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Plano Nocional de Leitura (L)

A ideia do Manifesto Anti-Dantas sobre literatura é hoje quase a única. Segundo essa ideia, “Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia”.

Miguel Tamen
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O manifesto literário português mais conhecido é o Manifesto Anti-Dantas, de José de Almada Negreiros (1893-1970), de 1915; e o mais pacato é seguramente “Literatura Viva”, de José Régio (1901-1969), publicado em 1927 no primeiro número da revista presença. Negreiros era uma personagem da pequena revista Orpheu, que na altura se publicava em Lisboa. Régio não tinha grande feitio para personagem, e vivia na província.

A crítica literária prefere por inclinação as opiniões menos pacatas. As de Régio foram considerados desde o princípio extraordinariamente pacatas.  Régio adquiriu a reputação suspeita de não ter querido suficientemente mudar a vida dos outros, e de não ter querido ficar, como um crítico deplorou pitorescamente, “no campo dos gritos e dos choques.”   Comparando-o com Negreiros, e estranhando a falta de choques, um outro crítico chamou-lhe contra-revolucionário, o pior insulto que há.

Os dois manifestos manifestam não obstante algumas semelhanças.  O anti-Dantas é um ataque pessoal, escrito em maiúsculas, ao dramaturgo epónimo (Júlio “em que pensa, Cardeal?” Dantas), a outros dramaturgos (“e as infelicidades de Ramada Curto! e o talento insólito de Urbano Rodrigues!”) e às profissões literárias em geral.  O de Régio cumpre as cordialidades tipográficas, mas inclui também no fim um ataque a “todos os livros de Judith Teixeira,” e aos artigos do Professor Fidelino de Figueiredo.

E no entanto, deixar-nos guiar por aquilo que é comum aos dois manifestos impede-nos de reparar na diferença mais importante que existe entre eles.   Essa diferença não tem nada a ver com o seu grau de pacatez, mas com aquilo em que para cada um consiste a literatura e a arte.   Negreiros acreditava que era precisa uma literatura portuguesa diferente daquela que o seu manifesto criticava, e a que chama “o entulho das desvantagens e dos sobejos.”   Há indicações de que a tentou escrever.

A ideia do Manifesto Anti-Dantas sobre literatura é hoje quase a única.  Segundo essa ideia, “Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia,”  e o futuro da literatura portuguesa depende da originalidade dos grandes escritores do futuro.   Nenhum escritor presente discorda da ideia, porque no futuro já não estará presente.  O resto das pessoas tende também a concordar, porque a ideia não exclui que elas próprias possam também vir a tornar-se grandes escritoras; e anima-as a pensar que ainda podem.

O outro manifesto é menos animador.   Régio distingue entre “literatura viva” e “literatura morta” e, como o seu primo anti-Dantas, também acha que “simuladores” e “criadores autênticos . . . existiram em todos os tempos.”   Mas considera sobretudo que a literatura morta é “aquela em que o autor pretende ser original;” e portanto que a vontade de ser original pode matar a literatura.  José Régio foi de facto o único escritor português do século XX que imaginou que a literatura portuguesa pudesse morrer por causa da originalidade deliberada dos seus autores.