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(A) :: A beleza da Europa tornou-se uma ameaça

A beleza da Europa tornou-se uma ameaça

A beleza europeia só será fatal se os europeus continuarem a acreditar que basta serem admirados para permanecerem seguros. O mundo respeita valores, mas continua a obedecer ao poder

Álvaro Rocha
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Há continentes que impõem respeito pela força militar, pelo poder económico ou pela dimensão territorial. A Europa exerce uma influência diferente. Atrai pela história, pela cultura, pelas cidades, pela diversidade e por uma qualidade de vida que continua a ser ambicionada por milhões de pessoas. Essa capacidade de sedução é uma das suas maiores forças, mas tornou-se também uma perigosa vulnerabilidade.

De Lisboa a Copenhaga, de Paris a Roma, poucas regiões concentram tanto património, liberdade, segurança e diversidade num espaço tão reduzido. A Europa pode estar a perder competitividade tecnológica, peso económico e relevância estratégica, mas mantém algo que não se mede facilmente nos indicadores: continua a ser um dos melhores lugares do mundo para viver.

É precisamente esse poder de atração que ajuda a explicar parte da hostilidade de que o continente é alvo. A Europa não é criticada apenas porque é fraca, burocrática ou dependente dos Estados Unidos para garantir a sua segurança. É também atacada porque representa um modelo de sociedade que incomoda os seus adversários: democracias liberais, direitos individuais, proteção social, liberdade de expressão e circulação de pessoas.

Nos Estados Unidos, alguns setores ligados ao movimento MAGA transformaram a Europa num símbolo de decadência. Acusam-na de viver acima das suas possibilidades, de não investir suficientemente na defesa e de ter trocado identidade por multiculturalismo. Algumas destas críticas têm fundamento. Porém, o desprezo convive frequentemente com uma curiosa admiração pelo estilo de vida europeu, pelas suas cidades e pela sua cultura. Ataca-se aquilo que, em muitos aspetos, se gostaria de possuir.

A contradição é ainda mais evidente na Rússia. Durante séculos, o país oscilou entre a aproximação à modernidade europeia e a rejeição dos valores liberais que a acompanham. As elites russas podem condenar o Ocidente nos discursos, mas durante muito tempo escolheram Londres, Paris ou o sul de França para comprar casas, educar os filhos e guardar as fortunas. A propaganda anti-europeia nunca conseguiu eliminar o fascínio exercido pela própria Europa.

A guerra na Ucrânia também deve ser compreendida à luz desta disputa. A aproximação de Kiev à União Europeia não representava apenas uma escolha económica ou diplomática. Mostrava que uma antiga república soviética podia preferir o modelo democrático europeu à tutela autoritária de Moscovo. Para o Kremlin, o perigo não era somente perder território de influência. Era permitir que o exemplo se tornasse contagioso.

Mas seria um erro transformar esta reflexão num exercício de autocomplacência. A beleza, a história e os valores não defendem fronteiras, não produzem armamento e não garantem autonomia tecnológica. A Europa habituou-se a confundir atração com poder e influência cultural com capacidade de decisão. O resultado é um continente admirado por muitos, cobiçado por alguns e suficientemente vulnerável para ser pressionado por quase todos.

A resposta não está em abandonar o modelo europeu, imitando os autoritarismos que o desafiam. Está em protegê-lo com mais capacidade económica, tecnológica, política e militar. A Europa precisa de compreender que a sua qualidade de vida não é um direito adquirido, mas uma conquista histórica que exige investimento, coesão e defesa.

A beleza europeia só será fatal se os europeus continuarem a acreditar que basta serem admirados para permanecerem seguros. O mundo respeita valores, mas continua a obedecer ao poder. Se a Europa quiser preservar aquilo que a torna desejável, terá finalmente de adquirir a força necessária para o defender.