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(A) :: O mundo de olhos postos em Bisqueque. O que está em causa na cimeira que vai reunir Putin, Xi, Modi, Pezeshkian e até Guterres?

O mundo de olhos postos em Bisqueque. O que está em causa na cimeira que vai reunir Putin, Xi, Modi, Pezeshkian e até Guterres?

No ano em que completa 25 anos, a SCO reúne no Quirguistão com conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, sanções ao Irão e gasodutos russos em cima da mesa.

António Moura dos Santos
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Esta terça-feira tem início a 26.ª cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), no mesmo ano em que o grupo informal atinge os 25 anos de existência. Os encontros realizam-se em Bisqueque, a capital do Quirguistão, um dos 10 membros deste bloco que tem assumido o objetivo de constituir uma força contrária à influência dos países ocidentais.

Nos dias que antecederam o início da cimeira, foi confirmada a presença de alguns dos líderes mais poderosos da Eurásia, como o presidente chinês Xi Jinping — que chegou este domingo — o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente russo Vladimir Putin.

Além disso, o encontro será também marcado pela comparência do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, num contexto de pressão económica crescente por parte dos EUA e no rescaldo dos primeiros ataques norte-americanos ao território em mais de um mês.

Segundo confirmou a agência de notícias turca Anadolu junto do secretariado da SCO, a agenda desta cimeira será marcada pelos principais desafios de segurança regionais e internacionais em curso, como os conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Foi já anunciado que Putin vai ter encontros bilaterais com Pezeshkian e Xi, tendo este triângulo especial significância no contexto das tentativas de Donald Trump de bloquear apoios financeiros e militares a Teerão, particularmente por parte da China e da Rússia.

A 25 de agosto, a administração Trump iniciou a “Operação Exclusão Económica”, uma campanha de pressão económica consistindo na imposição de sanções secundárias aos parceiros comerciais do Irão nos setores do ouro, da tecnologia, dos ativos digitais, da aviação e do transporte marítimo. Além disso, Washington ameaçou também os aliados do Irão com sanções diretas. A China — que é um dos principais importadores de petróleo iraniano a nível mundial — já reagiu a estas ações, afirmando que irá “defender firmemente” os seus interesses.

Estas reuniões bilaterais em Bisqueque decorrem também dias depois de o diretor da CIA, John Ratcliffe, ter visitado Moscovo, com esta viagem a ser alvo de elevada especulação quanto ao que terá sido discutido no que toca aos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.

Além dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, outros pontos de interesse desta cimeira residem na tentativa de descongelamento das relações diplomáticas entre a China e a Índia depois de anos de tensões fronteiriças, e na forma como a Índia e o Paquistão vão lidar com as consequências das escaramuças de maio do ano passado na região de Caxemira.

A interdependência e a conectividade económica também vão tomar um destaque importante, a começar pelo setor dos transportes. Um dos projetos na agenda é o corredor logístico [ferroviário e marítimo] promovido pela Rússia: projetado para ter 7.200 quilómetros, deverá ligar São Petersburgo a Mumbai, passando pelo Irão e por portos do Golfo Pérsico.

Outro dos temas económicos na agenda é o projeto do gasoduto Siberian Force-2, infraestrutura planeada para transportar gás natural dos campos da Sibéria ocidental para o mercado chinês, atravessando o território da Mongólia. O acordo sobre este gasoduto não pôde ser concluído, como era desejo de Moscovo, durante a visita do chefe do Kremlin ao gigante asiático em maio passado.

Está ainda planeado retomar as discussões quanto à potencial criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO, que tem sido alvo de sucessivas negociações quanto à sua estrutura e modalidades de funcionamento.

A Organização de Cooperação de Xangai centra grande parte da sua atividade na cooperação política, económica e de segurança, incluindo o combate ao terrorismo, ao separatismo e ao extremismo. Ao contrário da NATO, não dispõe de uma cláusula de defesa mútua e toma as suas decisões por consenso, mas tem assumido um importante papel geopolítico, principalmente pela forma como a China e a Rússia têm usado esta organização como força de pressão contra os adversários do Ocidente.

A reunião do ano passado em Tianjin, por exemplo, foi marcada por declarações de defesa pela criação de um “mundo multipolar” e por críticas mais ou menos veladas: se Putin acusou os países ocidentais de provocarem a guerra na Ucrânia, Xi denunciou “atos de intimidação” por parte dos EUA.

https://observador.pt/2025/09/02/organizacao-de-cooperacao-de-xangai-tem-plano-de-dez-anos-para-promover-mundo-multipolar-diz-mne-chines/

As origens deste grupo remetem para os “Cinco de Xangai”, formação precursora criada em 1996 pela China, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão para mitigar tensões militares e resolver disputas fronteiriças na sequência do colapso da União Soviética. Quando o Uzbequistão aderiu, em 2001, este bloco tornou-se na Organização de Cooperação de Xangai.

Hoje, a SCO é composta por 10 países, com as entradas da Índia e do Paquistão como membros de pleno direito em 2017, seguindo-se o Irão em 2023 e a Bielorrússia em 2024. Além dos membros oficiais, juntam-se ainda o Afeganistão e a Mongólia como observadores e cerca de 15 parceiros de diálogo onde constam a Turquia, o Azerbaijão e a Arábia Saudita.

É no contexto deste grupo mais alargado que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também vai marcar presença na cimeira em Bishkek, tendo previsto discursar na reunião da Organização de Cooperação de Xangai Plus, um formato alargado que reúne os membros da SCO e convidados, observadores e outros parceiros.

“Neste discurso, espera-se que o secretário-geral enfatize o valor da cooperação entre a ONU e a Organização de Cooperação de Xangai. Abordará também outros temas, incluindo os recentes acontecimentos no Médio Oriente”, confirmou o seu porta-voz, Stéphane Dujarric.

*com Lusa