Dizem-lhe que faz da geração mais qualificada de sempre. E ele acredita. Tem uma licenciatura, uma pós-graduação, três certificados de cursos online, inglês suficientemente bom para escrever proficient no LinkedIn e um conjunto apreciável de competências transversais cuja utilidade concreta não ainda teve oportunidade de testar.
Tem vinte e poucos anos e anda à procura emprego. Ou, como se diz agora, à procura de “uma oportunidade”. A verdade é que emprego parece uma palavra demasiado definitiva para um mercado de trabalho onde quase tudo começa por seis meses, pode ter a sorte de conhecer outros seis e, se tudo correr particularmente bem, termina com um agradecimento pelo contributo e votos sinceros de sucesso nos “novos desafios”. Sim, oportunidade é muito mais adequado. É suficientemente vaga para poder significar um salário, um estágio, uma bolsa, uma colaboração a recibos verdes ou, nos casos mais arrojados, a bendita “experiência”. Experiência, aliás, é aquilo que mais lhe pedem. O problema é que ainda não encontrou alguém que lhe explicasse como se consegue tal experiência, antes de haver experiência alguma. E ele bem que procura…
Abre o LinkedIn todas as manhãs com a disciplina de quem espera que, durante a noite, o mercado de trabalho tenha finalmente percebido o seu potencial. Há vagas. Às carradas. Algumas procuram “jovens talentos”. Outras “perfis dinâmicos”. Quase todas querem alguém “proativo, resiliente, orientado para resultados e com capacidade para trabalhar sob pressão”. Ele é tudo isso. Ou, pelo menos, julga que conseguiria ser se alguém lhe dissesse concretamente o que era para fazer. O problema vem a seguir: “Experiência mínima de três anos.” Volta atrás. Confirma o título. Analista Junior. Três anos. Continua: “Domínio avançado de Excel.” Fecha.
Bom, não vale a pena começar o dia com negatividade. É verdade que passou quase vinte anos no sistema de ensino. Aprendeu coisas, teorias, modelos, conceitos, metodologias e até fez um trabalho particularmente interessante sobre inovação e empreendedorismo numa cadeira do segundo semestre. Fez apresentações em PowerPoint. Trabalhos de grupo. Uma análise SWOT. Duas, talvez. Participou num business game. Sabe o que é um stakeholder. Consegue dizer benchmarking sem hesitar. Mas, colocado perante uma folha de Excel com uma fórmula que não funciona, o seu primeiro impulso continua a ser pedir ao Gemini para o ajudar. Ainda assim, não se pode dizer que não tenha competências. Sabe aprender, sobretudo quando não há ninguém disponível para fazer por ele. Comunica bem, isto é, consegue falar durante vários minutos sem deixar inteiramente claro que não percebe nada do assunto. É adaptável, que é como quem diz, desenrasca-se. Trabalha em equipa (todos aqueles anos nos escuteiros hão de ter servido para alguma coisa). E tudo isso está brilhantemente vertido no seu currículo, produzido com esmerado produzido com esmerado rigor gráfico no Canva.
De resto, não sabe construir uma parede, arranjar um motor, instalar um esquentador, cortar cabelo, fazer uma declaração fiscal, reparar uma torneira ou explicar exatamente o que faz um técnico superior de estratégia e desenvolvimento organizacional. Mas estudou, e a si pareceu-lhe que bastante. Afinal, não lhe disseram todos durante anos que esse era o caminho?
Entretanto, os amigos já começaram lentamente a dispersar-se. Um foi para a Holanda. Outro está no Luxemburgo. A Marta trabalha em Bruxelas e publica fotografias de cervejas artesanais acompanhadas por legendas sobre como “sair da zona de conforto muda tudo”. O João está na Irlanda, onde aparentemente ganha num mês aquilo que ele espera vir a ganhar num ano, embora pague por um quarto aquilo que os seus pais pagam pela prestação da casa inteira. Não há condições. Ele, porém, ficou. Portugal precisa dos jovens. Também lhe disseram isso. Por isso continua a procurar oportunidades para contribuir para o desenvolvimento do país.
Há semanas em que envia dez currículos. Outras quinze. Nos dias particularmente produtivos, personaliza a carta de motivação, alterando cuidadosamente o nome da organização no primeiro parágrafo e acrescentando duas linhas sobre o quanto sempre admirou uma empresa cuja existência descobriu alguns minutos antes. A maior parte não respondem. Algumas agradecem: “É com agrado que recebemos o seu interesse e o tempo investido na candidatura.” Pelo menos, é reconfortante saber que alguém reconhece o investimento. Foram anos de propinas, cursos, pós-graduações, certificados, livros, transportes, rendas e refeições suficientemente económicas para não comprometer o orçamento familiar. No entanto, parece que os pais apostaram no cavalo errado: “Após uma análise cuidada do seu perfil, decidimos prosseguir com candidatos cuja experiência se encontra mais alinhada com os requisitos da função.” Ele começa a suspeitar que existe algures em Portugal uma pequena elite de jovens de 23 anos com sete anos de experiência profissional.
De vez em quando chega, lá chega à fase da entrevista: “Fale-nos um pouco sobre si.” É uma pergunta difícil. Ele sabe quem é, naturalmente. Mas não sabe exatamente qual das versões de si próprio querem ouvir. A resiliente? A empreendedora? A apaixonada por desafios? O melhor mesmo é optar por uma versão holística: “Sou uma pessoa muito dinâmica, gosto de trabalhar em equipa e procuro constantemente novos desafios.” A entrevistadora sorri, com aquele sorriso profissional que tanto pode significar “excelente” como “és a décima terceira pessoa que me diz isso hoje”. “E onde se vê daqui a cinco anos?” Gostaria de responder: “Com contrato sem termo e capacidade para arrendar um T1 sem precisar de um fiador”. Mas isso talvez revele falta de ambição. Por isso fala em crescimento, aprendizagem e criação de valor. Criação de valor é importante nos dias que correm. Todos os políticos o dizem. O problema é descobrir quem fica com ele depois de criado.
Quando sai das entrevistas, vai ao ginásio para descompressar. Aí, pelo menos, sente que sabe o que está a fazer. Em todo o caso, é preciso ocupar o tempo, pelo que treina cinco vezes por semana. Peito e tríceps. Costas e bíceps. Pernas. Ombros. E depois repete. Ou então começa uma outra qualquer sequência que muda conforme o vídeo que viu na noite anterior. Conhece cargas, repetições, tempos de descanso e ingestão proteica com uma precisão que nunca conseguiu aplicar à gestão das suas finanças pessoais. Ali não há perguntas sobre experiência profissional. Ninguém quer saber onde se vê daqui a cinco anos. Se levantar o peso, levanta. Se não levantar, não levanta. É um sistema extraordinariamente transparente.
Além disso, o investimento começa finalmente a ser visível. O peito cresceu e os braços ganharam definição. Os ombros e as costas alargaram, e a cintura estreitou. Pela primeira vez em vários anos de dedicação, há uma competência que consegue demonstrar sem precisar de certificado. Olha-se ao espelho. Talvez tenha andado a pensar nisto de forma errada. Durante todos aqueles anos disseram-lhe que o seu principal recurso era o conhecimento. No entanto, conhecimento há muito. Licenciados também. Mestres então nem se fala, e doutorados começam a aparecer em sítios onde antigamente bastava saber atender o telefone. O que ele tem verdadeiramente de seu é aquilo: o corpo. É jovem, saudável e está em forma. E, ao contrário do diploma, o corpo parece despertar algum interesse imediato nas pessoas. Ouve até aquela em que a senhora da recessão que lhe ligou apesar de não ter ficado com o emprego.
Começa a formar-se uma ideia. Ainda vaga, mas uma ideia. Vivemos, afinal, na economia digital. Hoje tudo pode ser monetizado. Conhecimento, atenção, opinião, fotografias, vídeos, rotinas diárias, refeições, viagens, relações. Há pessoas que ganham dinheiro simplesmente mostrando aquilo que fazem. Criadores de conteúdo digital, dizem-se. Olha novamente para o espelho, analisando o físico. Talvez esteja ali uma oportunidade. Uma que não depende de recrutadores, nem exige três anos de experiência. Não pede carta de motivação, entrevista. Pode até ser que nem precise propriamente de sair de casa. Basta um telemóvel, uma boa luz e alguma consistência. Talvez começar com fotos numa daquelas plataformas novas. Depois vídeos, seguindo-se o conteúdo exclusivo e planos personalizados. Uma subscrição mensal, quem sabe. Afinal, o mercado existe. Há sempre alguém disposto a pagar!
Ao longo dos dias seguintes, a ideia ganha forma. Começa por observar outros perfis. Homens e mulheres, usando pouca roupa e extraordinariamente definidos, fotografados em poses cuidadosamente espontâneas, perante espelhos, camas, piscinas ou balneários. Alguns têm centenas de milhares de seguidores que confirmam o seu valor, ouros aliciam-no a aceder a conteúdos que não disponibilizam gratuitamente. Não é que o corpo, devidamente apresentado, pode afinal ser um bom modelo de negócio?
Pela primeira vez em meses sente verdadeiro entusiasmo. Talvez seja isto. Talvez todo aquele investimento em creatina tenha finalmente encontrado utilidade. Compra até um pequeno tripé para o telemóvel. Experimenta luzes e tira algumas fotografias. Sem camisola ficam melhores. É preciso mostrar o produto! Pesquisa preços e analisa concorrentes. Define público-alvo. A pós-graduação em gestão sempre serviu para alguma coisa. Falta apenas decidir como transformar tudo aquilo numa atividade profissional.
Nessa noite senta-se ao computador e respira fundo. Chegou o momento. Abre o browser e escreve, com uma confiança que já não sentia há algum tempo: “Como ser Personal Trainer em Lisboa”. Os primeiros resultados aparecem de imediato. Cursos certificados. Formação reconhecida. Carga horária. Estágio. Avaliação. Certificação profissional.
Suspira. Afinal, até para pôr o corpo a trabalhar lhe falta uma credencial.