“O maior negócio de petróleo na história mundial!”. Foi assim que Donald Trump apelidou o acordo feito com a Venezuela para meter mãos no seu petróleo. Anunciado na sexta-feira, pouco se sabe sobre o que ficou efetivamente acordado. Mas Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, já teve de garantir publicamente que o país manterá a propriedade e soberania das suas reservas petrolíferas.
O acordo acontece numa altura em que as reservas estratégicas dos Estados Unidos estão aos níveis mais baixos dos últimos 44 anos.
As reservas estratégicas estão abaixo dos 300 milhões de barris, quando no início do ano estavam nos 415 milhões de barris. Com a incerteza no Estreito de Ormuz a continuar — ainda neste domingo os Estados Unidos lançaram um ataque contra a ilha iraniana de Larak, a primeira investida há mais de um mês — a linha do gráfico tende a baixar ainda mais. Kevin Book, diretor da ClearView Energy Partners, recorda à NPR que o nível está a cerca de metade do volume que tinha quando começou a Guerra na Ucrânia. Mas Joe Biden acabou, depois da guerra da Ucrânia, a vender reservas estratégicas.
Donald Trump garante, agora, que vai “encher” as reservas estratégicas de petróleo, com o acordo feito com a Venezuela.
Segundo indicou na sua rede social, Truth Social, os Estados Unidos terão garantido “o controlo maioritário sobre mais de 65 mil milhões de barris de reservas comprovadas de petróleo na Venezuela, sem qualquer custo para o contribuinte americano. Esta transação histórica mais do que duplica as reservas de petróleo dos EUA, aumenta significativamente a nossa oferta de petróleo e reduzirá substancialmente os preços da gasolina para todos os americanos durante muito tempo, ao mesmo tempo que ajuda a manter a Venezuela numa trajetória rumo a um tremendo sucesso e a uma grande prosperidade”.
O Wall Street Journal conta como isso será feito. O acordo irá transformar o governo de Trump de corretor a investidor direto, não tendo conseguido chamar as petrolíferas norte-americanas a investirem no petróleo venezuelano. Segundo o jornal, a Administração norte-americana terá uma participação financeira numa companhia que ficará por 100 anos com direitos sobre algumas das reservas. O Wall Street Journal reforça que com isto a Administração americana ficará ligada a um governo não eleito, que chegou ao poder depois dos Estados Unidos da América terem retirado Nicolás Maduro do poder.
A companhia, diz ainda o mesmo jornal, será liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt López.
Quem é Alejandro Betancourt?
Alejandro Betancourt é agora o parceiro dos EUA neste acordo para o petróleo. Mas é um empresário controverso. Opera no setor da energia. É através do acesso que tem a 17 campos petrolíferos que fará o acordo com os Estados Unidos, procurando empresas que o ajudem a explorar. Anteriormente os campos tinham ligações a empresas russas e chinesas.
A sua ligação aos governos de Hugo Chávez e até de Nicolás Maduro não é esquecida nos órgãos de comunicação internacionais. É considerado um bolichico (os rapazes bolivarianos), um termo usado na Venezuela para designar empresários com ligações à classe política, que emergiram durante o reinado de Chávez. Tem 46 anos e nos anos de 2010 conseguiu contratos públicos, através da pouco conhecida empresa Derwick Associates, para construir centrais de energia por todo o país. Mais tarde comprou uma companhia ligada aos petróleos, Petrozamora, que operava campos no Lago Maracaibo que se tornaram o principal negócio da North American Blue Energy Partners (NABEP), a principal empresa de Betancourt.
É através da NABEP que a parceria com os EUA acontecerá. A Administração Trump ficará com 35% da empresa, pretendendo garantir a compra de 20% da produção da empresa ao preço de custo. O investimento norte-americano será estruturado através de warrants (instrumentos financeiros) convertíveis em ações, o que estará a ser preparado pelo gabinete de capital estratégico do Pentágono que, diretamente, tem limites estatutários à concretização de negócios desenhados para apoiar os interesses norte-americanos.
A NABEP, sediada no offshore de Barbados, produz cerca de 200 mil barris por dia (há dois anos eram apenas 18 mil), tendo planeado emitir dívida de cinco mil milhões de dólares para conseguir aumentar a produção até ao milhão de barris em cinco anos, noticiou o Wall Street Journal. O New York Times indica que as contas pessoais do empresário venezuelano estão sob investigação há mais de uma década em Zurique, mas não foi formalizada qualquer acusação na Suíça. O Washington Post avançou recentemente que altos quadros da Administração Trump terão tentado intervir nessas investigações, na tentativa de não ser deduzida acusação contra o agora parceiro. O jornal indica que Betancourt tem, na última década, enfrentado investigações em várias geografias, como a Suíça, Espanha e até nos Estados Unidos, de alegada lavagem de dinheiro. Já foi detido duas vezes no Reino Unido. Mas entrou recentemente várias vezes nos Estados Unidos, apesar da investigação iniciada em 2016 a um empréstimo concedido à PDVSA (empresa pública de petróleos da Venezuela) que apanhou nas malhas da justiça o seu primo Francisco Convit. Betancourt foi identificado como conspirador nesse processo mas negou sempre qualquer ilegalidade. Rudy Giuliani, conta o The Washington Post, foi contratado para a sua defesa. Mas nunca foi efetivamente acusado.
Até que com os Estados Unidos a olharem para o petróleo venezuelano, Betancourt entra em campo. Com a vantagem de ter contactos na PDVSA e na Vitol, uma das duas companhias de trading do petróleo da Venezuela licenciadas pelos Estados Unidos para transportarem petróleo na Venezuela pós-Maduro. Além disso tem acesso direto a Delcy Rodríguez.

Venezuela diz que não perdeu a soberania
Delcy Rodríguez, que se mantém no poder desde que Maduro foi retirado do cargo, assumiu o “significativo impacto na revitalização da nossa nação” que o acordo com os EUA terá. Isto porque gerará mais de 200 mil milhões de dólares em receitas de impostos e colocará 100 mil milhões de dólares de investimentos na indústria petrolífera venezuelana, declarou, ao mesmo tempo que garantia que as reservas da Venezuela manter-se-ão propriedade e soberania do país. “Os benefícios são tremendos”, declarou a presidente interina, numa mensagem emitida pela televisão.
“Como todos sabem, o nosso país tem as maiores reservas petrolíferas do mundo. Mas ter reservas debaixo do solo não é suficiente. Precisamos de investimento, tecnologia, infraestrutura e capacidade produtiva para converter esta riqueza em bem-estar para o nosso povo”.
No entanto, conforme tem sido referido por especialistas, qualquer nova produção na Venezuela levará anos a materializar-se. E, por conseguinte, o impacto nos preços de forma imediata será reduzido. Aliás, o petróleo, depois do ataque dos EUA ao Irão, voltou a passar os 90 dólares nos mercados asiáticos.
https://observador.pt/especiais/relancar-o-petroleo-na-venezuela-vai-custar-muito-demorar-anos-e-e-de-alto-risco-oito-respostas-sobre-o-que-esta-em-causa/
Ainda assim, segundo noticiou o New York Times, a Chevron, a segunda maior petrolífera norte-americana, está em negociações avançadas para expandir a sua produção na Venezuela, aumentando a esfera de influência da Administração Trump.
As reservas estimadas da Venezuela são de 300 mil milhões de barris, o que corresponde a uma fatia de 20% das reservas provadas a nível mundial, ultrapassando os mega-produtores do Médio Oriente — Arábia Saudita e Irão. Mas não consegue entrar no top 10 dos maiores exportadores nem produtores. A Venezuela produziu menos de 900 mil barris diários, menos de 1% da atual produção mundial. David Oxley, economista na Capital Economics, citado pela AP, alerta, no entanto, que o montante de reservas na Venezuela pode ter sido empolado pela presidência de Chávez. O mesmo especialista considera, no entanto, que este acordo poderá garantir petróleo para voltar a carregar nas reservas estratégicas dos EUA, mas também permitirá reduzir a dependência de crude do México e do Canadá, com quem tem travado algumas batalhas.