Saíram as colocações. Dezenas de milhares de jovens souberam esta semana em que universidade vão passar os próximos anos, e eu passei a semana a pensar numa pergunta que parece simples: o que faria eu, sabendo o que sei, se fosse um deles? Ensino há quarenta anos, fundei escolas onde não ensina ninguém e programas para ensinar inteligência artificial a milhares de pessoas. Tenho, portanto, o dever de responder à pergunta a sério — e a resposta honesta começa por uma confissão: os conselhos que dei a alunos durante vinte anos, tira um bom curso, tira boas notas, arranja um bom estágio, deixaram de chegar. Eram conselhos para um mundo em que o conhecimento era escasso e o diploma era a prova de o ter. Esse mundo acabou. O que se segue é o que eu faria no mundo que começou.
Aviso desde já que algumas destas ideias vão soar excêntricas. É de propósito, e a excentricidade não é estilo: é estratégia, e explico porquê antes de dar um único conselho.
O mundo para onde vais sair
Comecemos pelos factos, porque são recentes e são duros. A melhor evidência disponível sobre o efeito da inteligência artificial no emprego vem de Erik Brynjolfsson e da sua equipa em Stanford, que analisaram os salários processados pela ADP — milhões de trabalhadores americanos, mês a mês. Os resultados, atualizados em agosto de 2026, dizem o seguinte: o emprego dos jovens de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA está hoje 19% abaixo de onde estaria se tivesse acompanhado o dos colegas menos expostos. Para os trabalhadores experientes, não há queda comparável. O padrão tem uma assinatura clara — o emprego cai nas ocupações em que a IA automatiza o trabalho e cresce naquelas em que o aumenta. Brynjolfsson resume o mecanismo numa frase que devias pendurar na parede do quarto: o que os trabalhadores jovens sabem coincide, em grande medida, com o que os modelos já sabem fazer.
Traduzo: o degrau de entrada da carreira — as tarefas de rotina com que os juniores sempre aprenderam o ofício, as pesquisas, os memorandos, o código de manutenção, as primeiras versões de tudo — é exatamente o que a IA faz mais depressa e quase de graça. As empresas estão a reorganizar-se em torno disso neste momento, e a Reserva Federal de St. Louis já encontra correlação entre a adoção de IA e as subidas de desemprego desde 2022, com as ocupações de computação e matemática à cabeça. Repara na ironia, porque ela vai voltar mais adiante: os cursos que os teus pais consideram seguros são os canários da mina.
Há aqui um paradoxo que as empresas ainda não resolveram e que joga a teu favor, se o perceberes cedo. As organizações estão a substituir a base da pirâmide — os juniores — por ferramentas, mantendo os séniores que sabem julgar o que as ferramentas produzem. Só que os séniores de 2040 teriam de ser os juniores de hoje, e a escada por onde se subia está a ser serrada degrau a degrau. Alguém vai ter de saber julgar, dirigir, assinar por baixo — e a fila para esses lugares está a esvaziar-se pela base. Quem conseguir tornar-se júnior com juízo de sénior, aos vinte e poucos anos, entra num mercado onde a concorrência foi dispensada por automação. Todo este ensaio é, no fundo, um manual para essa travessia.
E nota o outro lado dos mesmos dados, porque o estudo de Stanford também o mostra: nas ocupações em que a IA aumenta o trabalho humano em vez de o substituir, o emprego jovem cresceu. A linha que separa os dois destinos não passa entre cursos nem entre setores; passa dentro de cada profissão, entre quem executa o habitual e quem faz o que a máquina não faz — julgar, decidir, responder por. A tua tarefa nos próximos quatro anos é simples de enunciar e difícil de cumprir: instalar-te do lado certo dessa linha.
Do outro lado desta transformação está a instituição onde vais entrar. A universidade portuguesa é, no essencial, a mesma máquina de há cinquenta anos: a aula magistral, o semestre, o exame que mede a retenção de informação — num tempo em que a informação custa zero e a retenção é terceirizável. Não digo isto para te desanimar; digo-o para calibrar as expectativas: a universidade vai dar-te coisas valiosíssimas, mas não vai, por si só, preparar-te para 2030. Essa parte é contigo. A boa notícia é que nunca foi tão possível fazê-la por conta própria.
Em rigor, sabemos como seria uma universidade à altura do momento, e há bolsos dela a nascer: avaliação por projetos e por defesa oral em vez do exame de memorização, que a IA tornou um teatro; mentoria em vez de monólogo; a IA integrada no ensino como treinador de cada aluno em vez de proibida como ameaça ao regulamento. Se tiveres a sorte de apanhar professores e escolas que já acordaram, agarra-os. Mas escrevo esta carta para o caso geral — e no caso geral a instituição vai mudar mais devagar do que a tua vida exige. A estratégia que se segue não depende de reforma nenhuma: é executável por um aluno sozinho, a partir de segunda-feira.
A regra da excentricidade
Antes dos conselhos, o princípio de onde todos derivam. Um modelo de linguagem (LLM) é, por construção, um destilado de tudo o que a humanidade escreveu: a média ponderada do conhecimento. É por isso que ele faz o habitual assombrosamente bem — o texto competente, o código padrão, a análise que qualquer bom aluno faria. Daqui decorre a lei económica mais importante da tua geração: o preço do habitual está a cair para zero. Tudo o que é típico, previsível, replicável — tudo o que se aprende a fazer como toda a gente — vale cada vez menos, porque uma máquina o produz por cêntimos.
O valor não desaparece: migra. Migra para o que a média não contém — o juízo em situações novas, o bom gosto, a agência de quem começa coisas sem esperar ordens, a confiança que se deposita numa pessoa concreta, a responsabilidade de assinar por baixo, a presença física onde ela conta. Migra para as pontas da distribuição. E se o valor está nas pontas, a estratégia racional é sair da média: diferenciares-te não é vaidade, é aritmética. Se o teu plano de carreira cabe num template, o template compete contigo — e o template agora responde em dois segundos.
Nada disto é inédito, e a história ajuda a pensar. Quando a folha de cálculo chegou aos escritórios, no início dos anos oitenta, dizimou uma profissão inteira — os guarda-livros que passavam dias a somar colunas — e multiplicou outra: os analistas que, libertos das somas, passaram a fazer perguntas às somas. A máquina comeu a tarefa e valorizou o juízo sobre a tarefa. A imprensa fez o mesmo aos copistas e criou os autores; a máquina fotográfica fez o mesmo ao retrato e criou a fotografia. O padrão repete-se há quinhentos anos: cada tecnologia de uso geral reprecifica as competências humanas, desvalorizando a execução do habitual e valorizando o que se faz com ela. A diferença, desta vez, é a velocidade — e o facto de a tarefa engolida ser, pela primeira vez, o próprio trabalho cognitivo de rotina com que as carreiras começavam.
Uma precisão antes que me acusem de mandar toda a gente pintar o cabelo: excentricidade ótima não é esquisitice gratuita. É seres invulgar nas competências e vulgar na fiabilidade — chegar a horas, cumprir prazos, ser decente. Fora da média no que sabes fazer; dentro da média no que te torna confiável. Feita a doutrina, eis o que eu faria.
O que eu faria
Primeiro: escolheria o curso mais difícil em que conseguisse sobreviver. A matéria específica esquece-se; o que fica é a capacidade de esforço e a companhia. Um curso difícil treina-te a aguentar problemas que não cedem à primeira — o músculo que a IA não substitui, porque é o que se usa quando o habitual falha — e junta-te às pessoas que escolheram o mesmo. Daqui a vinte anos ninguém te perguntará a média; perguntarão o que sabes resolver. A média mede onde estás; a inclinação da curva mede quem és.
Segundo: escolheria professores, não cadeiras. Em cada faculdade há meia dúzia de professores que mudam vidas e uma maioria que despacha programas. Descobre quem são os primeiros — pergunta aos alunos mais velhos, é informação pública no mercado informal — e vai atrás deles, mesmo que ensinem coisas fora do teu plano. Uma cadeira medíocre de tema útil vale menos do que uma cadeira brilhante de tema inútil, porque o que um grande professor ensina não é o tema: é o padrão de exigência. Sob inteligência artificial, o conteúdo está em todo o lado; o exemplo, não.
Terceiro: usaria a IA como treinador implacável e nunca como empregado. Vais viver rodeado de colegas que entregam trabalhos que não escreveram e passam em cadeiras que não perceberam. Terão notas e não terão nada. A IA é traiçoeira porque produz a sensação de aprendizagem sem a aprendizagem — o perigo não é a fraude, é a atrofia. A minha regra teria um só artigo: se foi a IA que fez, eu não sei fazer. Mas usá-la-ia todos os dias ao contrário: gera-me dez perguntas de exame sobre este capítulo e corrige-me sem piedade; ataca este meu argumento pelos flancos; explica-me isto de três maneiras e pergunta-me qual falhou. A mesma máquina que atrofia quem lhe delega é o melhor tutor pessoal alguma vez inventado para quem a comanda. A diferença entre as duas utilizações vai dividir a tua geração em duas.
Quarto: aprenderia a escrever como quem aprende um instrumento. Escrever não é enfeitar ideias: é descobrir que não as tinhas. É a tecnologia mais barata que existe para pensar com rigor — e, num mundo inundado de texto sintético competente, a escrita com voz própria tornou-se um bem de luxo. Faria mais: escreveria em público desde o primeiro semestre. Um blogue, uma newsletter, ensaios no LinkedIn — o tema importa menos do que o hábito. Ao fim de três anos terias um corpo de trabalho público que nenhum currículo iguala: prova datada de que pensas, melhoras e apareces. Os empregos bons da próxima década não se candidatam; encontram-te. Dá-lhes maneira de te encontrarem.
Quinto: aprenderia a programar, qualquer que fosse o meu curso — mas não para ser programador. Os canários da mina já cantaram sobre isso: o código de rotina é a primeira coisa que a IA engoliu. Aprender a programar em 2026 serve outra coisa: é a gramática das máquinas que vais comandar a vida inteira. Quem percebe como um sistema funciona por dentro dirige sistemas; quem não percebe, obedece-lhes. Um médico que programa desenha a ferramenta clínica; um jurista que programa automatiza o contencioso; um historiador que programa lê um arquivo inteiro numa tarde. E sim, é aqui que entra a 42 — declaro o interesse: fundei-a; declaro o facto: é gratuita, não tem professores nem aulas, e ensina exatamente isto, ao teu ritmo, em paralelo com qualquer curso. A combinação licenciatura mais 42 continua a ser a maior pechincha do sistema educativo português, e digo-o com a serenidade estatística de quem tem conflito de interesses e razão ao mesmo tempo.
Sexto, e começa a parte excêntrica: leria livros velhos. Parece conselho de avô; é vantagem competitiva. A IA foi treinada no presente e na média — no grande mar de texto recente que toda a gente lê. Se te alimentares só do feed, pensas como o feed, e o feed já tem quem o escreva por cêntimos. Os livros que sobreviveram quinhentos ou dois mil anos passaram no filtro de seleção mais exigente que existe, e contêm as ideias fora da média que o presente esqueceu. Tucídides ensina mais sobre poder do que qualquer thread; Smith e Bastiat explicam a economia de 2030 melhor do que os comentadores dela. Um jovem de vinte anos que tenha lido cinquenta clássicos é, hoje, um excêntrico — e é exatamente essa a vantagem: pensa com material que os concorrentes não têm.
Sétimo: aprenderia como o mundo funciona. O curso vai dar-te profundidade numa fatia estreita da realidade; o mapa do resto, ninguém to dá — como se formam os preços e os governos, porque prosperam países e falham empresas, como se lê um balanço, de onde vem e para onde vai o dinheiro do Estado, o que aconteceu das outras vezes em que o mundo mudou de era. Política, economia, gestão, história: o sistema operativo da realidade. Não é cultura geral para jantares — é vantagem prática, porque quase todas as decisões importantes da tua vida, onde trabalhar, quando arriscar, em quem votar, são apostas sobre como o mundo funciona, e a maioria das pessoas aposta sem nunca ter estudado o jogo. Uma hora por dia chega: um livro de história económica, um relatório e contas lido até ao fim, uma biografia de alguém que construiu. E repara que é conhecimento à prova de máquina: os factos, a IA sabe-os todos; o mapa mental que os liga e te diz o que fazer com eles, esse, ou é teu ou não existe.
Oitavo, e esta é talvez a mais excêntrica de todas: treinaria a atenção como quem treina um desporto. A tua geração recebeu o cérebro mais bombardeado da história: o telemóvel médio interrompe-te centenas de vezes por dia, e a capacidade de fazer uma coisa difícil durante três horas seguidas tornou-se uma raridade estatística. Ora, tudo o que vale a pena nesta carta — perceber um teorema, escrever um ensaio, construir um produto — vive precisamente nessas três horas que quase ninguém consegue juntar. A atenção profunda é hoje o que a força física era no século XIX: o insumo escasso de que tudo o resto depende. Eu treiná-la-ia com a seriedade de um atleta: blocos diários sem telemóvel, em papel se preciso, aumentando a carga como no ginásio. Parecerás um monge num mundo de esquilos. É exatamente essa a ideia: num mercado onde a atenção de todos foi leiloada, quem ainda a tem inteira fica com um monopólio.
Nono: faria um trabalho manual a sério. Um verão numa obra, numa cozinha, numa fábrica, no campo — por dinheiro, com horário, com um chefe que não estudou contigo. Três razões, por ordem crescente de importância. A humildade de servir clientes reais cura para sempre a arrogância de escritório, que é a doença profissional de quem só conheceu escolas. O conhecimento do país real — quem produz, quanto custa, como se trata quem trabalha — vale mais do que três cadeiras de sociologia. E há uma razão fria: a IA está a comer o trabalho cognitivo de rotina muito mais depressa do que o trabalho físico qualificado; saber fazer coisas com as mãos é, pela primeira vez em décadas, um diferenciador em alta. O licenciado que percebe de motores, de madeira ou de cozinha é mais raro — logo mais valioso — do que o licenciado que percebe de PowerPoint.
Décimo: tornar-me-ia a pessoa que convoca. Em todas as turmas há quem organize o jantar, o clube de leitura, o torneio, a viagem — e toda a gente acha que é um frete. É o cargo mais subvalorizado da universidade. Quem convoca fica no centro da rede: conhece toda a gente, toda a gente lhe deve uma, e treina a competência que nenhuma máquina disputa — juntar pessoas e fazê-las querer voltar. Daqui a vinte anos, os teus colegas de curso serão fundadores, diretores, cirurgiões e ministros, e o valor da tua passagem pela universidade vai medir-se menos pelo que aprendeste nas aulas do que por quem te conhece pelo nome. As aulas ficam nos apontamentos; a turma fica na vida. Organiza a turma.
Décimo primeiro: trabalharia de graça onde o acesso vale mais do que o salário. Há duas moedas numa carreira a começar: dinheiro e proximidade. Nos primeiros anos, a segunda rende incomparavelmente mais. Escreveria a cinquenta pessoas que admiro — investigadores, fundadores, artesãos de qualquer ofício — com uma proposta impossível de recusar: identifiquei este problema no seu trabalho, resolvo-o de graça, aqui está uma amostra. Quarenta e sete não respondem; as três que respondem mudam-te a vida. Note-se a mecânica: não pedir estágio, não pedir conselhos de carreira — pedir problemas. Quem pede trabalho recebe silêncio; quem entrega trabalho recebe portas.
Décimo segundo: construiria uma coisa com o meu nome antes do fim do curso. Um produto minúsculo, um serviço para vinte clientes, uma associação, um canal, uma investigação publicada — a escala não importa; a autoria importa. Quando o conhecimento é grátis, as provas de conhecimento desvalorizam-se e as provas de agência tornam-se o novo diploma: mostrar que identificaste um problema, começaste sem autorização, sobreviveste ao contacto com a realidade e acabaste o que começaste. Falhar barato aos vinte é a melhor educação financeira e emocional disponível no mercado. E há um segredo que os empregadores conhecem e as universidades não ensinam: quem já construiu uma coisa pequena é promovível; quem só tirou boas notas é examinável.
Décimo terceiro: começaria a investir todos os meses, por pouco que fosse. Vinte euros chegam para começar; o que importa não é o montante, é o hábito — e o tempo, que é a única coisa em que és milionário. A receita cabe numa frase: um ETF de índice sobre o mercado acionista mundial, custos de gestão na ordem de 0,1% a 0,2% ao ano, transferência automática no dia em que o dinheiro entra, e nunca mais mexer. Faz as contas do juro composto e assusta-te a teu favor: cem euros por mês desde os dezoito, a 5% reais ao ano, a média histórica das ações mundiais, são mais de duzentos mil euros a preços de hoje aos sessenta e cinco; começar aos trinta em vez de aos dezoito não corta uns anos ao resultado, corta-o a meio. Vais aprender mais sobre finanças, e sobre ti, com dinheiro teu no mercado do que em qualquer cadeira — a primeira queda de 20% ensina o que nenhum manual consegue. E ignora tudo o resto: a criptomoeda da semana, as dicas do primo, o trading com gráficos. No investimento, o tédio não é o preço da estratégia; é a estratégia. Quanto a contares com a pensão pública para a velhice: escrevi um ensaio inteiro sobre isso, e o resumo é que não contes.
Um último item que não numero porque não é conselho, é infraestrutura: dorme, treina, come como um adulto. A vantagem cognitiva composta de dez anos de sono decente e exercício regular é maior do que a de qualquer cadeira — falo com a autoridade suspeita de quem se arrasta todos os dias para o CrossFit às sete da manhã e a evidência, essa, é abundante. O corpo é o hardware onde tudo o resto corre. Ninguém escreve ensaios brilhantes num portátil a arder.
O que eu não faria
Não otimizaria a média. Excelência seletiva: escolheria três ou quatro batalhas por ano para fazer trabalho de que me orgulhasse dez anos depois, e nas restantes cadeiras passaria com dignidade e sem remorsos. O dezanove a tudo custa exatamente aquilo que os conselhos anteriores exigem — tempo, folga, projetos, gente — e compra um número que nenhum empregador sério voltará a olhar depois do primeiro emprego.
Não escolheria o curso pelo medo. A geração dos teus pais aprendeu que segurança era um curso técnico numa área com muitas vagas de emprego — e acabámos de ver os juniores dos cursos seguros por excelência, a cair 20% em três anos. A segurança mudou de morada: já não vive em nenhuma profissão específica, vive num conjunto de capacidades — aprender depressa, escrever com clareza, comandar máquinas, merecer confiança — que se transportam de profissão em profissão. Escolhe o curso pelo fascínio e pela dificuldade, que são os únicos combustíveis que aguentam quarenta anos de reinvenções.
Não confundiria o diploma com a educação. O diploma é um recibo; a educação é o que fica quando ninguém está a ver. Vais conhecer licenciados ocos e autodidatas extraordinários, e o mercado — cada vez mais equipado para medir o que sabes fazer em vez do que dizes ter — distingue-os melhor a cada ano. Trata o diploma como o bilhete de entrada que é, e constrói a educação por cima dele, deliberadamente, peça a peça.
E não emendaria um diploma com outro por inércia. O mestrado imediatamente a seguir à licenciatura, tirado porque toda a gente tira e porque adia a entrada no mundo, é na maioria dos casos a compra de mais dois anos de habitual — exatamente o ativo que está a desvalorizar — ao preço dos dois anos mais férteis para construir o que é próprio. Há mestrados que valem ouro: os que se tiram com propósito cirúrgico, de preferência depois de uns anos de trabalho, quando já se sabe que pergunta se quer responder. Como regra de bolso: um mestrado escolhido aos vinte e um por medo do mercado rende menos do que os mesmos dois anos passados a executar os movimentos desta carta. A inflação de credenciais é real, mas a resposta racional a uma inflação não é acumular mais da moeda que desvaloriza.
Uma palavra aos pais que leram até aqui por cima do ombro, porque sei que são muitos. O maior risco para o vosso filho não é ele arriscar; é ele obedecer ao mapa de 2005 — o curso seguro, a média alta, o mestrado emendado, o estágio na empresa grande — que era o mapa certo para o vosso mundo e é o mapa errado para o dele. O melhor apoio que lhe podem dar não é escolher-lhe o destino: é financiar-lhe as experiências, tolerar-lhe os desvios e aplaudir-lhe as tentativas falhadas, que são a matéria-prima da agência. E uma heresia para o jantar de domingo: o filho que aos vinte anos larga um semestre de médias para construir um projeto com clientes reais está provavelmente a estudar mais — no sentido que vai contar — do que o irmão que decorou os slides todos.
E não esperaria. O erro mais caro da vida universitária é o adiamento em série: começo a escrever quando souber mais, fundo o projeto quando acabar o curso, falo com essa pessoa quando tiver currículo. O curso não é a preparação para a vida; são quatro anos dela, dos mais férteis, com o custo de oportunidade mais baixo que alguma vez terás — sem rendas às costas, sem filhos ao colo, rodeado de gente disponível. Quem espera pelo fim do curso para começar descobre que os que não esperaram levam quatro anos de avanço.
Vale a pena, então?
Depois disto tudo, perguntas se a universidade ainda vale a pena. Vale — mas pelo que sempre valeu de verdade, não pelo que fingia valer. O monopólio da informação morreu: as melhores aulas do mundo estão online e o melhor tutor da história responde-te no telemóvel. O que a universidade ainda tem, e nenhuma máquina oferece, é o resto: quatro anos de tempo protegido para te construíres, problemas difíceis com direito a errar, e — acima de tudo — pessoas: os professores que te mostram o que é a exigência e os colegas com quem vais construir as próximas décadas. Usa-a para isso. E se a tua universidade for das que ainda não perceberam em que século estão, não percas tempo a lamentá-lo: contorna-a com os treze movimentos acima, que nenhum deles pede autorização ao conselho pedagógico.
Deixo-te a conta final, que é a mesma que fiz no primeiro dia em que pensei nesta carta. A IA baixou o preço do habitual para perto de zero — e, ao fazê-lo, subiu como nunca o prémio de tudo o que é próprio: o juízo próprio, a voz própria, a obra própria, o nome próprio. Nunca foi tão mau ser mais um; nunca foi tão bom ser um. Tens dezoito anos, o custo de começar caiu para o chão e os porteiros estão a abandonar as portarias. A minha geração precisou de décadas e de autorizações para fazer metade do que tu podes começar num quarto de residência este semestre.
E há uma vantagem especificamente portuguesa que a minha geração não teve: o mercado deixou de ter morada. A partir de um quarto em Bragança ou em Faro serves clientes em Munique e em São Francisco, com a máquina a traduzir, a documentação aberta e o pagamento a chegar por stripe de sábado à noite. Um país pequeno já não é um teto — é um ponto de partida barato. A condição é uma: inglês a sério, escrito e falado, porque é a língua em que o mundo contrata. Um jovem português com ofício próprio, portefólio público e inglês fluente concorre, pela primeira vez na história, no mesmo mercado que um jovem de Palo Alto — com metade do custo de vida e o dobro da fome.
Sê excêntrico com método, fiável com orgulho, e dono do que fazes. O resto — o mundo radicalmente diferente que te espera à saída — não está escrito em lado nenhum. Vai ser escrito por quem aparecer a escrevê-lo. Aparece.