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(A) :: A armadilha de achar que a política pede simplicidade

A armadilha de achar que a política pede simplicidade

Não creio que Soares e Sá Carneiro fossem pessoas fáceis de lidar nem que a simpatia fosse a sua principal característica. Mas também não é isso que se pretende que um político seja.

André Abrantes Amaral
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Luís Marques Mendes regressou por uns momentos à esfera pública na universidade de Verão do PSD para dizer aos mais novos que hoje a política funciona “(…) num clima de crispação da direita à esquerda, um clima quase de campanha eleitoral.” Para explicar melhor o seu ponto de vista deu os exemplos de Francisco Balsemão e de Mário Soares, acrescentando que tinham uma visão para o país. Eu compreendo e estou de acordo com Marques Mendes, aliás já escrevi várias vezes sobre o tema neste espaço, quando este acha que, ao contrário de Soares, Balsemão e já agora de Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Cavaco Silva (e até Cunhal), a maioria dos actuais políticos não tem uma visão para o país. No entanto, daí concluir que esses políticos que marcaram os anos 70 e 80 eram consensuais e não pensavam o tempo todo em eleições é dar um passo muitíssimo maior que a perna. E porquê? Simplesmente porque tanto Soares e Sá Carneiro, como Freitas e Cunhal não fizeram outra coisa que não fosse ir a eleições.

Como também não foram consensuais. Marques Mendes tem mais anos que eu e uma longa vida política atrás de si, de modo que sabe muitíssimo melhor que eu o que os adversários de Soares diziam dele. Que não conhecia os dossiers, que era preguiçoso, que nunca tinha trabalhado, que se tinha formado com média de 10 em Direito, que era um traidor da pátria. De Sá Carneiro que era teimoso, egocêntrico e arrogante. Houve festejos e lançaram-se foguetes quando o avião caiu em Camarate. De Cavaco, que era um simplório que gostava de mandar e de impor a ordem. Muitos juravam ver nele semelhanças com Salazar. Nenhum daqueles políticos foi consensual. Todos são hoje idolatrados ou, no mínimo, respeitados porque mais que quererem ser consensuais lutavam pelo que acreditavam. Lutavam pela visão do país em que acreditavam. Não eram humildes. Ou pelo menos não o eram no sentido que a grande maioria das pessoas retira dessa palavra, de alguém que se cala e que não se impõe. A humildade a que Marques Mendes talvez se referisse seria a de quem respeita, escuta e ouve o outro antes de decidir porque sabe que apenas por essa via consegue abarcar mais que a ínfima parte da verdade que conhece, que tem igual consideração por qualquer um independentemente de quem seja e das suas origens. Sucede que essa qualidade, por ser mais interior que manifesta, não podemos dizer de pronto que os actuais políticos não a tenham. Essa humildade pressupõe discrição, logo não se manifesta em público, pelo que é difícil, ou impossível, afirmar que alguém não é humilde sem a conhecer pessoalmente. Da mesma forma, e já agora, ter um trato fácil não significa que se seja uma pessoa correcta ou alguém que age correctamente. Assim como ter um trato difícil não significa obrigatoriamente que se seja mal-educado. Ou que ser bem-educado signifique simplesmente comer e calar com receio de ser inconveniente. Uma pessoa pode ser bem-educada, não levantar grandes ondas porque na maioria das vezes não vale a pena ao mesmo tempo que não deixa passar determinado tipo de comportamentos. A diferença está no tom, nas palavras, na oportunidade que não se perde. A dificuldade está no equilíbrio que é do que mais se sente falta.

Mas fechando o parêntesis e voltando ao que interessa, a mensagem de Marques Mendes aos jovens falha o alvo ao transmitir a ideia de que a política, para que seja mais que mera politiquice, requer pessoas simples, de trato fácil e que procuram consensos. Pessoas simpáticas, amáveis e sorridentes. Não é verdade. A política não é consensual, menos ainda numa democracia em que o que se pretende (e o que se precisa) é que se discutam diferentes pontos de vista, diferentes soluções, diferentes caminhos para que os eleitores escolham um em detrimento dos outros. A liberdade política passa por isto, por poder defender soluções diversas, por ser possível escolher entre elas e ficarmos responsáveis por essa escolha.

Tal como não requer, necessariamente, pessoas simples e de bom trato. A política é uma arte que requer capacidade de argumentação, de escutar outras opiniões, de mudar de ideias, uma aptidão impar para o trabalho, para reunir os outros à sua volta e pô-los felizes e contentes e orgulhosos a trabalhar para si, competência para perceber a complexidade dos problemas (e das soluções), talento para convencer o eleitorado que se é a pessoa certa para liderar o país e o deixar melhor do que está. Não são simples as pessoas que o conseguem, mas quem tem uma vontade férrea e desmesurada para liderar um governo, gostar da pressão que daí advém, respirar o confronto com o mesmo prazer e sentimento de libertação com que inspiramos o ar da manhã. Podem ter gostos simples, mas não são pessoas simples ou, pelo menos, não o podem ser porque não é fácil nem habitual gostar de viver da forma que é necessário viver para se ser bem-sucedido no cargo de chefe do governo.

Não creio que Soares e Sá Carneiro fossem pessoas fáceis de lidar nem que a simpatia fosse o seu forte. Mas também não é isso que se espera de um político. Hoje é frequente perguntar com qual político gostaríamos de beber uma cerveja, ou jantar ou ir ao futebol, como se tivesse algum interesse para as nossas vidas. Eu, graças a Deus, tenho boas e variadas escolhas para jantar, beber um copo ou ir à bola. Não quero fazer nenhuma delas com qualquer político ou governante. Só quero que governem, que digam ao que vão, o que pretendem, qual a visão que têm para o país. Que pensem bem o que pretendem e tomem decisões difíceis que é para isso que um político se torna governante, caso contrário qualquer um o poderia ser. Foi o que fizeram Soares, Sá Carneiro e o exemplo que Marques Mendes deu, Balsemão. E porque o fizeram não foram consensuais. Abriram feridas, mexeram nelas, o país discutiu forte e feio até que a maioria votou num dos caminhos apresentados. Nessa altura, em que não havia consensos, os portugueses conheciam as diferentes visões de país que cada um tinha. Agora que confundimos boa política com bom comportamento, que achamos que ser político é algo giro, que tem graça e é uma vaidade aparecer na televisão a dizer uma coisas, não se sabe nada.