Em 1826 nasceu Eugénia de Montijo, que foi Imperatriz dos franceses pelo seu casamento com Napoleão III e, cem anos depois, nasceram a sua sobrinha-bisneta Cayetana Fitz-James Stuart y Silva, 18.ª duquesa de Alba, e a Rainha Isabel II. Evocado já o bicentenário da Imperatriz dos franceses, não podia faltar, neste fim de estação, uma breve recordação destes dois centenários que, por assim dizer, são um novo bi-centenário.
Por vezes ouve-se dizer que, se a Rainha Isabel II e a referida duquesa de Alba se encontrassem, não seria fácil saber quem teria, em termos protocolares, precedência. Como é óbvio, a questão não faz sentido porque uma rainha tem sempre prioridade em relação a uma duquesa. Na visita oficial de Isabel II a Espanha, Cayetana de Alba fez à Rainha uma profunda vénia, para que não ficasse nenhuma dúvida sobre a questão.
Por certo, Isabel II e a duquesa de Alba, para além de terem a mesma idade, eram parentes, pois esta última era também duquesa de Berwick, de que foi primeiro titular James Fitz-James (1670-1734), filho do Rei Jaime II de Inglaterra e de Arabella Churchill, irmã do 1º duque de Marlborough, antepassado de Winston Churchill. Pelo casamento do 3.º duque de Berwick com a irmã do 12º duque de Alba, estas famílias uniram-se e os duques de Alba, que inicialmente se apelidavam Alvarez de Toledo, passaram a chamar-se Fitz-James Stuart, apelidos agora usados pelo actual duque, não obstante os ter herdado de sua mãe, juntamente com a Casa de Alba.
Talvez a descabida lenda da equivalência protocolar entre a Rainha de Inglaterra e a duquesa de Alba tenha a sua remota origem na relação entre a Rainha Vitória, que era também Imperatriz da Índia, e a Imperatriz Eugénia, exilada em Inglaterra, cuja única irmã foi, pelo seu casamento, duquesa de Alba. Entre ambas as soberanas havia uma relação próxima: uma neta da Rainha Vitória foi apadrinhada pela Imperatriz Eugénia, unindo os seus dois nomes próprios: Vitória Eugénia, ou Ena, que casaria com o Rei Afonso XIII de Espanha. Ambos foram padrinhos de Cayetana, estabelecendo-se assim uma curiosa linhagem espiritual: Eugénia de Montijo, irmã da 15ª duquesa de Alba, foi madrinha de Vitória Eugénia de Battenberg, que casou com Afonso XIII, sendo ambos padrinhos de Cayetana, 18ª duquesa de Alba, que era, portanto, sobrinha-bisneta da madrinha da sua madrinha!
É possível que, quando a Rainha Vitória se encontrava com Eugénia de Montijo, sendo ambas imperatrizes, embora esta emérita e destronada, cada uma tivesse a cortesia de dar a precedência à outra, o que explicaria a lenda de um improvável impasse entre a monarca britânica e a duquesa de Alba. Para tal pode ter também contribuído o facto de a Imperatriz dos franceses não ter tido geração que lhe sobrevivesse, pelo que a sua representação está hoje nos duques de Alba, sendo o actual titular trineto da única irmã de Eugénia de Montijo.
Se a vida de Isabel II da Grã-Bretanha foi, em termos conjugais, pacífica, o mesmo não se pode dizer de Cayetana de Alba. Com efeito, Isabel II casou com Filipe Mountbatten – que é a tradução inglesa do apelido alemão Battenberg –, cuja mãe era prima-direita de Vitória Eugénia. O marido de Isabel II nunca foi rei, mas nasceu príncipe da Grécia e da Dinamarca, títulos a que renunciou para casar, sendo então criado duque de Edimburgo. Deste casamento nasceu o actual Rei Carlos III e seus três irmãos.
Já Cayetana de Alba não teve uma vida fácil. Em primeiro lugar, porque a sua mãe faleceu tuberculosa, quando ela era ainda muito nova. Por outro lado, Cayetana não teve irmãos e o seu pai era muito mais velho: faziam quase cinquenta anos de diferença. Quando ela tinha cinco anos, foi implantada a república espanhola, a que se seguiu uma sangrenta guerra civil, que destruiu o seu palácio madrileno e a obrigou a exilar-se em Londres. Cayetana era da mesma idade do que a única filha do General Franco, o qual sugeriu que ambas fossem apresentadas à sociedade no mesmo baile de debutantes, proposta que o duque de Alba recusou. Numa ocasião em que este se encontrou com o ditador, provou que a mesa de trabalho do ‘Caudillo’ lhe pertencia, accionando o mecanismo que abria uma gaveta secreta dessa secretária. Franco fez então com que o móvel fosse devolvido ao palácio de Liria, a casa madrilena dos duques de Alba.
Também não foram felizes os casamentos de Cayetana. O primeiro foi com um filho do 9º duque de Sottomayor, Luís Martínez de Irujo, que foi duque de Alba pelo seu casamento. Tiveram seis filhos, mas Luís morreu novo, quando a sua única filha, a mais nova dos irmãos, tinha apenas 3 anos de idade.
Seis anos mais tarde, a duquesa de Alba casou de novo, desta vez com Jesus Aguirre y Ortiz de Zárate, que tinha sido dispensado do ministério sacerdotal. Já leigo, foi Director-Geral da Música (1977-1980). Curiosamente, o seu percurso é o inverso de São Francisco de Borja: este, para se fazer religioso, deixou de ser duque; enquanto aquele, para poder ser duque, abdicou da sua condição clerical. Oh tempora, oh mores!
Também Jesus Aguirre faleceu em vida de sua mulher, pelo que a duquesa de Alba contraiu um terceiro matrimónio, em 2011, com Alfonso Díez Carabantes, ou simplesmente Alfonso Díez, uma vez que, no país vizinho, o apelido que conta é o primeiro, por ser o paterno. Que, com 85 anos, Cayetana casasse pela terceira vez com um desconhecido funcionário público, quase um quarto de século mais novo, causou escândalo, mas, não obstante as diferenças, foram felizes, até que a morte da duquesa, a 20-11-2014, os separou.
Apesar de algo excêntrica, Cayetana de Alba soube dar continuidade à sua nobilíssima família e casa, que teve que reconstruir depois da Guerra Civil espanhola e que é hoje um extraordinário museu. Embora a sua vida conjugal tenha sido bastante acidentada, a verdade é que, como gostava de dizer, viveu sempre de acordo com os princípios da Igreja e à lei da nobreza. Honi soit qui mal y pense!
Descanse em paz, D. Caetana Fitz-James Stuart y Silva, 18.ª duquesa de Alba! A titular de várias grandezas de Espanha e 51 títulos nobiliárquicos, terminou a sua vida terrena sendo, simplesmente, a mulher de A. Díez, porque assim se identificam em Espanha, sem ofensa, os cônjuges femininos, por não ser costume as senhoras casadas acrescentarem, ao seu nome de solteiras, o apelido do marido. Cayetana de Alba foi, até ao fim, uma mulher de grande personalidade, que soube honrar a sua fé católica e as tradições da sua família, sem nunca deixar de ser quem era, nem se importar com o escândalo dos pusilânimes. Não será esta, afinal, a verdadeira nobreza?