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(A) :: Como o "Quem Quer Ser Milionário" da Lituânia mudou a vida do (agora) treinador do Sabah do Azerbaijão

Como o "Quem Quer Ser Milionário" da Lituânia mudou a vida do (agora) treinador do Sabah do Azerbaijão

Tem medo de "parar de aprender e de evoluir". O conhecimento começou longe do futebol, mas foi esse conhecimento que levou Valdas Dambrauskas para o campo. Pegou no prémio e investiu-o num sonho.

Manuel Conceição Carvalho
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Em 2002, um estudante lituano de 25 anos sentou-se numa cadeira de estúdio, debaixo dos holofotes de um programa de televisão, e respondeu a perguntas por dinheiro. Não era jogador de futebol profissional. Nunca tinha sido. Também não tinha qualidade para ser. Mas tinha um sonho muito claro – e a versão lituana do “Quem Quer Ser Milionário?” seria, sem que ninguém soubesse, o primeiro passo para o concretizar. Valdas Dambrauskas saiu do estúdio com 4.000 litas na mão – o equivalente a pouco mais de 1.000 euros na altura –, comprou um bilhete de avião para Inglaterra e nunca mais olhou para trás.

Dambrauskas não ganhou o grande prémio. Saiu do programa depois de falhar uma pergunta – qual o país que publica mais jornais diários por dia? A resposta certa era o Japão. Com o prémio que tinha ganho até aí, comprou um bilhete de avião e viajou para Londres com a mulher. A fotografia de um jovem Dambrauskas sentado na cadeira do programa voltou a circular nas redes sociais depois da qualificação do Sabah, e tornou-se viral.

O que a fotografia não mostra é a outra parte da história: Dambrauskas é obcecado por conhecimento fora do futebol. Preparava-se para concursos de perguntas e respostas lendo cerca de 19 livros por mês e o xadrez era outro dos seus refúgios intelectuais.

Depois do estúdio televisivo, o plano era simples, mesmo que arriscado: ir para Londres, aprender inglês, estudar ciências do desporto e entrar no futebol pela única porta que estava aberta: o treino. “Surgiu a possibilidade de ir para Inglaterra. Fui para uma vida melhor mas com uma ideia clara: tentar entrar no mundo do coaching”, contou anos depois. O inglês era limitado. O dinheiro, ainda mais. Para pagar as contas em Londres, Dambrauskas distribuiu jornais, trabalhou numa loja e esteve num jardim de infância. À noite e aos fins de semana, frequentava cursos de treino e batia às portas das academias dos clubes ingleses. Fulham, Manchester United e Brentford abriram-lhas – em funções nas equipas jovens, longe dos holofotes, mas suficientes para aprender o ofício por dentro.

Licenciou-se em 2009 na London Metropolitan University e assumiu o comando técnico da seleção lituana de Sub-17 nesse mesmo ano. A sua carreira formal como treinador de clubes tinha começado dois anos antes, no Kingsbury London Tigers, uma equipa da nona divisão inglesa. O regresso à Lituânia deu-lhe a sua primeira oportunidade no futebol de topo. No Ekranas, foi primeiro adjunto de Valdas Urbonas e depois assumiu o comando principal. Em paralelo, orientou a seleção lituana de sub-19. Impressionou o suficiente para ser contratado pelo Zalgiris, o clube mais titulado do país – e fê-lo antes de completar 37 anos. “Não consigo imaginar o que teria acontecido sem aquele programa, mas acredito que teria encontrado uma forma de atingir o meu objetivo”, disse, sem dramas.

O que se seguiu foi uma carreira itinerante que o levou por meia Europa. Três anos no RFS da Letónia, uma passagem pelo Gorica da Eslovénia, um breve e turbulento capítulo no Ludogorets da Bulgária – onde durou apenas alguns meses, numa das raras paragens de que não saiu com notas muito positivas. Mas foi no Hajduk Split que voltou a aparecer em grande. O clube croata, um dos mais emblemáticos dos Balcãs, estava num período difícil quando Dambrauskas chegou, em 2021. Conseguiu estabilizá-lo e deixou uma impressão suficientemente boa para que o seu nome continuasse a circular em mercados cada vez mais exigentes. Seguiram-se passagens pelo OFI Creta, pelos cipriotas do Omonia e pelos húngaros do Diósgyőr.

O Sabah chegou em 2025. O clube azeri, fundado em 2017 – tem menos de uma década de existência –, tinha acabado de se tornar campeão nacional pela primeira vez. A missão de Dambrauskas era dar-lhe uma dimensão europeia. O lituano aceitou o desafio. “O Sabah é a melhor equipa que treinei na minha carreira”, disse, sem hesitar. Em campo, a afirmação foi ganhando substância ao longo da pré-eliminatória da Liga dos Campeões, onde o clube azeri eliminou os israelitas do Hapoel Beer-Sheva numa noite dramática: esteve a perder no marcador agregado, marcou aos 74′, depois aos 94′, para forçar o prolongamento, e acabou por triunfar. Quando o apito final soou, Dambrauskas tinha feito história: o Sabah tornava-se o segundo clube azeri a qualificar-se para a fase de liga da Champions, depois do Qarabağ.

https://twitter.com/AzeriTimes/status/2093093620718903740

“Hoje sou o treinador mais feliz do mundo”, declarou logo após a qualificação. “Os adeptos que estiveram no estádio não vão esquecer esta noite. Eu também não“, garantiu. A frase era sincera – mas o contexto tornava-a ainda mais significativa. O Sabah vai defrontar Arsenal, Barcelona, B. Dortmund, Nápoles, Estrela Vermelha, Villarreal, Manchester United e Viking. Um clube com menos de dez anos de história, liderado por um treinador que começou a sua carreira a distribuir jornais em Londres com o dinheiro de um concurso televisivo, vai sentar-se à mesa dos maiores do mundo.

Dambrauskas tornou-se também, com esta qualificação, o primeiro treinador lituano da história a orientar uma equipa na fase de liga da Liga dos Campeões – um detalhe que não passou despercebido no seu país natal. A Lituânia não é uma potência do futebol europeu, e nenhum dos seus treinadores tinha chegado a este ponto. Ele chegou. Sem ter jogado um único jogo de futebol profissional. Com 4 mil litas, um bilhete de avião, inglês limitado e uma convicção que nunca vacilou. “Não consigo imaginar o que teria acontecido sem aquele programa”, disse. O programa foi apenas o pretexto. A história que Dambrauskas escreveu desde então pertence, toda ela, a ele.

Em entrevista ao Flashscore, Dambrauskas descreveu ao pormenor a metodologia que seguiu em Londres – uma progressão quase obsessiva, etapa a etapa, sem saltar nenhum degrau. “Desde o primeiro dia que cheguei, era tudo sobre o sonho de me tornar treinador de futebol. Foi por fases: primeiro aprender a língua. Depois inscrever-me no Curso de Nível 1. Depois no Nível 2. Depois ganhar experiência com a primeira sessão de treino em futebol jovem. Depois arranjar um lugar numa academia profissional ou semiprofissional. Depois a licenciatura em Ciências do Desporto. Fui a todos os cursos e conferências que foram possíveis”, recordou. A frase que talvez melhor o defina, porém, é esta: “O meu maior medo é parar de aprender e de evoluir”, revelou.

Não ter sido jogador profissional é, para Dambrauskas, menos uma limitação do que um ponto de partida para uma exigência diferente. “Os treinadores que nunca jogaram futebol compensam essas lacunas estudando e aprendendo todos os dias. Trabalhei e continuo a trabalhar todos os dias, para melhorar”, desvalorizou. A filosofia que desenvolveu ao longo desse processo tem uma palavra-chave: domínio. “Se uma palavra pode descrever a minha forma de jogar, é domínio”, explicou. É também a forma como aborda a relação com os jogadores – à distância zero. “Só compreendendo o ser humano é que se consegue treinar um jogador de futebol. No passado, um treinador mantinha distância dos jogadores. A minha filosofia é ser o mais próximo possível deles”, defendeu.

O Sabah vai encontrar na Champions rivais de uma dimensão que nunca enfrentou. Barcelona, Arsenal, B. Dortmund, Manchester United, Nápoles – nomes que fazem parte da história do futebol, não da de um clube que tem menos anos do que alguns dos seus jogadores levam de carreira profissional. Dambrauskas não foge ao desafio – na verdade, parece deixá-lo ansioso. A filosofia de domínio vai ser testada, pela primeira vez, contra os melhores do mundo. E o homem que começou a sua carreira a distribuir jornais em Londres, com o inglês a meio e o sonho intacto, vai sentar-se num banco técnico ao lado dos maiores nomes do futebol europeu. Agora, 24 anos depois de um estúdio de televisão em Vilnius, o programa de perguntas e respostas continua – só que desta vez as perguntas são feitas em Manchester, em Londres e em Barcelona.