Durante trinta anos ensinaram-nos a separar o lixo, a tirar as tampas e a espalmar as garrafas para ocuparem menos espaço no ecoponto amarelo. Agora o novo sistema pede exatamente o contrário: entregar garrafas inteiras, sem as esmagar, com o código de barras bem legível, numa máquina que pode ficar longe de casa, depois de décadas a treinar um comportamento, pedimos ao país para o desaprender em poucos meses.
Há coisas que já estão a correr menos bem, e isso nota-se sobretudo no jogo de cintura típico da cultura portuguesa. Há marcas de água a vender agora em garrafas de 3,1 litros, uma décima de litro acima do limite que ativa a taxa. Há restaurantes a voltar ao vidro só para não lidar com a logística do novo sistema. Não se trata de falta de educação ambiental, é o “nosso” desenrascanço puro – perante uma regra que não encaixa, aparece sempre quem lhe dê a volta.
Convém dizer isto com clareza antes de qualquer crítica: o objetivo ambiental está certo e a evidência europeia confirma a eficácia dos sistemas de depósito. A diretiva comunitária fixou uma meta de recolha seletiva de garrafas de plástico de 77% até 2025 e de 90% até 2029. Segundo um relatório da Comissão Europeia publicado em abril de 2026, 12 dos 26 países que apresentaram dados já ultrapassavam os 77% em 2022, dez dos quais Estados-Membros da União Europeia. Dez desses 12 países tinham sistemas de depósito. Entre os Estados-Membros, seis já superavam os 90%, embora nem todos dispusessem, nessa altura, de um sistema de depósito.
O instrumento funciona, aliás, o problema nunca foi este. A questão é confundir a eficácia de um instrumento com a qualidade da sua implementação em Portugal.
A Alemanha introduziu o depósito em 2003 sobre um sistema dual e uma rede de contentores amarelos que já existia. A Áustria, o paralelo mais próximo do nosso, introduziu-o em janeiro de 2025 depois de já recolher cerca de 70% das garrafas PET pelo sistema anterior, e ainda assim precisou de um ano inteiro de adaptação para chegar aos 81,5%. O mesmo padrão repete-se na Suécia, na Noruega e na Finlândia: o depósito cresceu sempre sobre décadas de infraestrutura e hábito que já existiam. Nenhum destes países importou uma solução do zero.
Portugal tinha uma rede generalizada de ecopontos e trinta anos de hábitos de separação. Não é o mesmo que cumprir a meta específica das garrafas de bebidas, e a Agência Portuguesa do Ambiente tinha razão ao identificar o potencial do depósito para isso. O que falhou não foi a decisão de avançar, mas a forma como se avançou sem integrar o que já funcionava.
Há também quem saia a perder sem ter feito nada de errado, e esses custos não aparecem em nenhum indicador principal. Agora somos todos operadores logísticos, esquecendo quem tem mobilidade reduzida ou vive longe de um ponto de recolha paga a mesma taxa que todos, mas raramente a recupera, o que na prática torna o produto mais caro só para quem já tem menos capacidade de se deslocar. Quem gere um pequeno espaço de restauração ou retalho tem agora de armazenar e encaminhar embalagens que antes seguiam direto para o contentor amarelo, com necessidades adicionais de espaço e logística cujo impacto real só agora começamos a perceber. No fim, os custos operacionais desta mudança acabaram transferidos para retalhistas, municípios, restauração e famílias, não para quem desenhou o sistema.
O Volta não demonstra que Portugal não sabe reciclar, mas lembra que não basta importar uma solução com bons resultados noutros países. É preciso compreender o percurso histórico de cada um, testar os efeitos secundários antes de generalizar, e desenhar a mudança a partir da vida real de quem vai executá-la todos os dias, não a partir do relatório que a vai justificar.
Isto não é exclusivo de políticas públicas, aliás, nas empresas o erro é idêntico e recorrente. Uma decisão pode melhorar o indicador principal e, ao mesmo tempo, piorar a experiência de quem já fazia bem o seu trabalho. Pode transferir custos e complexidade para equipas, parceiros ou clientes sem que isso apareça em nenhum relatório de gestão, e se uma regra não encaixa na vida real de quem a cumpre, alguém vai sempre encontrar forma de lhe dar a volta, dentro ou fora da empresa. Uma liderança responsável mede resultados, identifica efeitos secundários e corrige depressa, sem abandonar o objetivo por causa dos erros de execução.
É esse o sentido em que o título se mantém. Voltar atrás não pode significar abandonar o depósito, porque a evidência europeia é clara sobre o que funciona. Neste caso, voltar atrás significa regressar à fase de desenho, ouvir quem lida com o sistema todos os dias (retalhista, restaurante, município, consumidor com menos capacidade de adaptação) e corrigir o que está mal antes que o desgaste acabe por comprometer um objetivo que é, esse sim, inquestionável.
Não deixar ninguém para trás não é só uma preocupação social, mas a condição para que a mudança pegue. Enquanto continuarmos a desenhar sistemas a pensar em quem os escreve e não em quem lhes vai ter de dar a volta, vai continuar a haver sempre uma garrafa de 3,1 litros à espera de nascer, porque, se uma política ambiental leva consumidores e empresas a procurar formas de contornar o sistema, talvez devamos perguntar se o problema está nas pessoas ou no desenho dos incentivos.