirando outros. Interferiu com a media, a política, a governação, o país, alterando rumos, mentalidades e costumes.

2. Já se sabe? Porventura muitos já saberão tudo isto mas o que interessa é o que esteve por detrás de tão invulgar caminhada — a que o berço de ouro do caminhante talvez não o destinasse — e tem um nome: “vontade”. Um dos traços que mais impressivamente distinguem um ser humano perante o caminho que tem à sua frente. Foi isto mesmo aliás que tentei transmitir há dias na Universidade de Verão (UV) do PSD. Aceitei — com gosto — recordar o Francisco Balsemão-jornalista, diante de uma centena de “alunos” que ouviriam Luís Marques Mendes recordar com galopante fluidez e sólida argumentação a importância do Pinto Balsemão-político. Mas a César o que é de César: fui também a Castelo de Vide interpelada pela iniciativa de Carlos Coelho — inventor, produtor, motor, “reitor” das UV — de homenagear um dos melhores da “casa”. Uma boa ideia em estreia absoluta nos 23 anos de história das UV. Deixará marca. Uma delas — quem sabe? — poderá ser a criação do Prémio Balsemão – Liberdade de Imprensa, ali sugerida por Luís Marques Mendes.

Quem sabe e quem puder que o faça.

3. “Vontade” evoquei aqui há pouco. Sim, de fazer, mudar, inovar, reformar, concretizar. Avançar. Vontade e fidelidade na vontade do avanço. Oitenta e muitos anos de avanço: da entrada na Ala Liberal em 1969, até quando, décadas depois, já doente e fatigado, manifestava apaixonado interesse pela Inteligência Artificial, que estudava e debatia como se tivesse vinte anos e lidasse com ela diariamente. Uma vitória persistente e convicta da vontade.

O combate do jornalista

4. Francisco Balsemão foi um grande, grande jornalista. E, simultaneamente, o maior patrão de media no país. Adorava — não há outro verbo — o ofício. Atento, vivo, interessado, bem formado e bem educado, óptimo observador, possuía o culto da vida, a vocação do jornalismo, a paixão da política e servia tudo isto com a curiosidade sempre acesa. Tinha uma relação umbilical com o Expresso, concedia-lhe invariavelmente o seu melhor. Com uma agridoce lucidez, sei que não voltarei a nada de parecido com algumas das coisas que vivi na Rua Duque de Palmela, nos tantos anos que lá ancorei. E onde, com o país a arder no fogo do Processo Revolucionário em Curso (PREC), o director do Expresso, alguns editores, alguns colegas, éramos uma espécie de entidade quase indesligável, tanto oficiávamos em conjunto: revolução, militares, quartéis, Conselho da Revolução, os “Nove”, Soares, Sá Carneiro, Cunhal, os partidos, os sustos, o norte e o sul cada um com a sua cor. Essa vida que se vivia entre dois mundos, duas realidades, balançando entre o possível e o impossível. Crendo e descrendo. Combatendo, numa palavra.

Era o tempo em que toda a grande imprensa internacional rumava ao Expresso, o porto de abrigo mais confiável para os atónitos e incrédulos directores da media chegados às catadupas do estrangeiro. E a quem Balsemão explicava a extraordinária quadratura do círculo que era um país ocidental (e da NATO) onde os resultados de recentes eleições legislativas ordeiras exprimiam inegável prova democrática — coexistiam, em excesso, desconcerto e total “desautoridade” com um demencial processo revolucionário. Imparavelmente em curso.

Do Le Monde, L’Express, Nouvel Observateur, Libération, aos gigantes norte-americanos, passando pelos vizinhos europeus, espanhóis, alemães, ingleses, italianos. Como — por exemplo — foi o caso de Oriana, não a fada mas a Fallaci, que foi expressamente contar ao dr. Balsemão que Cunhal, dez minutos antes, acabara de lhe garantir que “nunca haveria em Portugal uma democracia burguesa”: Cunhal fizera-o nesse dia e ao vivo, diante do gravador da jornalista, na sede do PCP em Lisboa. Sim, a grande plateia internacional da comunicação pasmava — eu vi — ao ouvir aquele director, doublé de proprietário, doublé de político… ao mesmo tempo que se estarrecia face ao que no exterior do edifício do Expresso, com vista para o Marquês de Pombal, ia ocorrendo, país fora: golpes, inventonas, prisões, ocupações de vespertinos, assaltos a rádios, saques a embaixadas, greves diárias, manifestações e contramanifestações, um parlamento sequestrado, a quase asfixia de Lisboa, um país dividido: no norte havia mocas e incendiavam-se sedes comunistas, no sul fervia a revolução no caldo de esquerdas inimigas. A imprensa estrangeira estarrecia-se, nós não tínhamos tempo: ouvíamos, reportávamos, contávamos, entrevistávamos, 24 horas non stop. De tal forma que um dia o “Dr. Balsemão” percebeu que era preciso outro Expresso, para escoar a prodigamente vertiginosa informação que a Rua Duque de Palmela atraía como absolutamente mais ninguém no país, mas que não durava até ao sábado seguinte!

Chamou-se “Expresso Extra”, existiu no fogo de 1974/5 e “saía” às quartas-feiras.

5. Francisco Balsemão respirava informação, possuía um agudo sentido da notícia, sabia construí-la, tinha a boa percepção dos tempos e dos ritmos da entrevista, uma curiosidade imparável, “cheirava” bem o ar, aspirava bem o tempo. Tinha faro, intuição, talento. Tinha paixão. Sempre ofegante, apressado, desorganizado, impontual — nunca o conheci de outra maneira — era por vezes leve, por vezes ligeiro. Não parece ter tido grande importância: jornalista dos pés à cabeça, adorava o que fazia e fazia-o bem.

E era hábil. Recordo — e hoje sorrio — como “convivia”, e aparentemente até com placidez, numa espécie de tácita “aliança” entre o então PPD e um assanhado MRPP maioritário na redação, para o qual os comunistas do PCP eram os odiados “revisionistas” (eram piores que isso, claro), o PS era “fascista”, o PPD não tinha direito de cidade, vomitavam o CDS. Mas, no número 37 da Duque de Palmela, o casamento de conveniência entre o maoísmo militante e os patrões do PPD vigorou, espantando o mundo: produzia-se o melhor jornal desse tempo (e do seguinte).

Mas o patrão, sem nunca perder as boas maneiras, às vezes zangava-se mesmo. Não gostava do erro, detestava o atraso. Era ouvi-lo, clamando penosamente pelos corredores que “aquilo não era o Scala de Milão”, quando de manhã deparava com salas semivazias e à tarde com estados de alma variados — ele queria jornalistas e não tenores. O certo é que tais estados de alma — reais, muitas vezes — arriscavam a hora da saída das diversas prosas rumo à gráfica Mirandela que era, nesses tempos de glória e inferno, onde se imprimia o jornal. À sexta-feira à noite alguns de nós esperavam no restaurante Pabe, na porta ao lado do Expresso, ou em mais modestas moradas, que o jornal se materializasse, como um pão saindo do forno. Com uma ânsia reeditada a cada edição; com uma epifania ao manusear o papel aberto diante de nós.

6. Um dia, no seu amplo gabinete, enquanto me ditava uma “notícia” com o objectivo de testar os meus (sofríveis) conhecimentos na matéria — mal tinha entrado no Expresso — vendo-me pôr papel na máquina de escrever, travou-me o gesto: “Aqui escreve-se sempre dos dois lados do papel… É para poupar”. O efeito era horrível, mas que importância? “Poupava-se.”

E, depois, passou a mandar-me — era o termo — a todo lado: que reportasse o que visse e ouvisse! Dos quartéis que eu frequentava como se fossem pastelarias, às noitadas no Restelo, no prédio alto onde então habitava o Conselho da Revolução; do COPCON, aos comandos militares do país; dos Passos Perdidos da Assembleia da República às sedes dos partidos políticos onde entrevistava, um após outro, os seus líderes, deputados, estrategas: toda essa gente, enfim, pronta a construir o edifício da democracia civilista e pluripartidária que tão a custo se tentava erguer.

O primeiro-ministro

7. Segunda história: o voto democrático venceu a rua revolucionária, Mário Soares ganhou as primeiras eleições de Abril de 1975 e um ano depois as legislativas: havia uma Constituição, iria haver um Parlamento, um governo, um Presidente da República, num concerto de votos livres e democráticos.

E em 1979 Francisco Sá Carneiro escreveria a terceira história. Contra ventos e marés, e cercado por todos os lados — políticos, militares, partidários, mediáticos — o líder da primeira Aliança Democrática ganhou, governou, voltou a ganhar. E mercê de uma tragédia nacional, corporizada num avião que não devia cair, Francisco Sá Carneiro seria substituído por outro Francisco no comando do país e do PSD. A substituição não foi amável: não fora automático, pelo contrário, convencer o partido de que seria ele o autor do resto da terceira história. A bênção de que necessitava como “sucessor natural” não fora nem rápida, nem unânime.

Mesmo apesar de Eanes ter feito saber ainda antes da sua reeleição para a Presidência da República que o “sucessor” era Balsemão, e apesar do poderoso apoio de Alberto João Jardim (Madeira) e Mota Amaral (Açores), amparados nas principais estruturas do PSD, o céu da AD estava nublado. Ou eram as veleidades do próprio Freitas do Amaral, líder do CDS então coligado com o PSD, em sentar-se em São Bento; ou era o grupo de alguns ex-ministros do PSD — “fidelíssimos” a Sá Carneiro — devidamente coligado com a oligarquia centrista, preferindo vê-la na chefia do futuro governo; ou era ainda esse influente Eurico de Melo que defendia o ex-titular das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, para chefiar o futuro governo, opondo-se assim a qualquer outro nome.

Balsemão suava.

Uma ocasião — ainda ao tempo destas intricadas negociações — lembro-me de o ter avistado por alguns momentos. Deparei com um político constrangido: as coisas pareciam fugir-lhe da mão, o ar pesava. Estaria sitiado pela intriga?

Não entrou — longe disso — em confidências, mas fez perguntas: “Que sabes ‘disto’? Quem tens ouvido?”

Depois tudo se encaixou (ou tudo pareceu encaixar-se): no final de 1980, um Conselho Nacional ratificava a candidatura do número 1 do PSD (com duas ou três abstenções apenas). A 8 de Janeiro, Balsemão é empossado na Ajuda pelo seu futuro inimigo e então Presidente da República, general Ramalho Eanes: era o princípio do fim da AD sonhada e concretizada por Francisco Sá Carneiro mas isso ainda não sabíamos. Desconfiávamos, apenas.

Horas antes, Francisco Balsemão, que passara a chamar-se “Pinto Balsemão”, dera-me uma curta entrevista. Ao Expresso, parecera impossível não “editar” algumas palavras daquele “sprinter” na véspera da sua mais importante corrida. Voei veloz para a Gomes Teixeira: “só tenho dez minutos” e “aquilo, não era uma entrevista!” avisava o ex-jornalista… já vestido de chefe do governo. Vendo-me tomar notas, não resistiu a si mesmo e — oh maravilha! — perdeu tempo a indicar-me onde pôr vírgulas ou fazer parágrafos…

Mas foi uma entrevista, claro, e durou mais de 10 minutos, evidentemente: “Sim, o seu governo fora feito em completa harmonia com Freitas do Amaral e Ribeiro Telles”; “sim, houvera alguns ‘acidentes de percurso’ , normais na formação de qualquer governo”; “não, não houvera qualquer tipo de pressão vinda de antigos ministros de Sá Carneiro”; “sim, fora um processo lento e cauteloso norteado pela preocupação de encontrar pessoas competentes na AD e não pela mera distribuição de pastas pelos partidos!”.

A verdade é que ele tentara desenvencilhar-se de quase todos os ex-governantes do PSD — que melhor que ninguém sabia que conspiravam contra si — começando por “auscultar” gente fora desse círculo. Sendo, porém, a política a arte do possível, um contrafeito futuro primeiro-ministro herdou afinal parte desse lote de que Cardoso e Cunha ou Álvaro Barreto podem ser exemplos. E o Palácio das Necessidades fora entregue a um independente, André Gonçalves Pereira, já antes sondado por Sá Carneiro, por duas vezes, sempre em vão. Desta vez, a amizade falou mais alto, André seguiu o seu grande amigo Francisco, mas o futuro chefe do governo tomara boa nota de cada amargura sofrida.

Fosse como fosse, nesse longínquo Janeiro de 1981, era Pinto Balsemão quem continuava a escrever a terceira história.

Voltando a sorrir.

8. A História terá certamente melhor justeza e muito maior competência para avaliar a substância de uma acção executiva algo sobressaltada e cujo leme Francisco Balsemão abandonou, como dizer?, irrazoavelmente em 1983, após não ter ganho umas eleições autárquicas. Ainda hoje um quase mistério.

A sua liderança foi o que pôde ser, numa governação que lutava diariamente para lograr a delicada transição para uma democracia plena, enquanto nunca descurava a frente europeia. Com uma tutela militar sempre “de serviço”, um CDS que se revelou mais padrasto que parceiro, uma comunicação social pouco meiga e uma estrada governamental muitas vezes dinamitada pelas humilhações do Presidente Eanes (um Chefe de Estado que ousou, a partir de certa altura, receber em audiência de gravador ligado o seu primeiro-ministro por “desconfiar dele”), nada foi fácil.

Além de que a “sociedade civil” (uma expressão que o país de Abril ouviria pela primeira vez) que Balsemão esperaria que tivesse reagido com maior vivacidade ao desafio de que “se libertasse”, ficou em banho-maria: o então chefe do Governo, fiel à sua matriz de sempre, ambicionara retirar o país das garras do Estado, sonhando com outra concepção da sociedade num Portugal mais amadurecido na sua capacidade de resposta.

O ex-libris do governante

9. E se havia também quem estranhasse que a experiência acumulada por Pinto Balsemão como ministro de Estado e número dois de Sá Carneiro; o seu jeito para o “diálogo”; uma genuína e permanente procura de consensos, a propensão natural para o compromisso, as boas maneiras, não tivessem logrado um voo mais largo do governo há aqui um puro engano: o que pesará nas contas da História será indiscutivelmente — estou certa — a caminhada da nossa integração europeia e sobretudo a revisão constitucional de 1982 de que o então primeiro-ministro foi um obreiro infatigável. Um formidável saldo que Portugal nunca lhe agradeceu como devia mas do qual ele não duvidava. Um dia disse-me que “quando deixou o governo Portugal tinha indubitavelmente ultrapassado o point of no return na questão da CEE”. Ou que “só a partir de 1982, com a ‘sua’ revisão constitucional, que pusera termo à vigência do Conselho da Revolução, é que Portugal se tornara uma democracia plena, de padrão ocidental”. E era verdade.

Dois ex-libris de que a História fará obviamente caso. Balsemão costumava dizer que “a História faz-se com distância e leva tempo” — e também é verdade.

Detalhemos um pouco os ex-libris. Primeiro ex-libris: a partir de meados de 1982, e dada “a boa aceleração negocial” e o facto de os variados dossiês portugueses estarem em vias de serem fechados tecnicamente, ficou claro para o governo que seria possível concluir o processo de adesão até ao início de 1983. (O Presidente Mitterrand, numa visita a Portugal efectuada por essa altura, chegou a aludir a “une Europe a onze”). A ideia — e a meta — agradavam naturalmente ao então primeiro-ministro Pinto Balsemão, que percorria capital atrás de capital, avistando-se num corrupio com os Helmut Schmidt, Mitterrand e Giscard deste mundo… até se tornar evidente — conforme de resto recordaria o próprio Balsemão em conferência produzida no inverno de 2014, no Ministério dos Negócios Estrangeiros — que as posições da Alemanha e França, desculpando-se com o pretexto de a Espanha não poder ser deixada de fora, foram permanentemente inviabilizando a pretensão portuguesa. Uma inconclusiva valsa dançada pela Alemanha e pela França, “culpando-se mutuamente” pelo adiamento do ensejo português. Apesar de a meta da adesão ter sido só afinal cortada em Junho de 1985, o que interessa é que quem governava o país “se dizia pronto” quase dois anos antes.

Segundo ex-libris: promovida em 1982 pelo governo e acertada entre o PSD, o PS e o CDS, a revisão constitucional de 1982 era a chave que abria uma das mais fortes portas de acesso a uma democracia civilista e civilizada, de matriz ocidental. Reconhecê-lo hoje será talvez mais fácil do que tê-lo feito ontem. Mérito do maestro que soube pôr músicos e instrumentos em boa harmonia, mas relembre-se também o enorme mérito de Mário Soares na empreitada, o qual cerca de uma década depois a recordava assim: “Os debates vivos onde, como líder da oposição, critiquei e interpelei o então primeiro-ministro (Pinto Balsemão) não nos impediram, em 1982, que nos tivéssemos posto de acordo na necessidade de uma revisão constitucional profunda. Essas negociações entre PS e PSD levaram a alterações na Constituição que tornaram Portugal numa democracia plenamente civilista e ocidental. Foi um período difícil de pressões e violentos ataques, vindos até do interior dos nossos partidos. Quero por isso prestar homenagem à sua (de Francisco Balsemão) determinação.”

Não se pode ser mais claro.

O olhar de um Francisco sobre o outro

10. Não parece que valha muito a pena descer de novo o véu da dúvida sobre a verdadeira natureza deste dotado cidadão: Pinto Balsemão político ou… Francisco Balsemão jornalista? Socorro-me do “olhar” do próprio Francisco Sá Carneiro sobre Francisco Pinto Balsemão, como selo legitimador do fim da dúvida.

Não se conheciam antes da formação da Ala Liberal. Um dia sentaram-se lado a lado na Assembleia Nacional — “tinham o mesmo nome e o mesmo sentido de humor”, a empatia e cumplicidade políticas fizeram o resto, que foi muito. Ei-los a redigir diversas propostas de lei a favor dos direitos fundamentais; a discutir intervenções e iniciativas comuns; a visitar presos políticos em cadeias; a trocar desabafos desalentados e depois irados sobre o regime de Caetano; a decidir concertadamente abandonar o hemiciclo de São Bento. Criara-se um elo, sendo que evidentemente era com o político Francisco Balsemão que Sá Carneiro combatia. O jornalista tinha nome, tarimba, era talentoso, mas foi com um político que na pessoa de Balsemão Sá Carneiro contou e confiou para o futuro político comum com que ambos sonhavam e depois partilhariam. (Só uma única vez vi Francisco Sá Carneiro “triste” com o seu amigo: como é que o proprietário do Expresso consentia na “pouca vergonha” em que se encontrava o jornal naquela altura? Tudo “tinha limites”. Subentendido: trabalhar mediaticamente a política daquela forma “enviesada”, mancharia de “indiferença” quem era suposto estar em posição de não consentir – nem apreciar – tal estado de coisas. Este extraordinário e realíssimo diálogo ocorreu num hotel de Viseu, no domingo dia 23 de Novembro, de 1980, em plena campanha eleitoral para as presidenciais. A Aliança Democrática apoiava o general Soares Carneiro e Sá Carneiro, então chefe de Governo, “descia” aos fins de semana ao terreno da campanha eleitoral que eu cobria para o Expresso, justamente).

O mundo lá fora

11. Entre a Duque de Palmela e o Palácio de São Bento houve sempre algo que interpelou Balsemão e durou até à sua morte: a política externa. E, aí, não só sobrava talento como alguma coisa de parecido senão com vocação, pelo menos com “convocação”. Os assuntos externos e os seus desafios e os seus complexos territórios; a diplomacia e os seus segredos; as nuances e subtilezas da sua condução, teriam tido aqui um protagonista à part entière. Foi certamente por saber isso que Francisco Sá Carneiro lhe entregou essa “pasta” no governo-sombra que constituiu, no final da década de setenta.

“São matérias que sempre me interessaram e julgo conhecer alguma coisa neste domínio”, disse-me um dia, numa entrevista. “É um desafio intelectual de que gosto e onde me sinto à vontade”. Não se sabe se Ramalho Eanes gostava tanto como ele, mas sabe-se o essencial: o cerne da tensão e do conflito que veio a opor o então Presidente Eanes e o então primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão radicava muito nas contrárias visões que ambos tinham sobre a condução de alguns dos nossos dossiês externos. Uma área onde quase tudo veio a opô-los e que azedou irreversivelmente a relação institucional entre ambos. (Valerá a pena enunciar algumas dessas áreas portadoras de conflito. Pela sua variedade e natureza exibem à vista desarmada como seriam afinal “utilizadas” muito mais como pretexto de conflito do que real matéria de desacordo: invasão do Afeganistão; demissão e nomeação de embaixadores; “caso Pintasilgo”; Congresso das Comunidades; visitas a Portugal de Senghor, Karl Carstens e Jimmy Carter; visita de Eanes a Itália e à Noruega; caso dos pescadores aprisionados pela Frente Polisário).

Francisco Balsemão guardou porém intactos um gosto, uma apetência e uma curiosidade que o levaram vida fora a participar, intervir e muitas vezes liderar alguns dos mais prestigiados fóruns internacionais que pensam alto tais matérias. Desde cedo teve lugar cativo em diversas instâncias europeias e norte-americanas, onde se sentam os grandes deste mundo que ele tratava por tu e onde era apreciado, respeitado e ouvido. Muitos foram os compromissos que o seu nome, fora de portas, o fazia cumprir. Um senador com influência.

O culto da vida

12. Tudo destinava Francisco Manuel Castro Pereira Pinto Balsemão, nascido em Lisboa a 1 de Setembro de 1937, a uma vida diferente: o berço, a família, o meio, as posses familiares. Filho único e tardio, foi criança protegida e adolescente mimado. Mais crescido, jogava ténis com o futuro Rei de Espanha, (Juan Carlos), tinha “dinheiro de bolso”, guiava um carro desportivo, namoriscava suecas loiras, frequentava as boites do Estoril e de Cascais. Mas quando o diziam exclusivamente entretido com aqueles meios sociais em andanças demasiado festivas, iniciou — muitíssimo a sério — no Diário Popular, propriedade de um tio, uma carreira jornalística que de imediato o interpelou tanto quanto o absorveu. Fazendo do jornal um fórum procurado por gente interessante onde se cruzavam e discutiam artistas, intelectuais, escritores, pintores: estava-se no final da década de sessenta e as funções jornalísticas obrigam-no a um contacto “diário, estreito, desagradável, com a censura”. O que lhe abre ainda mais os olhos e o “predispõe” a lutar pelas coisas. Tinha 32 anos e decidira-se pela política. A sério, uma vez mais. E a recém-formada Ala Liberal seria a melhor ponte para esse mundo novo e para quem pretendia — era o seu caso — uma moderada transição do regime autoritário para a democracia liberal praticada na Europa ocidental.

E as posições constantes e vigorosas que enquanto jornalista assumira contra a censura no Diário Popular tinham-no tornado notado nas bancadas da Ala Liberal e fora delas. Se a Ala Liberal acabou mal, deixou-lhe uma boa certeza: nada ficaria por ali. E uma lição: a política dava trabalho.

O trabalhador

13. Uma vez, há muito tempo, era um escaldante dia de Agosto, procurei-o por razões profissionais, sob um sol avassalador. Encontrei-o sentado a uma mesa cheia de papéis debaixo de uma árvore da casa que alugava na Quinta do Lago, no Algarve. Apesar de se encontrar de férias, trabalhava, desde cedo. Com gosto. O gosto pela vida, o espírito da festa, o sucesso, nunca o impediram de multiplicasse por mil o dom — julgo que nele era um dom — do trabalho. Nem a sua desorganizada gestão do tempo ou a sua impontualidade o tornaram infiel face aos compromissos assumidos e foram centenas e de natureza diversa. (Era raríssimo faltar a uma aula nas universidades onde leccionou durante anos, mas quando tal ocorria apresentava-se aos alunos aos sábados de manhã, para substituir a ausência forçada).

“Fartei-me de trabalhar, caramba!”, ouvi-lhe eu, num jantar em casa de amigos comuns, no dia em que o Expresso celebrou os seus 35 anos. Fora convidado pelo jornal para inspirar e fazer a edição do aniversário. Tinham sido cinco dias intensos de labor para produzir um ”resultado” com a sua assinatura e inspirado por si.

Levara a semana na redação: inventando novas secções, entrevistando gente, apurando notícias, redigindo editoriais, ouvindo pessoas, fazendo perguntas, perdendo tempo ao telefone. Guardara afinal intacto e inteiro o segredo da arquitectura do produto final.

Mas este cavalheiro que vivia com saudades das redações era, nessa noite, o mais feliz dos convivas e um jornalista felicíssimo.

Belém?

14. O prestígio e a influência alimentaram rumores de ambições presidenciais. Belém passou-lhe pela cabeça. Não avançou preferindo apoiar Mário Soares, de quem sempre gostou e mais tarde — a contragosto — Cavaco Silva, de quem nunca gostou e a quem nunca perdoou alguns gestos do passado (mas de quem foi conselheiro de Estado.) Preferia — dizia-se — consagrar-se apenas ao seu grupo de comunicação. E à vida, para a qual nunca teve todo o tempo que gostaria.

Há já muito tempo, decorria o ano de 2014, ouvi Pedro Passos Coelho, então chefe do governo, referir-me no seu gabinete de São Bento o “gosto” que teria numa candidatura presidencial de Francisco Balsemão. Em 2015 voltei a ouvir o mesmo ao mesmo primeiro-ministro. Tinha razão. Teria sido — com Jaime Gama pelo PS e escrevi-o mais de uma vez — a mais sólida, séria e prestigiada “dupla” que a direita e a esquerda poderiam ter oferecido ao país, em Janeiro de 2015.

Deus às vezes dorme.

Um liberal feliz

15. Era de facto um liberal — num Portugal onde eles eram escassíssimos — que lutara pela imprensa livre, sonhara com a “libertação” da sociedade civil, fizera um jornal liberal e concretizara uma estação de televisão privada. Assinando desta forma um feito raro ao produzir meios de comunicação que haveriam de marcar determinantemente gerações distintas, filhas de dois países muito diferentes: o Portugal de 1973 do Expresso, que parecia ter metido a marcha-atrás após as enormes esperanças criadas pelo “marcelismo”, existindo a meio caminho entre os restos da ditadura e a democracia com que muitos sonhavam cá dentro e privavam fora de portas; e a pátria desenvolta, aberta, mais cosmopolita e europeizada (e já endividada) da década de noventa.

Quantos em Portugal no último meio século se podem gabar do mesmo?

Nunca lhe vi a arrogância do sucesso ou a pretensão do que não fizera. Vi, sim, a jubilosa alegria face aos seus feitos — é a palavra — na comunicação social. Mas apercebi-me sempre de uma absoluta e resoluta certeza sobre os aquis obtidos para Portugal, por ele e pelo seu governo, (“fizeram avançar o país”), com a sua assinatura de primeiro-ministro.

E, quanto ao mais, continuava a jogar golfe, tocava bateria (às vezes piano), recebia amigos, conversava, sabia ouvir. Viajava incansavelmente, mimava os netos, aprendia coisas, descobria outras, retinha todas. Sempre olhou para cima, nunca desconfiou do novo, nem temeu o desconhecido. Ao contrário: procurou-os e abriu-lhes a porta.

16. Repito: quantos em Portugal se podem gabar de um triplo currículo como este?

[Este texto é uma adaptação de um artigo publicado no dia da morte de Francisco Pinto Balsemão.]