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(A) :: A grande noite de Ms. Lauryn Hill no MEO Kalorama

A grande noite de Ms. Lauryn Hill no MEO Kalorama

A rapper e cantora dissipou todas as dúvidas com um concerto monumental onde se mostrou em grande forma, a celebrar todo um legado e os 30 anos do álbum “The Score”, dos Fugees. 

Ricardo Farinha
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Inês Lacerda
photography

Era um dos concertos mais aguardados do ano, mas também um dos mais imprevisíveis. Com um longo historial de atrasos monumentais, momentos bizarros em palco e versões distantes das canções originais, havia uma aura de apreensão em torno da atuação de Ms. Lauryn Hill na segunda noite desta edição do MEO Kalorama, que decorreu este sábado, 29 de agosto. Mas tudo se dissipou assim que a rainha — figura central do hip hop, R&B e neo-soul — entrou em palco.

Após 15 minutos de um DJ set que serviu de aquecimento — entre o reggae e o hip hop, demonstrando de que cores, aromas e sons era feita esta noite — Lauryn Hill pegou no microfone como se nunca o tivesse largado. Passaram 30 anos desde que os Fugees, o grupo onde militou ao lado de Wyclef Jean e Pras Michel, lançaram The Score, um dos mais emblemáticos álbuns de hip hop da história, que contribuiu em muito para a disseminação do género a nível global. E passaram 28 anos desde que a rapper e cantora se emancipou a solo em The Miseducation of Lauryn Hill, outro disco que definiu uma era e que rapidamente se tornou um clássico.

Entre a desconfiança em relação à indústria musical e a dedicação à maternidade e à família, Lauryn Hill nunca deu seguimento à sua obra-prima. Tem sido nos palcos, porém, com momentos mais ou menos felizes ao longo dos anos, que tem dado sinais de vitalidade. Ao vivo, a artista que este ano celebrou o 51.º aniversário revisita o seu legado através de arranjos distintos, com uma performance poderosa que é muito mais presente do que passado. Aquelas canções não são relíquias de museu, são como peças a (re)criar-se à nossa frente, tal é a força e a urgência com que nos chegam.

Lauryn Hill mostrou-se em grande forma, ágil e enérgica, numa atuação de alta velocidade que eletrizou de imediato o público. Entre a plateia, além das habituais T-shirts, avistaram-se vários discos de vinil de The Score e Miseducation of Lauryn Hill, provas do culto em torno da sua figura, por quem há muito se ansiava um regresso — a sua última presença em Portugal, que foi também a sua estreia, aconteceu no já longínquo ano de 2010 num espetáculo no Terreiro do Paço, no centro de Lisboa.

Uma banda oleada e talentosa, onde se inclui o seu comparsa Wyclef Jean, foi assistindo este verdadeiro portento em palco. Lauryn Hill, uma das melhores rappers e cantoras de sempre, a mostrar todo o seu talento e audácia em faixas como How Many Mics, Zealots, Lost Ones, Ex-Factor ou To Zion. Numa audiência diversa e composta por diferentes gerações, os milhares de fãs no Parque da Bela Vista foram ainda brindados com a icónica If I Ruled The World, faixa de Nas com um refrão memorável de Hill, que também completou o 30.º aniversário em 2026.

Estava anunciado que, além de Wyclef Jean, os filhos mais velhos de Lauryn Hill, Zion e YG Marley, seriam os seus convidados especiais de digressão. Netos de Bob Marley, uma vez que Lauryn Hill casou e constituiu família com um dos filhos da lenda do reggae, Rohan, têm apostado numa música próxima da cultura jamaicana mas que certamente também vai beber ao hip hop e ao cancioneiro afro-americano. No fundo, Zion e YG estão a refletir a própria história da música popular, tendo em conta a influência da cultura soundsystem naquilo que se viria a tornar o hip hop, de Nova Iorque para o mundo mas com raízes ancestrais na Jamaica.

Com o concerto num ritmo elevado, a entrada em cena de Zion Marley para apresentar uma série de temas — mais lentos e descontraídos, com a cadência do reggae — deixou cair momentaneamente a energia. Ao mesmo tempo, é como se Lauryn Hill usasse os filhos para equilibrar o seu próprio concerto, mantendo os altos e baixos necessários para um espetáculo de duas horas. Seguiu-se o seu filho YG, que aposta numa voz mais projetada, de alcance mais profundo, e com um contacto mais direto com a plateia. Ao mesmo tempo, é como se a mãe Hill estivesse a exibir orgulhosamente aquilo que esteve a construir ao longo dos anos, a opção que tomou na vida e que explica a ausência de uma discografia maior. Também por isso, naquilo que é uma raridade para uma artista da sua geração, tem ainda um legado imaculado, uma vez que nunca criou sequelas para os trabalhos e canções que a transformaram num mito.

Lauryn Hill voltou temporariamente ao centro da ação com a célebre Doo Wop (That Thing), partilhada em uníssono com o público. E mais uma vez foi interrompida por um segmento protagonizado por Wyclef Jean, que deu uso ao seu talento para a guitarra (tocando-a inclusive com os dentes, qual Jimi Hendrix) num medley que passou por lugares tão diferentes quanto Maria Maria, Guantanamera e Hips Don’t Lie.

O grande final, naturalmente, e sem ser necessário qualquer encore teatral, estava reservado para os maiores êxitos dos Fugees. Killing Me Softly With His Song foi celebrada e cantada por um Parque da Bela Vista de plenos pulmões, num momento catártico e comovente. Ready Or Not e Fu-Gee-La (mesmo com uns versos atabalhoados antes do infame refrão) selaram a noite com nota máxima, num concerto completo que superou todas as expetativas e deitou por terra todas as dúvidas e inquietudes. Ms. Lauryn Hill foi mesmo a grande rainha da noite, a única posição que merecia ocupar.

Do rap irónico de Vince Staples à estreia morna de Ravyn Lenae

O segundo dia de MEO Kalorama arrancou com performances de Raquel Martins, Femme Falafel, Dry Cleaning, Tyler Ballgame ou Bruno Pernadas. Quase na hora do pôr do sol, as milhares de pessoas que já iam percorrendo o recinto aproximaram-se do Palco Sagres para o concerto soalheiro e caloroso de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago, que vieram apresentar o álbum em trio que lançaram no início do ano.

É um espetáculo de boas vibrações, entre a poesia paulista e a voz terna de Criolo, as harmonias e mensagens sentidas de Dino D’Santiago, o groove nas prodigiosas teclas pernambucanas de Amaro Freitas, e tudo isto com a companhia de uma “banda maravilhosa”, onde se destacou Henrique Albino nos sopros. É um encontro transatlântico de múltiplas confluências: jazz e batuku, funk e soul, hip hop e funaná. As tradições afro-brasileiras, a herança afro-americana e a ancestralidade africana (com Cabo Verde na linha da frente, pois claro) servidas no mesmo prato com toda a naturalidade. Ela é Foda, a primeira música que assinaram como trio, foi um dos momentos altos do alinhamento. Como não poderia deixar de ser quando Criolo teve a generosidade de recuperar canções como Não Existe Amor em SP do seu repertório pessoal.

Daí transitávamos para o outro lado do Parque da Bela Vista e para um reencontro com Vince Staples. Oito anos após a sua estreia em Portugal, no festival Primavera Sound, numa fase muito diferente da sua carreira, o rapper californiano veio apresentar um disco com uma roupagem rock n’ roll intitulado Cry Baby. Inventivo e arrojado, o novo álbum marca um ponto de viragem no som e na abordagem musical de Vince Staples, um rapper que nunca teve medo de arriscar e de desenvolver um registo mais autoral.

Em palco, a performance ganha corpo com o peso e as camadas trazidas pela banda que o rodeia. Mas o centro do espetáculo, que é particularmente coeso e centrado neste novo capítulo, continua a ser a palavra, as suas tiradas irónicas, os temas fulcrais — a violência policial, o racismo sistémico, a manipulação mediática ou a propaganda tecnológica na América — que aborda com o seu sarcasmo ácido. Mesmo que musicalmente não esteja necessariamente no seu momento mais interessante, Vince Staples ousa fazer diferente e proporciona uma atuação divertida e abrasiva pela forma como vai interagindo com o público. “Nós sofremos de muita violência policial na América, qualquer pessoa pode sofrer. Vocês deviam vir visitar”, atira para a audiência. “Se odeiam a América, façam barulho! Eu sabia que tínhamos coisas em comum.”

Se Vince Staples pode ter causado uma estranheza que acabou por ser entranhada por quem assistia, o mesmo talvez não possamos dizer da estreia em Portugal de Ravyn Lenae. Autora de um R&B próximo da pop, embora com diferentes texturas musicais a servir de roupagem, a cantora que acaba de lançar o terceiro álbum, Blue Island, não conseguiu nunca aquecer verdadeiramente o ambiente nem conquistar a multidão à sua frente, como se poderia esperar de um concerto de horário nobre, às 22 horas, no palco principal.

Mesmo com uma performance física, com movimentos de dança frequentes e uma postura bastante expressiva, Ravyn Lenae não conseguiu impressionar com a sua voz e canções. Love Me Not, êxito com enorme difusão no TikTok, foi naturalmente o momento alto da sua atuação; mas não foi suficiente para tornar o saldo positivo no final do espetáculo. Numa era moderna em que abundam os cantores de R&B, de diferentes bagagens e nuances, revela-se importante separar o trigo do joio. A memória da performance que Jorja Smith fez no ano passado no mesmo palco mostra que nem todas as apostas são do mesmo calibre.

Um dos concertos mais esperados para este segundo dia de MEO Kalorama era o dos Black Star, dupla histórica dos rappers Yasiin Bey e Talib Kweli. O cancelamento da atuação levou a que o festival convocasse um dos mais admirados rappers e produtores nacionais, Sam The Kid, que apresentou o seu já conhecido espetáculo com os Orelha Negra e orquestra. A jogar em casa, “desde 1979 a pisar o solo” de Chelas, Samuel Mira levou-nos numa Retrospectiva de um Amor Profundo pela sua discografia, com os melhores momentos dos álbuns Sobre(tudo) e Pratica(mente) e um par de faixas do projeto colaborativo que mantém com Mundo Segundo. Não houve rasgo de inovação, mas soube a comida de conforto, receitas caseiras preparadas com amor, tal e qual o seu hip hop de Quarto Mágico, erguido com samples e memórias familiares, a apresentar-se mais uma vez em casa, Chelas, o sítio, o berço.

O MEO Kalorama termina este domingo, 30 de agosto, com concertos de Deftones, Clipse, Turnstile, Freddie Gibbs + The Alchemist, Peaches, Wednesday, O Ghettão, High Vis e tantos outros no Parque da Bela Vista.