Na antecâmara dos Mundiais, quando dividia os treinos entre o ginásio e o lago de Malta, a pista artificial em Poznan que recebe a competição em 2026, Fernando Pimenta publicou nas suas redes sociais uma imagem que não demorou a tornar-se viral. Não, não é normal ter aquele “cabedal” aos 37 anos, num físico que se foi adaptando também ao passar do tempo sem perder o estatuto de impecavelmente fit. E obriga a sacrifícios, muitos sacrifícios, sempre com a boa disposição a ajudar. “O corpo está preparado, a cabeça também! Horas e horas de dedicação, de trabalho duro e muita resiliência. Trabalho feito. Gosto do resultado no físico, gosto mesmo disto. Sem corantes nem conservantes”, brincou o canoísta de 37 anos, que há mais de duas décadas que anda entre grandes competições num currículo que não tem paralelo no desporto nacional.
https://twitter.com/ojogo/status/2092164185081671983
Tudo preparado, faltava o resto – e sim, mesmo estando a competir 16 anos depois da primeira medalha de sempre em Mundiais, nesse caso com uma prata no K2 500 com Emanuel Silva (com quem viria a fazer o seu primeiro pódio olímpico nos Jogos de 2012, em Londres), havia um objetivo histórico ao alcance nesta edição de Poznan como era a possibilidade de superar o mítico norueguês Knut Holmann no número de medalhas alcançado no K1 1.000 em Mundiais (oito, entre 1990 e 1998). Com três ouros, duas pratas e três bronzes, o nono pódio seria outro marco sem paralelo na canoagem… mas a competição também era maior.
https://observador.pt/2026/06/13/fernando-pimenta-conquistou-medalha-de-bronze-em-k1-1-000-metros-nos-europeus-de-canoagem/
Depois de uma qualificação tranquila, vencendo a sexta e última eliminatória com uma vantagem larga sobre o italiano Andrea Schera e o norueguês Amund Vold, Pimenta foi para a terceira e última meia-final com o grande adversário dos últimos anos, o húngaro Balint Kopasz, medalha de ouro em Tóquio e de bronze em Paris. “É o que vier, que vier à rede é peixe. Já estou habituado a calhar sempre nas semifinais da morte, por isso venha de lá essa da morte e assim se calhar já alguém fica arrumado – espero que não seja eu. Agora é descansar e desfrutar. Vou analisar todos os meus adversários, o que fazem a cada 250 metros”, comentara na antecâmara dessa prova que se iria realizar esta sexta-feira, antes da final A do K4 500.
https://observador.pt/2026/08/28/canoagem-fernando-pimenta-bate-kopasz-e-esta-na-final-de-k1-1-000/
Foi quase um sinal de motivação que passou para a tripulação com Gustavo Gonçalves, João Ribeiro, Messias Baptista e Pedro Casinha, que não conseguiu revalidar o título de 2025 mas vingou a frustração de falhar o pódio no último Europeu com uma medalha de bronze nos Mundiais de 2026: Pimenta soube gerir da melhor forma os tempos da terceira meia-final, percebeu que nem o dinamarquês Thorbjorn Rask iria conseguir intrometer-se entre os dois grandes rivais e bateu o húngaro por 28 centésimos, num pormenor não só importante para reforçar a confiança mas para colocá-lo numa pista melhor na final.
“Eu gosto de os ver a arder, picados. É bom sinal. Significa que [no sábado] vão dar o seu melhor, é o que desejo. Quero que os meus adversários na final estejam todos a 100%. E que eu também consiga estar a 101% ou a 110%, a dar o meu máximo. Depois logo se verá quem são os melhores”, comentou em declarações à Lusa. “Se fizesse uma medalha de ouro, não ficava nada triste. Se ficasse prata, triste também não ficava. Se fosse bronze, acho que continuava a ficar feliz, mas não concretizado. Quarto e quinto lugares é que já ficava um bocado dececionado mas vamos ver. O nível está bastante alto, as provas estão a ser bastante disputadas e amanhã [sábado] é um novo dia”, acrescentou o canoísta limiano de 37 anos.
Agora chegava o dia D para fazer (mais) história, numa competição de Poznan-2026 onde assumiu o abdicar da presença no K1 500 (mesmo dizendo que “é das coisas mais aborrecidas passar muito tempo sem fazer nada”…) para focar todas as atenções e forças no K1 1.000 e no K1 5.000, que fará este domingo. E com mais adversários “diretos” do que tivera noutras ocasiões como o australiano Thomas Green (que foi construindo currículo sobretudo em K2 antes da prata conseguida em Milão-2025 no K1 1.000) ou o jovem americano Jonas Ecker, que se sagrou campeão mundial júnior e Sub-23 no ano passado em Montemor-o-Velho. Isto, claro, juntando ao inevitável Balint Kopasz e ao bielorrusso Uladzislau Kravets.
https://twitter.com/24horaspt/status/2093709998085849315
Mais uma vez, o espírito sobre-humano de Fernando Pimenta para competir acabou por levar a melhor: liderando a prova desde início com Thomas Green como principal opositor até aos 500 metros, o português foi controlando a corrida do australiano e soube preparar-se para a melhor ponta final do húngaro Balint Kopasz, defendendo esse ataque do magiar e segurando a vitória que o coloca não só no topo do K1 1.000 em Mundiais mas que foi também a de um atleta mais velho de sempre em Mundiais de velocidade. Pimenta terminou com o tempo de 3.24,39, à frente de Kopasz (3.24,61) e de Green (3.25,80). Uladzislau Kravets acabou na quarta posição com 3.25,99, ao passo que Jonas Ecker foi quinto com 3.27,87.
https://twitter.com/COPPORTUGAL/status/2093709343946358876
https://twitter.com/modalidadesslb/status/2093721419779649968