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Montenegro ignora Ventura e tenta virar a página na Educação (que é mais importante que caso Neves)

Primeiro-ministro anunciou novo regime de autonomia das escolas e nova universidade. Estratégia é ignorar ameaça do Chega e mostrar que trabalho continua (mesmo que mudanças prejudiquem Governo).

Rui Pedro Antunes
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Luís Montenegro tinha uma missão: começar a sarar feridas abertas com a comunidade escolar e desvalorizar a ameaça de moção de censura de André Ventura. O primeiro-ministro chegou à Universidade de Verão do PSD este domingo em Castelo de Vide com a convicção — assente em dados e não perceções — de que a crise nos exames danificou mais a imagem do Executivo do que outras polémicas (como o caso Luís Neves) e aproveitou para fazer vários anúncios para virar a página: um novo regime de autonomia das escolas (que valoriza os diretores), valorização dos reitores dos politécnicos e uma nova universidade (de Bragança e do Norte Interior). Muitas medidas para marcar diferenças para o “imobilismo” do Governo Costa.

Para continuar a fazer as pazes com o importante target eleitoral que é o universo escolar (dos professores às famílias dos alunos), o primeiro-ministro — que no passado lamentou algumas resistências — focou-se agora apenas num pedido de desculpas: “Reconhecemos que este processo não correu bem e lamentamos a perturbação que aconteceu durante algum tempo”. E agradeceu o trabalho de todos os envolvidos na avaliação: “Diretores, professores, alunos, toda a comunidade escolar”. Mas também avisou: mantém a “determinação e convicção de que o caminho era o caminho correto”.

Montenegro tentou também combater a desconfiança que persiste sobre o que se passou na primeira fase dos exames. E explicou que as reformas envolvem risco. E erros. A ideia é afastar a ideia de “imobilismo”, que tem provocado críticas permanentes de figuras como Miguel Relvas ou Passos Coelho: “Não somos daqueles que não decidem para se protegerem. Os que não decidem, nunca erram. Podemos não acertar sempre, mas quase sempre.” Aproveitou, por exemplo, o novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, que diz que estava na gaveta com António Costa, para acusar o anterior Governo de nada fazer para não provocar ondas para dar uma “certa ilusão de bem-estar” coletivo. E atirou: “Mais uma que estava na gaveta [no Governo de Costa]. As gavetas estavam cheias por falta de coragem”.

O primeiro-ministro elencou ainda mais medidas e resultados no setor para contrariar a ideia de que o Governo está parado: “Os 91.438 professores já progrediram na carreira, num processo que estará concluído em julho de 2027 e representa um investimento anual de 300 milhões; mais de 70 milhões de euros em trabalho suplementar”, pelo recurso a horas extraordinárias; os 9 mil professores já beneficiaram de apoio à deslocação; e a intenção de mudar o Estatuto da Carreira Docente.”

Ao falar de Educação e planos a médio prazo, Montenegro também começou a trabalhar noutra ideia que queria passar: o Governo vai continuar. O Luís vai continuar a trabalhar. Ou como disse, soletrando a meio da semana aos mesmos alunos, “Tra-ba-lhar”. Quando anuncia que vai introduzir a digitalização e a Inteligência Artificial nos planos curriculares a partir de 2027/2028, ignora que o Governo vai, provavelmente, enfrentar uma nova moção de censura.

Ignorar o ultimato e ameaça de censura de Ventura

A ordem no Governo é silêncio. Ignorar por completo a ameaça do líder do Chega. As poucas palavras que saíram sobre o assunto foram arrancadas ao porta-voz do partido na sexta-feira, quando Sebastião Bugalho disse que uma ameaça de censura não fragilizava o Governo.

Montenegro revelava, no final do discurso, que não falava desses assuntos de forma propositada, lembrando que tinha o direito de não sair das baias que definiu, de falar só de educação. “Eu já sei que muitos vão dizer, mal acabe de falar, que eu não falei do caso A, da situação B ou da oposição C. Até prevejo que muitos dirão que fugi de falar disto ou daquilo. Podem dizer o que quiserem, isso é democracia, mas eu também disse o que quis, e isso também é democracia‘”, lembrou.

Sobre a moção de censura, o Governo continua tranquilo com a certeza de que o PS não quer, neste momento, desencadear uma crise política. Luís Montenegro, quando estava na oposição, tinha a leitura (que chegou a verbalizar) de que quando se debate uma moção de censura que já se sabe à partida que será chumbada, isso acaba por ser uma ajuda ao Governo em funções. Certo é que o primeiro-ministro não cederá ao ultimato de André Ventura.