(c) 2023 am|dev

(A) :: Afinal, havia um Mas. E o eterno segundo reforçou o primeiro lugar: Enric Mas vence no Alto de Aitana e fica mais líder

Afinal, havia um Mas. E o eterno segundo reforçou o primeiro lugar: Enric Mas vence no Alto de Aitana e fica mais líder

No dia 1 do pós-Pogacar na Vuelta, entre nova desistência na Emirates (Pablo Torres), fuga de Sivakov caiu no final e Enric Mas foi o mais forte na chegada ao Alto de Aitana e ganhou tempo a todos.

Bruno Roseiro
text

Algumas horas depois do choque, uma imagem que contava mais do que 1.000 palavras. Numa cama do hospital, tentando não perder a boa disposição que o caracteriza em qualquer circunstância, Tadej Pogacar surgia numa imagem com um enorme penso no lado direito da cara e um colar cervical branco que lhe dava margem para pouco mais do que fazer uma expressão de quem sabe que vai voltar melhor. Quando? Isso é que ninguém sabe. Para já, sobra apenas o Stayin Alive dos Bee Gees que colocou na publicação na manhã deste domingo, após uma queda que mudou muito no ciclismo internacional até ao final da época.

https://twitter.com/diarioas/status/2093988129371799896

Recuperando o filme, tudo parecia apenas um pesadelo. Quando estava a beber água no meio do pelotão, tendo apenas uma mão no guiador, a roda da frente da bicicleta do esloveno terá passado por cima da pedra e levou-o ao chão com toda a força, sem tempo para colocar as mãos no asfalto para evitar males maiores. Com a cara cheia de sangue e escoriações em todas as partes do lado direito do corpo, ainda tentou reerguer-se como o campeão que é passando ao lado do vermelho do sangue que se confundia com a camisola de líder da Volta a Espanha mas não dava. “Não consigo, não consigo”, dizia, agarrado ao braço. Mais do que ninguém, ele sabia que algo não estava bem e que não valia a pena forçar para evitar o inevitável – o adeus.

https://twitter.com/teledeporte/status/2093718876940820742

https://twitter.com/teledeporte/status/2093724700782289249

Olhando para a parte desportiva, a Vuelta passava a ter uma história como há muito não se via, com vários candidatos à vitória numa prova que não tinha Jonas Vingegaard e Remco Evenepoel e deixava também de ter um dos melhores de todos os tempos, Tadej Pogacar. No entanto, também aqui foi possível ver aquela que é a grandiosidade do campeão mundial: Enric Mas, que passou a liderar a corrida, não quis usar a camisola vermelha no pódio por respeito ao esloveno; Wout van Aert, da “adversária” Visma-Lease a Bike, estava devastado com o acidente poucos dias depois de uma imagem em que se viu o corredor a brincar com o filho do belga, dando-lhe os óculos e uma garrafa de água; a equipa da UAE Emirates, que soube ao certo do que se passava vendo telemóveis de adeptos na estrada, foi quase em marcha fúnebre até à meta.

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2093794525302997259

https://twitter.com/TeamEmiratesUAE/status/2093741019179188594

“É uma queda que ocorre no ciclismo. Ele estava a beber água e sofreu uma queda. Ele queria continuar mas vimos que o ombro estava muito afetado. Decidimos que não podia continuar. Tinha de levar pontos no sobrolho. A ferida não era grande, mas estava a sangrar bastante. Ainda é complicado assimilar tudo isto”, comentava Matxín Fernández, diretor desportivo da Emirates. “O Tadej sofreu uma queda aparatosa durante a etapa e não pôde continuar em prova. Encontra-se estável e, após avaliação médica detalhada no hospital, foi diagnosticado com uma concussão, uma fratura com desvio na clavícula esquerda, uma fratura estável na vértebra cervical C7 e múltiplas escoriações. Não há outras lesões graves nem sequelas neurológicas. Terá de ser submetido a uma cirurgia à clavícula, intervenção que será adiada devido às precauções associadas à concussão”, esclareceu, depois de todas as observações, o responsável médico da equipa, Adrian Rotunno.

https://observador.pt/2026/08/29/tera-de-ser-submetido-a-uma-cirurgia-a-clavicula-que-sera-adiada-devido-a-concussao-pogacar-tem-mundiais-e-resto-da-epoca-em-risco/

Mais do que a possibilidade de conquistar a única Grande Volta que ainda lhe falta no currículo, num dos raros objetivos que ainda não alcançou apesar de ter apenas 27 anos, chegava também ao fim um registo que não ficava em nada atrás e que mostra bem o que é Pogacar no pelotão internacional: desde a sua primeira temporada como júnior, ainda em 2015, o esloveno fez 46 corridas reconhecidas pela UCI, acumulou 376 dias de competição e conseguiu sempre terminar todas as provas… até esta Vuelta, que voltou a mostrar que o mínimo pormenor, por mais caricato que seja, pode ser fatídico para as aspirações de um corredor.

https://twitter.com/daniellloyd1/status/2093755601386184945

Tudo parecia agora secundário, com a vitória de Bryan Coquard (Cofidis) ao sprint frente a Mads Pedersen (Lidl-Trek) e Jordi Meeus (Red Bull-Bora) na oitava etapa a passar ao lado de tudo – até porque o grande favorito a novo triunfo na tirada, o britânico Matthew Brennan da Visma, acabou por ser afetado por mais uma queda aparatosa já na zona final de preparação para o sprint. Era altura de serenar, de rever todas as estratégias, de perceber o que havia a partir de agora para fazer – e, já agora, para recordar que todos os pormenores contam, especialmente numa Grande Volta com os melhores corredores internacionais. Horas depois, era hora de pensar nas múltiplas etapas que se seguem… a começar por uma das mais difíceis.

https://observador.pt/2026/08/29/o-dia-mais-aborrecido-tambem-e-capaz-de-mexer-com-uma-vuelta-e-de-que-maneira-pogacar-despede-se-da-vuelta-apos-queda-aparatosa/

Os jornais espanhóis falavam de uma “etapa selvagem”, tendo em conta que começava logo no início com uma passagem pelo Alto de Tárbena com uma segunda categoria, tinha a temida passagem por Miserat e pelas suas “rampas infernais” com mais de cinco quilómetros a 10%, mais duas segundas categorias e uma terceira categoria na altura que deveria ser apenas para gerir e respirar e um final de novo a subir com uma primeira categoria no Alto de Aitana, com 22 quilómetros a 5,8%. Tudo numa distância de 187,4 quilómetros que antecedia um dia de descanso que seria fulcral para todas as equipas reverem os seus objetivos.

https://twitter.com/lavuelta/status/2093964594490364027

Exemplo prático? A Emirates, com uma frase que diz muito sobre o que se pode esperar daqui para a frente: “Estamos jodidos porque era uma Vuelta para ganhar. Agora, fechou-se a porta do melhor ciclista do mundo mas vai abrir-se a porta da melhor equipa do mundo”, dizia Matxín Fernández antes da etapa. Se até a formação de Pogacar encontrava motivos para continuar a ganhar, o que dizer da Movistar (Enric Mas), da Red Bull-Bora (Primoz Roglic), da Decathlon (Felix Gall), da Visma (Sepp Kuss), da INEOS (Oscar Onley), da EF Education (Richard Carapaz) ou da própria Lidl-Trek (Mattias Skjelmose)? Tudo estava em aberto e com uma notícia que, no contexto atual, tinha ainda mais interesse: o L’Équipe escrevia que Pogacar deve ser transportado este domingo para Barcelona, para ser operado esta segunda-feira e começar a recuperação.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094036395450941855

As mexidas na corrida, essas, começaram bem cedo. Com grande influência de Alexey Lutsenko (NSN Cycling), não demorou a formar-se um grupo na frente com alguns nomes de peso, casos de Pavel Sivakov (Emirates), Fabian Weiss (Tudor), Andreas Kron (Uno-X), Alessandro Romele (Astana) e Alastair Mackellar (EF Education), entre as tentativas de outras figuras como Domen Novak, Tobias Halland Johannessen, Magnus Cort ou Jesús Herrada. Weiss acabou por quebrar nas subidas iniciais mas Santiago Buitrago quis também chegar-se à frente para colocar a Bahrain na fuga numa fase em que voltavam as más notícias para a Emirates: Pablo Torres não aguentou e abandonou a prova, Jay Vine também não “colou” na fuga.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094014533727571970

https://twitter.com/lavuelta/status/2094023232068239670

Passadas as primeiras (grandes) dificuldades do dia, havia uma fuga consolidada mas com 15 e não apenas cinco corredores: Finn Fisher-Black (Red Bull-Bora), Pavel Sivakov, Kevin Vermaeke (Emirates), Bruno Armirail (Visma), Embret Svestad-Bardseng (Ineos), Santiago Buitrago (Bahrain), Ramses Debruyne (Alpecin), Alexey Lutsenko (NSN Cycling), Valentin Paret-Peintre (Soudal Quick-Step), Andreas Kron (Uno-X), Alastair Mackellar (EF Education), Stefan Küng (Tudor), Alessandro Romele (Astana), Gijs Leemreize (Picnic) e Urko Berrade (Kern Pharma), que chegaram a 120 quilómetros da meta com um avanço superior a 3.30 minutos de um pelotão controlado pela Movistar havendo ainda um grupo intermédio a 1.15 com mais de uma dezena de corredores como Gianni Vermeersch (Red Bull-Bora), Raúl García Pierna (Movistar), Attila Valter (Bahrain), Filippo Zana (Soudal Quick-Step) ou Magnus Cort (Uno-X).

https://twitter.com/lavuelta/status/2094027320218484784

O movimento de Buitrago conseguiu alcançar o objetivo paralelo que tinha: ao passar em primeiro no Puerto de El Miserat, o colombiano ascendeu à liderança da camisola da montanha, numa fase em que o pelotão ia começando a controlar a desvantagem para consolidar-se nos três minutos de atraso. Com essa disputa pelos pontos ultrapassada, voltava alguma “normalidade” à estrada, com fuga e pelotão com posições cada vez mais consolidadas num pacto de “não agressão” tendo em conta as distâncias para a liderança dos corredores que seguiam na frente, o que até permitiu que os elementos da frente chegassem a mais de 4.30 de avanço. Havia outra justificação óbvia: com a Emirates sem Pogacar, com Pablo Torres a desistir e Jay Vine longe do momento que atravessou no ano passado, não havia nenhuma equipa capaz de controlar de outra forma.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094038098141143206

https://twitter.com/lavuelta/status/2094041418914300361

O pelotão geria, o grupo que ia a meio acelerava e a fuga passava a ter o inusitado número de 24 elementos, com Gianni Vermeersch, Finn Fisher-Black (Red Bull-Bora), Pavel Sivakov, Kevin Vermaeke (Emirates), Bruno Armirail (Visma), Walter Calzoni, Marcel Camprubí, Milan Vader (Pinarello-Q36.5), Attila Valter (Bahrain), Embret Svestad-Bardseng (Ineos), Santiago Buitrago (Bahrain), Ramses Debruyne (Alpecin), Alexey Lutsenko, Pau Martí (NSN Cycling), Valentin Paret-Peintre (Soudal Quick-Step), Andreas Kron, Magnus Cort (Uno-X), Stefan Küng (Tudor), Alessandro Romele (Astana), Gijs Leemreize (Picnic), Urko Berrade (Kern Pharma), Raúl García Pierna (Movistar) e José Manuel Díaz Gallego (Burgos). Com quase cinco minutos de avanço, estavam reunidas as condições para sair desse grupo a vitória na etapa.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094050909370143171

https://twitter.com/lavuelta/status/2094052678733013294

https://twitter.com/lavuelta/status/2094054499031617756

Chegava mais um ponto a subir, neste caso o Puerto de Tudons com sete quilómetros a um desnível médio de 5,3%, sem que existisse uma tendência definida entre o grupo da frente. Mais atrás, no pelotão, estudo e mais estudo não apenas para a etapa mas para o que poderá seguir-se nas próximas duas semanas. Entre essa luta pela geral, havia um vencedor antecipado do dia: Santiago Buitrago, que voltou a ir buscar pontos máximos em nova passagem para a classificação da montanha. Era aí que surgia também a notícia de mais um atleta a abandonar a corrida, neste caso o monegasco Victor Langellotti, da Astana, antes dos primeiros ataques na frente, com Romele a vir para a frente tendo depois Sivakov e Camprubí a conseguirem aguentar. Os corredores que não foram mas não quebraram formaram depois outro grupo a rodar a 40 segundos.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094060412228563295

https://twitter.com/lavuelta/status/2094063939810209983

https://twitter.com/lavuelta/status/2094069322163314736

Romele começava a pagar a fatura na frente deixando Cambrupí e Sivakov mais sós na frente, formava-se um segundo grupo na perseguição que levava 1.30 minutos de desvantagem levando Buitrago, Valentin Paret-Peintre, Zana, Milan Vader e Lutsenko (que acabaria pouco depois por ceder), o pelotão começava a mexer mais a sério colocando a diferença para a dupla na liderança em 3.30 minutos mas com mexidas que podiam ser importantes nos apoios a todos os que estavam na frente na classificação geral e que colocavam essa diferença cada vez mais reduzida para 2.30 a dez quilómetros da meta, quando Cambrupí e Sivakov estavam a chegar à fase mais complicada da subida com os termómetros cada vez mais quentes.

https://twitter.com/lavuelta/status/2094070887838536004

https://twitter.com/lavuelta/status/2094073516131778565

A Emirates esteve apostada em chegar a uma vitória que fosse dedicada a Pogacar, que ia recebendo várias mensagens de apoio dos milhares de adeptos nas estradas, e Sivakov começava a atacar Camprubí para criar maior desgaste antes da fuga para um potencial triunfo (que seria o primeiro em Grandes Voltas). O que atrapalhava as contas? O ritmo frenético do pelotão, que ia deixando vários elementos para trás na contagem de espingardas na luta pela geral. De forma quase natural, bastava cair a primeira peça para esse sonho de Sivakov esfumar-se e, quando Felix Gall atacou, esse triunfo para o esloveno acabou logo por ruir.

Enric Mas, Primoz Roglic, Richard Carapaz e Oscar Onley conseguiram agarrar o ataque de Gall, apenas Sepp Kuss ficou para trás entre os principais favoritos além de Mattias Skjelmose. A vantagem estava ganha, quase toda a história estava ainda por contar: Carapaz lançou-se depois num grande ataque que colocou o corredor colombiano na roda de Sivakov e Buitrago, Onley saltou também do grupo para mexer com a corrida, todos foram de seguida respondendo ao seu ritmo para se juntarem e acabou por ser Buitrago de novo a atacar na frente, sabendo que todos os outros estavam mais a controlar-se do que outra coisa, antes da chegada a partir de trás de Skjelmose e Harold Tejada. Havia, ainda assim, um Mas. O Mas, Enric Mas. E quando o espanhol fez o último ataque, só Onley conseguiu responder mas sem tirar a vitória ao camisola vermelha.

Em atualização