O controlo do ritmo de subidas dos preços é uma prioridade da Reserva Federal dos EUA e, sublinha o novo líder do banco central norte-americano, é “necessário estar confiante de que a inflação está a mover-se em direção ao objetivo“. Caso se constate que ela não está a mover-se nesse sentido, afirma um lacónico Kevin Warsh, então “temos um trabalho a fazer”. A mensagem pode aumentar a tensão entre a Fed e a Casa Branca.
Kevin Warsh, o homem que está há poucos meses na liderança do banco central mais poderoso do mundo, tem sido criticado por falar pouco e dar poucas orientações aos mercados sobre os planos da política monetária da Reserva Federal. Num discurso, por isso, muito aguardado, o responsável surgiu no simpósio anual da Reserva Federal em Jackson Hole (Wyoming) com uma mensagem firme contra os riscos de inflação demasiado elevada.
O objetivo de uma inflação nos 2% é um objetivo “sólido e fixo”, sublinhou o responsável, que sucedeu a Jerome Powell e participa por estes dias, pela primeira vez como presidente da Fed, no simpósio de Jackson Hole, frequentemente utilizado por quem ocupa este cargo para transmitir mensagens importantes sobre a política monetária.
A Reserva Federal, ao contrário do BCE, por exemplo, tem dois mandatos: o controlo da inflação e a criação de boas condições para o crescimento da economia e do emprego. Mas Kevin Warsh deixa claro que está mais preocupado com o primeiro mandato do que com o segundo: a economia tem tido um desempenho “impressionante”, porém as “tendências subjacentes” na inflação não estão a melhorar como seria desejável.
Os comentários podem ser interpretados como um sinal de que uma possível subida das taxas de juro pode estar em cima da mesa no futuro. “O foco principal da Fed neste momento deve ser [a evolução do ritmo de subida dos] preços”, disse Warsh. “Precisamos de ter a certeza de que a inflação subjacente está a aproximar-se do nosso objetivo, de forma clara e com velocidade suficiente. Caso contrário, teremos um trabalho a fazer”.
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Apesar de a taxa de juro nos EUA estar num intervalo entre 3,5% e 3,75%, o líder da Fed indicou que, na sua leitura, a atividade económica não está a ser penalizada por este nível de taxas. Por isso, tendo em conta a ênfase dada no discurso à luta contra a inflação, os participantes nos mercados financeiros ficaram mais convencidos de que uma nova subida dos juros – possivelmente já em setembro – é um cenário possível.
Após o discurso, subiu para mais de 50% a probabilidade de um aumento da taxa de juro em setembro, de acordo com aquilo que está implícito nos preços registados nos mercados de futuros de taxas de juro. Já em julho, na última reunião, a Fed decidiu manter os juros na mesma, mas três membros do conselho votaram por uma subida e outros sinalizaram que poderiam passar a defender o mesmo.
Visão de Warsh arrisca aumentar tensão com Casa Branca
Kevin Warsh, nomeado por Trump para substituir o muito criticado Jerome Powell, tem-se mantido discreto nas intervenções públicas que fez – incluindo na que fez em Sintra, no início de julho. Este discurso foi, no entanto, mais claro e poderá aumentar a tensão entre Warsh e Scott Bessent, o secretário do Tesouro que foi um dos maiores defensores da escolha de Warsh para aquele cargo.
A intervenção de Warsh surge numa fase de muita tensão nos mercados de obrigações, que levou Bessent a anunciar que o Departamento do Tesouro vai fazer intervenções (compras de títulos) de longo prazo para conter as taxas de juro de longo prazo que são determinantes para os custos que os americanos suportam, por exemplo, com os créditos à habitação.
Com as eleições intercalares de novembro a aproximarem-se rapidamente, Warsh não fala diretamente sobre se concorda ou não com essas compras de dívida e com essa intervenção, mas a mensagem do líder da Fed contraria a visão que é transmitida pelo Tesouro. Subjacente à intervenção do Tesouro está a ideia de que os mercados financeiros estão, de alguma forma, disfuncionais, apresentando taxas das obrigações que não têm correspondência com aquilo que os fundamentos da economia deveriam proporcionar.
Mas Warsh não escondeu que vê as coisas de forma bem diferente. “Dificilmente concordaria que se dissesse que as atuais condições financeiras estão a ser restritivas da atividade económica“, afirmou Warsh, deixando implícito que, na sua visão, o mercado está a funcionar e deve-se deixar que isso aconteça, com o mínimo de intervenção.
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