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(A) :: A lição do Nepal e as nossas orelhas de burro

A lição do Nepal e as nossas orelhas de burro

"É melhor prevenir que remediar" (Provérbio popular)

João Adrião
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O recente desastre na região do Himalaia veio lembrar-nos sobre a urgência de discutir a ocupação humana em zonas de riscos naturais. Não só lá longe, como também por cá. Com efeito, a história recente de Portugal e de Espanha partilha exatamente dos mesmos padrões de vulnerabilidade.

1 A Raiz do Problema: A Ocupação dos Leitos de Cheia

O perigo não começa com a chuva ou com o colapso de uma vertente. O problema começa décadas antes, com a ocupação humana dos leitos de cheia. Construir habitações, vias de comunicação ou complexos industriais no caminho natural da água é a receita para que as coisas corram mal.

As cheias acontecem independentemente de existirem pessoas. Mas quando o território perde a sua resiliência natural e as linhas de água são estranguladas pela urbanização, qualquer evento extremo transforma-se instantaneamente numa crise humanitária.

A nossa própria história ibérica é prova viva disso: foi a ocupação desregrada das linhas de água que ditou tragédias como a das Grandes Cheias de Lisboa em 1967 (onde centenas de pessoas morreram na periferia da capital) ou o violento Aluvião da Madeira em 2010, onde as ribeiras canalizadas do Funchal foram engolidas por um mar de lama e pedras.

Também em Espanha, a trágica Catástrofe de Valência em 2024 expôs o perigo de viver em linhas de escoamento, que até podem parecer muito seguras, mas que amiúde vão reclamar o seu espaço natural com uma força avassaladora.

2  O Efeito Dominó

Quando o evento se desencadeia, é normalmente quando os sistemas revelam falhas críticas consecutivas. Assim como o SIRESP, funciona bem a maior parte do ano, falha depois, quando mais seria necessário estar operacional.

No Nepal, a catástrofe começou com as Estações e Sensores Destruídos, o que levou a uma “Cegueira Técnica” sobre o que estava para vir. Ora foi o que aconteceu também por exemplo na tragédia de Ribeira Quente (Açores, 1997), onde os desmoronamentos isolaram de imediato a monitorização e os acessos locais.

No cenário nepalês, em que a torrente avança a velocidades avassaladoras, minutos são a diferença entre a vida e a morte. Todavia, as mensagens com alertas oficiais chegaram tarde demais, quando a onda de detritos já estava à porta das populações. O caso de Valência em 2024 é também ele um exemplo próximo desta falha, com os avisos à população a serem emitidos quando milhares de pessoas já estavam presas nas estradas e com a água pelo peito.

A vulnerabilidade das redes de energia faz com que os primeiros impactos cortem a eletricidade — ainda se lembram da Kristin? Sem luz e sem comunicações, os sistemas tradicionais de aviso público — como as sirenes e os altifalantes — calam-se precisamente no momento em que deveriam soar alto, deixando as populações desprevenidas. É outro tipo de falha comum, e que desencadeia outras, como vimos por cá com o “Apagão”. Ou por exemplo nos incêndios da Califórnia, onde as casas tinham sistemas de aspersão, mas quando a luz falhou, a água também falhou, e nada funcionou…

De volta ao Nepal, e mesmo sem as falhas anteriores e a população avisada, faltavam ainda Rotas Seguras para Evacuações. Em vales estreitos e/ou mal planeados, a geografia joga contra a sobrevivência: sem caminhos de fuga estruturados, vias alternativas ou escadarias para patamares elevados, os cidadãos estavam, na verdade, encurralados. Lembremo-nos de que perto de nós isso também acontece, e para não ir à estrada de Pedrógão, podemos ir ao desastre do Parque de Campismo de Biescas (Espanha, 1996), onde a inexistência de uma rota de fuga num vale estreito encurralou dezenas de campistas num cone de dejeção natural.

Conclusão:

A Lição do Nepal é clara e intemporal: não podemos controlar a magnitude de um fenómeno natural — meteorológico, geológico ou outro qualquer — mas podemos controlar como nos prevenirmos perante ele, e embora os sistemas de proteção civil sejam cada vez melhor desenhados, as falhas acontecem, e quando acontecem, podem ser catastróficas.

Esta catástrofe mostrou mais uma vez o alto preço da Ocupação dos Leitos de Cheia. Um preço que por cá também nos tem dado muitas lições. Não obstante, uma das notícias já deste ano — ano de cheias no Mondego com evacuações, rutura do dique e corte da A1, etc. — é que Coimbra quer, ao arrepio do PDM, construir mais em leito de cheia. Saiam umas orelhas de burro para nós, alunos portugueses.