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Dias perfeitos

Ter medo da surpresa também é um modo de impedir o tempo de ser o tempo, com a possibilidade de termos de viver o que não queremos.

Tiago de Oliveira Cavaco
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A primeira vez que vi como deve ser um filme não-americano estava no meu 10º ano, portanto com 15, 16 anos. Tínhamos alemão dado por um par de estagiárias encantadoras e elas resolveram fazer a turma ver “As Asas do Desejo” no anfiteatro do Liceu de Queluz. O filme, sendo do Wim Wenders, realizador alemão, proporcionaria àqueles adolescentes duas horinhas de convívio com o idioma que aprendiam.

Quando o filme terminou eu não sabia o que havia de fazer à minha vida. Ainda hoje recordo com gosto essa verdadeira perplexidade como uma das emoções mais valiosas quando nos deparamos com algo para o qual nos falta o alfabeto. Eu não sabia se aquelas duas horas de Wim Wenders tinham sido uma tortura ou uma epifania. Como, ainda por cima, o filme era acerca de anjos, talvez eles me tivessem mesmo visitado.

Aquele filme era maior do que eu, isso eu acho que tinha conseguido intuir. Quando não compreendemos algo, compreendermos que a nossa compreensão é mais curta do que julgávamos não é uma má conclusão. Agora, chegar aí não pressupõe que saibamos distinguir que o que é maior do que nós é bom ou é mau. Genuinamente, eu não sabia se “As Asas do Desejo” era um grande filme ou um filme péssimo: apenas sabia que era maior do que a compreensão do Tiago de 15, 16 anos.

Talvez por insegurança pessoal, nunca gostei de não gostar de algo de que os outros gostam. Sinto-me insensível ou burro. Como podem calcular, isso tem-me trazido grandes lições pela vida fora. Há assuntos que não me custa nada perceber zero. Não percebo de economia e estou-me nas tintas. Não percebo de física quântica e estou-me nas tintas. Não percebo de desporto e estou-me nas tintas. Mas assuntos que são tradicionalmente associados à alma, passo mal se me sentir burro neles.

A partir do 10º ano comecei a achar que me pertencia ter de perceber de assuntos da alma como o cinema ou a literatura. A música era uma excepção porque um cristão protestante já nasce mergulhado no caldeirão da poção mágica (a rigor, a literatura também porque nascemos de Bíblia na mão). De lá para cá esforço-me. Vejo filmes e tento ter um discurso minimamente articulado sobre eles. Leio livros e tento ter um discurso minimamente articulado sobre eles.

Mas em 1992/93 eu não sabia o que discursar sobre “As Asas do Desejo”. Talvez por isso nunca mais lá regressei, não fosse voltar o saudável incómodo de me sentir ultrapassado. Mas ontem voltei ao Wim Wenders. Ao longo destes mais de 30 anos voltei a ver uma ou outra coisa dele. Mas o filme que vi ontem em família, “Dias Perfeitos”, bateu forte. E o meu pensamento regressou à minha adolescência.

“Dias Perfeitos” é acerca de um humilde trabalhador japonês nas limpezas da hiper-cidade que Tóquio é. É acerca da repetição e é acerca de como tentamos tapar com ela aquilo que no passado ainda nos persegue, mesmo que combatido com uma rotina fixa. É também acerca daquela operação delicada que é enfrentar um dia novo com o desejo de travar o tempo. E isto passa a vida a acontecer-me.

Gosto muito de enfrentar uma dia novo com expectativa mas também o faço impondo-lhe tudo aquilo que repito em jeito de evitar a possibilidade assustadora de que algo me surpreenda. Ter medo da surpresa também é um modo de impedir o tempo de ser o tempo, com a possibilidade de termos de viver o que não queremos. Aceitar o tempo é, por isso, do mais difícil que nos acontece. De certo modo, não há pessoas conciliadas com o tempo porque o tempo pressupõe poder não haver conciliação.

Quando comecei a escrever este texto pensei que seria acerca da repetição. Demorei muito tempo para aí chegar e, se Deus quiser, fica para a semana. Este texto fica acerca de tempo para filmes que nos deixam sem saber o que havemos de fazer à nossa vida. Abençoados sejam.