Quinta-feira, na Sala Oval, ladeado por dois cartazes onde se lia “Making the Great Lakes Even Greater”, Donald Trump assinou uma ordem executiva que muda o nome do Lago Ontário para Lago América. O secretário do Interior tem trinta dias para actualizar o registo federal de nomes geográficos e retirar dos documentos oficiais todas as referências ao nome anterior. Perguntado sobre que mensagem queria enviar a Ottawa, respondeu que não havia mensagem nenhuma. Repetiu a lengalenga de que o Canadá se aproveita dos Estados Unidos há demasiado tempo, primeiro na defesa e agora no comércio, e que quer beneficiar das vantagens de um Estado sem o ser. Não há mensagem nenhuma, portanto. Há um lago que passou a chamar-se América e um vizinho a quem se apresenta a factura por teimar em ser independente. Depois, olhando para os mapas, reparou que já tem um golfo e agora tem um lago. Só lhe falta um oceano. Vida difícil, esta de Trump II.
Eu vivia em Toronto em 2018, quando Doug Ford ganhou a província. A sua ascensão foi meteórica, o apelido, esse, dispensava apresentações. O irmão, Rob Ford, governara a câmara de Toronto como quem vive dentro de um programa de televisão. Negou durante meses consumir crack, acabou por admiti-lo, dizendo que teria sido numa das suas festarolas, viu a assembleia municipal esvaziar-lhe os poderes e tornou-se presença habitual no humor americano. Morreu em 2016, aos quarenta e seis anos. Doug herdou a base, mas mudou o método. Onde Rob era caótico, Doug é deliberadamente agressivo e fez do confronto a sua imagem de marca. Na segunda-feira, numa entrevista de rádio, atacou Trump no registo arruaceiro que o caracteriza. Nessa tarde, em Hamilton, entre outras carícias, chamou-lhe ditador, “bully”, “loser” e rei das falências, e garantiu que tudo está em cima da mesa, incluindo cortar a electricidade e os minerais críticos que o Ontário exporta diariamente para o Minnesota, o Michigan e Nova Iorque. Trump, que também não é nenhum menino de coro, respondeu que Ford é o irmão menos carismático, menos inteligente e impressionante que o falecido e grande Rob Ford. Uma troca de galhardetes em modo troll.
Trabalhei do outro lado da fronteira antes e depois. Cheguei ao Canadá com a ignorância de esperar encontrar um país irmão, e encontrei quase o seu contrário. O Canadá não é uma versão educada da América, é uma construção deliberada contra ela. Temos o “Canadian way”, o “Canadian work ethic”, além de um vocabulário próprio para definir o Canadá pelo que não é: americano. Se tivesse investido mais tempo a ver desenhos animados com os meus filhos, talvez tivesse percebido isto mais cedo. Em Madagáscar 3, quando os chimpanzés, depois de despenharem o avião em França, largam o trabalho, pois em solo europeu a lei laboral só os obriga a trabalhar duas semanas por ano, o Skipper comenta que, afinal, há mais países que partilham a ética de trabalho canadiana. Não há piada mais americana.
E o país que passa a vida a explicar que não é o quinquagésimo primeiro estado comporta-se, com frequência, como se fosse uma província. Teve a BlackBerry, que definiu o telemóvel de uma geração inteira de executivos. Não soube adaptar-se ao que veio depois e teve de se reinventar. O campeão de outrora deixou de fazer o produto e passou a ser o componente do produto dos outros. A BlackBerry vale hoje em bolsa cerca de 4,7 mil milhões de dólares. Para pôr em perspectiva, a Apple vale 4,66 biliões. São quase mil BlackBerry, e mais do dobro do PIB anual de todo o Canadá. Harold Innis, que dirigiu o departamento de Economia Política de Toronto a partir de 1937, passou a carreira a estudar este mecanismo. Começou pelo comércio de peles, em 1930, e chegou em 1940 ao bacalhau, num livro subintitulado História de uma Economia Internacional. Era o bacalhau da Terra Nova, o mesmo que as frotas portuguesas iam buscar. Chamou-lhe a tese dos produtos de base. A sua tese defende que uma economia organizada em torno da exportação de matérias-primas para uma metrópole constrói uma periferia, não um centro. E uma periferia pode ter bandeira, parlamento e hino. O que não consegue facilmente é deixar de viver à sombra da metrópole.
Em 2014, o produto interno bruto por habitante canadiano era 83,1% do americano. Uma década depois, em 2024, tinha recuado para 71,4% e, nesse ano, recuou pela primeira vez desde que há registo para um nível inferior à média da OCDE. O Globe and Mail, o Público deles, resumiu em 2026 a década numa manchete que os canadianos não perdoaram. Do nada, o Canadá ficou mais pobre do que o Alabama. Pouco antes, em Janeiro de 2025, a Economist publicou o argumento de que mais gostamos de ouvir deste lado do charco. Se Washington deixou de ser um parceiro fiável, o Canadá devia largar o sul e olhar para leste. Território imenso e recursos abundantes de um lado, um continente denso e pobre em matérias-primas do outro. Ninguém em Ottawa levou a sugestão a sério, mas Carney meteu mãos à obra. Em Maio deste ano foi o primeiro chefe de governo não europeu a comparecer numa cimeira da Comunidade Política Europeia, em Erevan, onde disse que a ordem internacional será reconstruída a partir da Europa. Porém, dois terços do comércio externo canadiano continuam a fazer-se com os Estados Unidos. Com a União Europeia, não chega a dez: são uns magros oito por cento. E nem o CETA, em vigor há quase uma década, muda muito. Os exportadores europeus usam-no cada vez mais, de 38,7% das exportações elegíveis em 2018 para 63,2% em 2024. Os canadianos usam-no cada vez menos desde 2021. A retórica já chegou à Europa. O comércio, nem por isso.
Em 1926, Fernando Pessoa fundou com o cunhado a Revista de Comércio e Contabilidade e escreveu, nos primeiros artigos, que os americanos, que são quem mais profundamente estuda os problemas técnicos, os expõem muitas vezes com humor e levam esse género de exposição a pontos quase inconcebíveis para nós, europeus, tantas vezes solenemente incompetentes. Pessoa passou grande parte da vida activa como correspondente comercial estrangeiro em casas de importação e exportação de Lisboa. Os canadianos, nesta acepção, são os europeus de Pessoa. O problema do Canadá nunca foi ser bem-educado ou uma reacção à América. Foi ser solene. E a solenidade é muitas vezes a forma cortês de não estudar um problema. De jure, um país soberano que explica todos os dias que não é americano. De facto, uma província que compra e vende quase tudo a um único vizinho e que, em cento e cinquenta e nove anos de existência, nunca articulou uma visão autónoma de si própria. Não é que a pergunta nunca lhe tenha sido feita. Em 1911 e em 1988 o país foi a votos sobre exactamente isto, a relação comercial com o vizinho, e das duas vezes escolheu uma metrópole, primeiro Londres, depois Washington. O que nunca escolheu foi não ter nenhuma. Em 2003 recusou entrar no Iraque, e teve razão. Deixou lá os oficiais que já tinha destacados nas unidades americanas, e um deles acabou vice-comandante de trinta e cinco mil soldados em Bagdade antes de chegar a chefe do estado-maior canadiano. Dez anos depois, Chrétien explicava que fora naquele dia que ficara claro que o Canadá não era o quinquagésimo primeiro estado. Em Janeiro do ano passado, aos noventa e um anos, teve de o explicar outra vez, desta vez a Trump. A autonomia canadiana é isto. Declara-se, não se exerce. Também não é por falta de recursos para a construir. O Canadá é um país rico em petróleo, gás, urânio, electricidade, água e terra. Passou, porém, quinze anos a montar um sistema regulatório que dificulta a sua chegada aos portos. O projecto de lei C-69 ficou conhecido em Alberta como a “lei do fim dos oleodutos“. Na educação, o mesmo paradoxo. Em Janeiro de 2024, Ottawa impôs um tecto ao número de estudantes internacionais, prevendo uma redução de 35% nas novas autorizações de estudo. Num país que precisa de talento e tem uma academia capaz de o acolher, fechou-se precisamente uma das portas por onde esse talento podia entrar. Tem-se tudo e não se decide nada.
Na sexta-feira, Trump anunciou o maior negócio de petróleo da história: controlo maioritário americano sobre 65 mil milhões de barris de reservas provadas na Venezuela, dezassete campos, cem mil milhões de dólares de investimento. Negociou-o a milhares de quilómetros de distância, num país que produz pouco mais de um milhão de barris por dia, tendo ao lado um aliado de tratado com a terceira maior reserva provada do mundo. Com esse não precisou de negociar nada. O petróleo canadiano já desce para sul, com desconto e sem alternativa. Rebaptizar o lago é entretenimento. A energia já estava tratada.
Nas eleições americanas de 2024, quando Trump lançou a ideia de que o Canadá devia fazer parte da federação, os conservadores de Pierre Poilievre tinham vinte e cinco pontos de vantagem nas sondagens e o governo liberal, depois de Trudeau, um dos líderes mais fracos que vi governar um país onde vivi, estava enterrado. E a fasquia não estava propriamente alta: vivo no Reino Unido e tenho Starmer como termo de comparação. Cinco meses depois, Carney ganhava a eleição de 28 de Abril de 2025 e Poilievre perdia o próprio círculo de Carleton, que ocupava desde 2004. Poilievre teve outros problemas naquela campanha. Mas nenhum trabalhou tanto para os liberais como Trump e a sua boçalidade. Até as eleições canadianas são, em boa medida, uma reacção à política americana. O que devia ser uma escolha sobre o futuro do Canadá tornou-se uma escolha sobre como responder a Washington. E o mesmo choque produz efeitos opostos conforme a província. No Ontário, as tarifas fizeram de Ford um Capitão Canadá de boné azul-escuro, com a inscrição “Canada is not for sale”. Em Alberta, empurram na direcção contrária, porque ali o inimigo declarado nunca foi Washington, mas Ottawa e a regulação que impede o petróleo de chegar ao mar. A 19 de Outubro, Alberta vota num referendo de dez perguntas. A décima pergunta é se Alberta deve continuar a ser uma província do Canadá ou se o governo deve iniciar o processo legal para um referendo vinculativo sobre a separação. Não é folclore. É a província que produz o petróleo a pôr em causa a sua permanência no país, no meio de uma guerra comercial, com um primeiro-ministro que precisa dela para quase tudo o que anunciou. Danielle Smith desenhou a consulta para conter o movimento e acabou refém dela, como Cameron com o Brexit. Cinquenta e oito por cento dos albertanos desaprovam a forma como tem tratado a questão. A separação não vai acontecer e, esta semana, 61% dizem preferir que Alberta continue no Canadá. O ponto é que nada disto foi decidido em Ottawa. Cada movimento dos últimos dezoito meses, da eleição ao referendo, das tarifas aos oleodutos, é resposta a uma decisão tomada em Washington.
Trump queria fazer do Canadá uma província americana. Pode acabar por entrar na história como o homem que lhe ensinou a comportar-se como um país. Ford é o pitbull. Carney é o político, e está a decidir porque Washington decidiu por ele. O oleoduto de Alberta até à costa da Colúmbia Britânica, que quinze anos de política canadiana não conseguiram tirar do papel, tem agora memorando assinado em Novembro, acordo de execução em Maio e candidatura entregue ao Major Projects Office a 2 de Julho. A designação como projecto de interesse nacional está marcada para 1 de Outubro. Dezoito dias antes de Alberta votar sobre se quer continuar no Canadá. Pequim agradece. O petróleo que chegar à costa não vai para o Midwest. Vai para os mercados asiáticos, onde a China é o comprador que conta.
Sobra o lago. De um lado, quem o rebaptizou. Do outro, um premier provincial com conversa para inglês ver e um primeiro-ministro a construir um oleoduto que não teria construído se Trump se tivesse calado. Em Alice no País das Maravilhas, Alice pergunta ao Gato que caminho deve tomar. O Gato responde que depende de para onde ela queira ir. Alice diz que tanto lhe faz. Então tanto faz o caminho. Em 1911, o Canadá escolheu Londres. Em 1988, escolheu Washington. Desta vez ninguém lhe perguntou nada, e a metrópole é que mudou de oceano.