Depois de um almoço de família no restaurante JNCQUOI ASIA, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Julia regressa a pé para casa, numas ruas ao lado, acompanhada pelos dois filhos de 8 e 10 anos. Ainda não o sabia, mas no percurso até casa já era um alvo.
Ao chegarem ao prédio, são as crianças que digitam o código de acesso. Entram. A porta demora cerca de 30 segundos a fechar — o tempo exato de que dois homens precisam para deslizar para o interior. Um deles segura a porta; o outro avança para Julia junto ao elevador, empurra-a pelas escadas que dão acesso à cave do prédio e imobiliza-a no chão. Enquanto os filhos assistem em pânico, sob a ameaça de uma arma apontada por um dos assaltantes que bloqueia a saída, o outro arranca-lhe do pulso um relógio Patek Philippe avaliado em 100 mil euros, enquanto lhe ordena em espanhol: “Dá-me o teu relógio”. Em poucos segundos, e já com o Patek Philippe, os dois assaltantes correm para a rua, onde uma mota os espera para uma fuga rápida pelo trânsito de Lisboa.
Um dos assaltantes de Julia acabaria por ser detido menos de um mês depois e, em junho deste ano, condenado a 12 anos de prisão por nove crimes: quatro de roubo agravado na forma consumada e um na forma tentada, dois crimes de ofensa à integridade física com recurso a arma e um crime de falsificação de documentos. O último dos crimes: associação criminosa. Isto porque Antoni e o segundo assaltante não estavam sozinhos nem no assalto de Julia nem nos outros quatro que o acórdão do Tribunal de Lisboa, a que o Observador teve acesso, deu como provados, entre o fim de julho e o início de outubro de 2024.
Nos últimos anos, a PSP — que tem uma equipa especializada na investigação destes roubos — registou centenas de assaltos com este modo de atuação no Porto, Algarve e, sobretudo, na Grande Lisboa: abordagens em zonas nobres da cidade, relógios de luxo como alvo e fugas rápidas de mota. Fonte da PSP explicou ao Observador o modus operandi destes vários grupos, como foram os italianos os pioneiros nesta atividade e como se pulverizam estas quadrilhas de assaltantes treinados para reconhecer o que está nos pulsos de quem passeia pelas avenidas mais ricas da cidade e reconhecer a melhor oportunidade. Das abordagens violentas sob ameaça de arma de fogo (ou armas que se assemelhem a tal) no trânsito aos esticões em plena via pública à hora de almoço, os casos repetem-se — embora os números continuem distantes do volume registado noutras capitais europeias. Porém, o caso mais recente desta terça-feira em Lisboa subiu de tom: um assaltante acabou morto pela própria vítima a quem roubou dois relógios Rolex.
Das zonas “associadas ao luxo” ao “estudo prévio”: como os “scouts” escolhem as vítimas
Há quatro zonas de Lisboa que servem de palco privilegiado para este tipo de criminalidade: Amoreiras, Parque das Nações, a envolvente da Avenida António Augusto de Aguiar (junto ao Parque Eduardo XVII) e a Avenida da Liberdade. Todos com uma coisa em comum: são locais “associados ao luxo e riqueza, com clara preferência pelos restaurantes, esplanadas, lojas e hotéis direcionados ou frequentados por clientes abastados”, de acordo com o acórdão do Tribunal de Lisboa.

Mas é “maioritariamente” na Avenida da Liberdade que as “vítimas são previamente sinalizadas, selecionadas, vigiadas, finalmente seguidas e abordadas com recurso a violência e uso de armas de fogo no momento mais oportuno”. Aí, deambulam “scouts”, como descreve a fonte da PSP, que passeiam a pé, sentam-se em esplanadas e chegam mesmo a entrar em espaços conhecidos — como o JNCQUOI Avenida, o JNCQUOI Asia ou o Delta Coffee House. O objetivo é só um: estar na melhor posição para reparar no que trazem os pulsos de quem por ali passa.
“Tem de haver um estudo prévio das pessoas, um relógio concreto. Nem toda a gente sabe, olhando para vários Rolex, qual é que tem mais valor. É preciso alguém que os saiba escolher”, explica a fonte da PSP ao Observador, acrescentando que esta tarefa é mais vezes feita por elementos mulheres. Ainda assim, os próprios elementos responsáveis pelo roubo dos relógios também têm de ter alguns conhecimentos nesta área. “Não é qualquer pessoa que sabe abrir uma bracelete de um relógio destes. Tem de ter algum conhecimento na área da relojoaria para poder tirá-lo rapidamente. Fazer os pontos de pressão nos sítios certos, e cada marca tem as suas especificidades”, adianta a mesma fonte.
Este é apenas o primeiro elo da cadeia. Como descreve o acórdão, “cada um dos elementos do grupo detém uma função específica em cada um dos ilícitos cometidos, e, por vezes, trocavam entre si, com vista a tentar ludibriar as autoridades policiais e evitarem ser identificados, assumindo um papel particular a cada momento, com a finalidade da prática de um crime e obtenção de lucro e divisão por todos”. Mas todos estão sempre ligados por telemóvel com auriculares ou walkie-talkies, enquanto mantêm as vítimas vigiadas e as seguem à distância.
Num dia no verão de 2024, pelas 21h, quando Selma entrou no JNCQUOI Avenida com a filha, Antoni e um cúmplice entraram logo a seguir. Queriam confirmar que ela usava um Rolex Daytona em ouro, de 30 mil euros. O esquema foi idêntico com Ana, vista no Delta Coffee House com um Audemars Piguet Royal Oak de diamantes (avaliado em 91.599 euros), e com Manuel, no Centro Comercial Vasco da Gama, a usar um Rolex em ouro de 40 mil euros.
No caso dos quatro assaltos de Antoni na Avenida da Liberdade, todo o trabalho de “prospeção” acabou gravado. As imagens de videovigilância do JNCQUOI, da loja da Louis Vuitton, dos hotéis VIP Executive e Martinhal e até da sede do Partido Comunista Português (PCP) captaram os passos do grupo. No processo, a defesa do arguido ainda tentou invalidar estas gravações, alegando tratar-se de “prova proibida” por filmarem a via pública sem autorização. Mas o requerimento não foi acolhido pelo tribunal, que declarou as imagens legítimas por servirem para a proteção de pessoas e bens e não violarem a intimidade dos assaltantes. Nelas, e segundo o acórdão, era visível o vaivém dos dois elementos a vigiar os alvos, as suas fisionomias e roupas que usavam, e o momento em que Antoni conversava com cúmplices num automóvel SAAB de matrícula espanhola estacionado nas imediações.
Alvo identificado, segue-se a espera pela melhor oportunidade — que nem sempre acontece no local do primeiro avistamento. Seja à porta de casa, como aconteceu a Julia, seja em rampas de acesso a unidades hoteleiras, como no Hotel Martinhal Lisbon Oriente, no Parque das Nações.
“Dá cá o watch!” O método dos falsos acidentes, os “disfarces” das mochilas e as scooters “ágeis”
Apesar de serem vários os indivíduos a fazer este tipo de assaltos, a fonte da PSP assinala que não se trata apenas de um “gangue do Rolex”. Na verdade, existem vários grupos. O que os une é “apenas o alvo”. Mas, por isso, os métodos divergem.
Quando o roubo acontece no meio do trânsito lisboeta, na maior parte dos casos, é provocado um falso acidente para que o condutor — que na maior parte das vezes ostenta um relógio no pulso da mão que está no volante — saia do carro para ver os danos causados. Misturados no fluxo de trânsito nas suas scooters, os assaltantes seguem as vítimas e embatem deliberadamente na traseira ou lateral dos carros.
Esta abordagem requer, por isso, uma lógica de fuga rápida. Ao Observador, a fonte policial detalha que os assaltantes priorizam “vias largas” e com “acessos imediatos” a vias rápidas — para conseguirem desaparecer mais depressa. Para isso, preferem usar motas (“predominantemente scooters”) como forma de deslocação, uma vez que além da “agilidade”, servem de “disfarce” entre os milhares de estafetas de entrega de comida que andam também com as mochilas verdes e amarelas às costas.
Em fevereiro deste ano, às 15h52, Anjad conduzia o seu Mercedes A250 Limousine branco na rampa de acesso ao IC16, na Amadora, quando foi abalroado duas vezes na traseira por duas scooters. Ao sair do carro para verificar os danos, Anjad foi abordado por Edileno, que colocou a mão na cintura e ordenou: “Dá cá o watch [relógio]! Rápido, senão rebento-te a cabeça!”, arrancando-lhe do pulso um Rolex Datejust avaliado em 12 mil euros. No despacho de acusação de Edileno, a que o Observador teve acesso, o brasileiro de 26 anos ficou detido preventivamente na Judiciária.
Dois dias depois, perto do Liceu Francês, nas Amoreiras, o novo alvo foi o condutor de um Range Rover. Após o embate simulado na lateral direita do jipe por parte do cúmplice de mochila amarela da Glovo, Edileno aproximou-se da janela e exibiu uma faca de cozinha, com 34 centímetros de comprimento total e 21 de lâmina. Apontando-a diretamente ao corpo do condutor, gritou: “Isto é um assalto, passa para cá o relógio!”. O grupo roubou o relógio, acreditando tratar-se de um valioso Rolex Daytona, mas a vítima viria a declarar às autoridades que a peça valia, afinal, apenas 200 euros.
Outra armadilha comum descrita pelas investigações consiste em bater ou virar o espelho retrovisor do carro da vítima. É esperado que, intuitivamente, o condutor baixe o vidro para endireitar o espelho, sendo nesse instante abordado pelo assaltante. Noutras ocasiões, os assaltantes aguardam que a vítima estacione e se desloque para o interior do seu hotel ou casa.
Apesar da violência exercida em alguns assaltos — por vezes com coronhadas —, fonte policial esclarece ao Observador que “não há notícia de utilização efetiva de armas de fogo contra pessoas”. Nas investigações recentes da PSP, acrescenta que não há registos “de armas verdadeiras, ou são réplicas, ou são reproduções”. Ainda assim, admite a probabilidade de existirem armas reais em circulação: “Acredito que existem armas verdadeiras a praticar este tipo de crime”, embora, na PSP, não haja “uma evidência concreta de uma arma verdadeira que tivesse sido utilizada”. O mesmo responsável ressalva, contudo, que “a Polícia Judiciária terá evidências de outra natureza”, uma vez que os roubos com recurso a armas de fogo recaem na esfera exclusiva de investigação da Judiciária.
Da “mão de obra” itinerante às “réplicas do terramoto europeu”: como Portugal entrou na rota das redes de Rolex
No processo em que Antoni foi julgado, é feito o seu perfil. Nascido na Venezuela, emigrou em 2019 por razões económicas para Madrid, onde residia num quarto alugado em Hortaleza. Com a sua autorização de residência temporária em Espanha já caducada, trabalhava como estafeta para a Glovo e a Uber. Por mês ganhava entre 800 e 1500 euros. Porém, Antoni tinha uma dívida de 3 mil euros acumulada junto de amigos e mais: tinha um consumo severo de drogas — consumia cocaína desde os 17 anos, que por sua vez lhe consumia quantias elevadas.
Em traços gerais, as autoridades falam em grupos de “mão de obra” itinerante, sem raízes, família ou emprego fixo em Portugal. Chegam, atuam e voltam a desaparecer. Voltam a Espanha no primeiro voo ou autocarro para apagar o rasto e não deixar uma “mancha criminal” fácil de mapear pelas polícias.
No caso de Antoni, o venezuelano foi identificado na sequência de uma reunião de cooperação policial internacional de emergência em Salamanca, em outubro de 2024, que juntou investigadores portugueses e espanhóis. A polícia portuguesa tinha detetado um veículo de marca SAAB com matrícula espanhola estacionado perto do restaurante JNCQUOI, cujos ocupantes conversavam com Antoni nas gravações das imagens de videovigilância. Foi a partir delas que Antoni foi identificado e emitido o alerta.
No dia seguinte, agentes da PSP localizaram Antoni na Rua Rodrigues Sampaio junto à Yamaha NMAX utilizada nos assaltos, que circulava com uma matrícula que tinha sido furtada dias antes. Um dos agentes aproximou-se de Antoni simulando ser um turista a pedir indicações para uma loja da Louis Vuitton. Ao agarrar-lhe o braço e dizer o seu nome, Antoni ainda tentou fugir a correr, mas foi detido. Na sua mala a tiracolo preta ocultava a pistola metálica de airsoft da Swiss+Arms com o respetivo carregador e uma chapa de matrícula espanhola.
As investigações da PSP e da Polícia Judiciária confirmam a dimensão transnacional destas redes, cujos operacionais não se fixam em lado nenhum por muito tempo: “Estas redes de itinerantes operam quase todas da mesma maneira. Evitam estar muito tempo sediadas num país porque criam uma mancha criminal muito grande e o perigo de serem apanhados aumenta dia a dia”, aponta a fonte policial.
O padrão geográfico e demográfico destas células tem vindo, contudo, a mudar. “Temos os italianos que acho que foram na Europa os pioneiros neste tipo de comércio. Os italianos já nos apareceram cá [em Portugal] há mais de cinco anos a fazer exatamente isto. Mas entretanto não tem havido este tipo de fenómeno assim tão bem organizado”, explica a mesma fonte da PSP. “Temos agora muito forte a comunidade brasileira a fazer este tipo de roubo, já com uma violência mais fora do comum do que aquela a que estávamos habituados.”
Apesar da escalada, a realidade nacional ainda está longe do cenário vivido noutras capitais: “Isto tem uma expressão muito grande a nível europeu. Nós só agora é que estamos a sentir as réplicas deste terramoto, que já dura há muito tempo na Europa.”
A grande atratividade do país, neste momento, resume-se ao custo-benefício. “Portugal neste momento é bom para eles fazerem isto porque estão a conseguir safar-se Q.B. Se nós começarmos a apertar muito a malha, Portugal deixa de ser um destino lucrativo destas redes e muito provavelmente vão deixar de mandar para cá células, porque começa a ficar-lhes caro: as pessoas ficam presas e os relógios não vão render dinheiro”, adianta a mesma fonte.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]