O filme protagonizado por Demi Moore dispensaria facilmente a última meia hora. É verdade que perderíamos o grotesco da parte final (ou seja, não perderíamos muito), mas o argumento filosófico sairia reforçado. Lançado em 2024, A Substância explora um tema muito popular no mundo de Hollywood: de como a idade e a passagem do tempo significam, para a mulher, a perda de valor. A teoria evolutiva permite compreender por que razão tal acontece, mas nem sempre a compreensão da realidade facilita a aceitação da realidade, e é por essa razão que a protagonista do filme decide tomar uma substância para gerar uma nova e melhorada versão de si mesma.
Trata-se de um tema específico do mundo do espetáculo. O problema é que hoje parecemos viver todos num mundo de espetáculo: no mundo digital, no mundo das redes sociais, a imagem torna-se o principal foco da nossa preocupação e todos queremos estar bem – o que significa, na verdade, aparecer bem. É, assim, surpreendente que se multipliquem os espaços de harmonização facial?
O nome é delicioso, prometendo harmonizar e não “corrigir” ou “melhorar”, o que poderia ter impacto na autoestima – embora harmonizar signifique exatamente corrigir e melhorar, ao mesmo tempo que promete, com o sabor melífluo das promessas falsas, voltar atrás no tempo. Mulheres (e homens) procuram esconder rugas, desenhar novas linhas labiais, aumentar a textura dos lábios, numa obsessão paranoica que toca até as meninas mais novas.
O filme A substância é, nessa medida, típico dos nossos tempos: desta obsessão por parar a velhice da mesma forma que tantos tentam parar a puberdade. E com substâncias que repetem a lógica que Ted Kaczynski identificou em todas as inovações tecnológicas: a tecnologia promete sempre liberdade; na verdade, torna-se sempre dependência. E é por isso que “a substância” nunca pode acabar: se a deixarmos de tomar, a natureza regressa.
Estes são os nossos tempos. Sentimo-nos até ofendidos pelo facto de a natureza exercer sobre nós este poder, como se a sociedade, Deus, a própria natureza nos devesse alguma coisa: a felicidade total, a identidade perfeita, a satisfação de todos os desejos. Afinal, é tudo isso que a tecnologia promete: um comprimido para emagrecer, hormonas para eliminar pelos ou redesenhar curvas, mil intervenções cirúrgicas que nos garantam que o corpo está sob o nosso controlo. Durante milhares de anos, os seres humanos praticaram a arte da aceitação: não havia outra hipótese, pelo que procuravam consolo nas ferramentas espirituais que as religiões ofereciam. Hoje exigimos que o mundo nos dê aquilo que desejamos.
O livro de Jan Morris, Conundrum: história da minha mudança de sexo, publicado em 1974, é disso um bom exemplo, retratando não só o desejo pessoal de transformar o corpo, como também o modo como o século XX nos conduziu a reconsiderar a questão da identidade. Afinal, se os meios técnicos e tecnológicos parecem dissolver as fronteiras do natural e do possível, como não haveria isso de ter impacto no entendimento sobre a identidade? Se nos podemos sentir melhor recorrendo à substância, por que não o fazer?
Precedendo em cinco décadas os livros de Belle Burden e Édouard Louis que sugeri nas últimas semanas, o livro de Morris parece assim inaugurar a tradição literária dos nossos tempos: esta contínua reflexão sobre o “eu” que tem tornado a literatura no terreno permanente do impulso autobiográfico. E se, por vezes, podemos ser tocados pelo sofrimento de Morris, também não conseguimos ignorar esse “self” que, no exercício contínuo de autorrealização, tende a ignorar todos à sua volta.
E é por isso que o texto mais importante de Morris não é o seu Conundrum: é antes o texto que o seu filho Mark Morris escreveu:
“Jan conseguiu, com grande sucesso, transmitir as suas opiniões nos seus escritos de tal forma que estas raramente eram postas em causa. Isso era certamente verdade quando retratava a família feliz e leal, que a apoiou com o seu amor ao longo de toda a sua vida, e que tantos escritores que escreveram sobre ela parecem ter aceitado de forma tão acrítica. A realidade era bastante diferente. Ela era extraordinariamente encantadora com amigos e conhecidos, mas precisava de ser constantemente o centro das atenções e, até certo ponto, de admiração. Empatia mais profunda, compreensão mais profunda, nunca vi nem experimentei — ela era, penso, incapaz de compreender verdadeiramente os sentimentos dos outros e, por isso, parecia preocupar-se pouco com esses sentimentos.”
Eis o efeito boomerang da “era do eu”: podemos projetar com força e até beleza a nossa individualidade, mas quando o disco regressa traz os destroços da dor que provocamos nos outros.
A meio do livro, Morris conta uma fábula africana que o comoveu: trata-se da estória de um caçador pobre a quem foram oferecidas todas as riquezas e a satisfação de todos os desejos com a condição de nunca abrir uma certa porta do palácio. O homem desfrutou durante anos da sua nova condição material, mas acabou por não aguentar a curiosidade e abriu a porta proibida:
“E o que viu? Somente ele próprio, coberto de andrajos, a um canto da divisão, o caçador pobre de há tantos anos.”
E essa é a verdade: por muitas substâncias que tomemos, nunca deixamos de ser o que somos. Criaturas e não deuses.