Por mais discreto que fosse o coordenado de blazer e saia em midnight blue, a princesa de 21 anos chamou sobre si as atenções. Em dezembro de 2025, no contexto da entrega do Nobel da Paz a Maria Corina Machado, em Oslo, a jovem juntava-se aos então príncipes herdeiros na receção em Oslo. Os Reis Harald e Sonja falhariam o tradicional banquete, sendo a primeira vez que o monarca faltava ao evento desde 2003 — quando se submeteu a uma cirurgia a um cancro na bexiga. No cenário da residência oficial da realeza norueguesa, a foto de família antecipava uma composição com peso crescente, com a progressiva deterioração da saúde de Harald V no horizonte. Se Haakon era o senhor que se seguiria no trono, pouco a pouco ficava claro que se intensificavam as aparições públicas da agora herdeira do trono, um papel que não é novo para a princesa.
No Palácio Real, na capital norueguesa, Haakon VIII e Ingrid foram fotografados esta sexta-feira na reunião extraordinária com o Governo do país, no rescaldo das notícias. Vestida de negro, num look clássico rematado com uma clutch e pasta pela mão, Ingrid foi a expressão da formalidade que o momento exigia. Se quatro anos antes visitava o Gabinete vestida com um delicado e feminino vestido branco, na companhia do pai e do avô, a mudança no vestuário é ilustrativa da nova mensagem. Na próxima terça-feira, pelas 12h00 de Lisboa, deverá secundar o novo monarca no juramento por escrito da Constituição norueguesa perante o Storting, o Parlamento do país, mais uma etapa protocolar após a morte de Harald V.

É a primeira vez na história recente que a figura que se torna o número dois na linha de sucessão já é maior de idade. Como herdeira adulta do trono, aos 22 anos, a princesa também pode sentar-se no gabinete com o Rei, mas sem direito a voto ou responsabilidade pelas decisões tomadas. A nova fase pressupõe ainda um novo papel constitucional. Se o Rei Haakon estiver no estrangeiro ou impedido de cumprir os seus deveres como chefe de Estado por motivos de saúde, Ingrid Alexandra assumirá como regente e exercerá temporariamente o poder real.
A questão esteve já em cima da mesa nos dois últimos anos. Perante a vulnerabilidade na cúpula da coroa, o Parlamento da Noruega quis estabelecer uma regência formal. A iniciativa remonta ao outono de 2024, quando representantes do Partido Trabalhista, do Partido Progressista, do Partido Centro, do Partido Conservador, do Partido Liberal e do Partido Democrata Cristão introduziram uma proposta exigindo uma emenda constitucional e uma maioria de dois terços no Storting. A reforma, em revisão pela Comissão Permanente de Controlo e Assuntos Constitucionais antes do seu debate parlamentar e votação que estava agendada para 3 de novembro, permitiria à princesa Ingrid Alexandra servir como regente se o Rei Harald ou o príncipe Haakon não pudessem presidir ao Gabinete. Com as alterações atuais na linha de sucessão, a formalidade é dispensada para Ingrid, mas a hipótese de revisão continua em cima da mesa.

Da presença nos festejos do Dia da Constituição Norueguesa às fotos oficiais que marcam datas comemorativas, a sua imagem está longe de ser estranha para os noruegueses. Esta sexta-feira, após a notícia da morte do monarca mais velho em funções na Europa, Ingrid Alexandra acompanhou o seu pai na reunião extraordinária com o Governo norueguês, juntando-se, aos 22 anos, a Haakon VIII no juramento da Constituição norueguesa, num claro reforço do seu papel no futuro próximo.
No passado dia 10 de agosto, ao mesmo tempo que anunciava que o seu irmão, o príncipe Sverre Magnus, vinha estudar para Lisboa, no Forward College, a Casa Real norueguesa informava que Ingrid Alexandra iniciava um intercâmbio na Faculdade de Ciências Sociais (com foco nas áreas de política e resolução de conflitos) da Universidade de Oslo, vinda da Universidade de Sydney, onde estudou até há bem pouco tempo. A chegada de Ingrid foi aberta para a cobertura da imprensa, o que não deve ocorrer com Sverre. “Não estão previstas condições para que a comunicação social faça a cobertura do início dos estudos do Príncipe Sverre Magnus”, dizia o texto, acentuando a assimetria nos papéis e responsabilidades. Agora primeira na linha de sucessão ao trono, a princesa é vista como uma esperança para a monarquia na Noruega, depois do escândalo do meio irmão, Marius Borg Hoiby, condenado em fevereiro por mais de 30 crimes, incluindo duas violações; e diante do estado da sua mãe, a princesa Mette-Marit, que chega a consorte num ano especialmente turbulento para a coroa norueguesa, e cuja condição de saúde poderá condicionar os próximos passos. Em junho, a até aqui princesa real, que desde 2018 enfrentava os sintomas mais severos de uma fibrose pulmonar, foi submetida a um transplante de pulmão.
O contexto do Nobel no final do ano passado coroou um trajeto que tem sido pautado por uma agenda cada vez mais recheada. Em abril de 2025, a irmã mais velha do príncipe Sverre Magnus, de 20 anos, brilhou com um vestido azul que resgatou do guarda-roupa materno, naquela que foi a sua estreia num banquete de Estado. Já em junho, por ocasião da visita à Noruega do casal Macron, surgiu em mais um momento de gala, agora com uma criação rubra Vivienne Westwood.

Em 2020, uma foto a preto e branco, publicada na conta oficial de Instagram da família real norueguesa, assinalava uma data ainda a alguma distância da maioridade, mas que antecipava já as futuras funções de Ingrid. A 21 de janeiro daquele ano, quando cumpria 16 anos, a imagem mostrava uma adolescente que em bom rigor era a segunda na linha de sucessão ao trono da Noruega, caminhando a passos largos para o papel de Rainha, que se espera que venha a assumir um dia. Os contornos ganham valor extra se pensarmos que se tornará assim na segunda figura feminina na história do país a desempenhar tais funções, depois do reinado da soberana Marguerite, que nos obriga a recuar até ao período de 1387 a 1412.
Dois anos mais tarde, em 20 de janeiro de 2022, um dia antes de a princesa cumprir os 18 anos, visitava os três ramos do Governo norueguês: o Storting, o Supremo Tribunal e o gabinete do primeiro-ministro, um caminho idêntico ao que o seu pai fizera em 1991. À época, a Vogue Scandinavia contava como a princesa fora ao armário da mãe, Mette-Marit, para compor os seus looks, fórmula sustentável que tem vindo a repetir em diferentes ocasiões.
“Algumas das peças que fazem parte do arquivo da princesa herdeira são um blazer cor de rosa Stella McCartney que a jovem princesa emparelhou com uma bolsa beringela de Aspinal of London (…) Para os retratos oficiais do seu aniversário, a princesa Ingrid foi retratada com um vestido preto que a princesa usou pela primeira vez em 2004”, descreviam. Páginas informais na internet que seguem a par e passo o guarda-roupa público da princesa registam o recurso a itens tão diversos como peças da popular H&M, gabardines Totem, cardigans Mara Hoffman, ou fatos da marca de slow fashion de Oslo Krohn.
No dia de seu aniversário em 21 de janeiro, participou numa reunião do Conselho de Estado ao lado do então príncipe herdeiro Haakon e do Rei Harald. Seguiu-se uma série de homenagens, parabéns de representantes dos ramos governamentais, bem como do Parlamento Sámi, dos governadores do condado, do corpo diplomático, das Forças Armadas norueguesas e da Igreja da Noruega. Em 16 de junho, realizou-se um jantar para marcar a data na Biblioteca Pública de Oslo, e no dia seguinte os avós ofereceram um jantar de gala no Palácio Real, a que compareceram representantes de várias casas reais europeias. Para a ocasião, Ingrid elegeu um vestido longo Monique Huillier e um par de Louboutins.
Graças a uma alteração na Constituição, em 1990, os primogénitos garantem prioridade absoluta na pretensão ao trono, independentemente do género. À época, o príncipe herdeiro manteve-se em posição privilegiada face à sua irmã mais velha, Martha Louise, passando a nova moldura a aplicar-se aos seus descendentes. Ingrid Alexandra representa a quinta geração da família real norueguesa da Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, também conhecida pelo nome abreviado de Casa de Glücksburg, o ramo sobrevivente sénior da germânica Casa de Oldenburg, uma das casas reais mais antigas da Europa. Os membros da casa de Glücksburg têm reinado em várias ocasiões na Dinamarca, Noruega, Grécia, Reino Unido e nos estados do norte da Alemanha. O seu nome deriva da sede da família em Glücksburg, uma pequena cidade em Schleswig-Holstein, Alemanha.
Nascida a 21 de janeiro de 2004, no National Hospital, em Oslo, para a princesa, a educação formal começou em 2010, na escola primária Jansløkka. Em 19 de junho desse ano, foi uma das damas de honor do casamento real sueco que uniu a sua madrinha, Victória, Princesa Herdeira da Suécia, a Daniel Westling. Fã dos animais, do esqui, do surf e do kick boxing, teve num festival de saltos de esqui em Holmenkollen um dos seus primeiros compromissos oficiais. E com apenas cinco anos, participou no Dia do Ambiente ao lado de outras crianças que desfilaram pelo palácio.
Em 17 de junho de 2014, a família real norueguesa anunciava que, desde o início do ano letivo de 2014-2015, Ingrid Alexandra iria transferir-se para a Escola Internacional privada de língua inglesa de Oslo, apostados na fluência em inglês da jovem herdeira. Em 2016, Ingrid acendeu a tocha dos Jogos Olímpicos da Juventude de Lillehammer. Em 2018, foi uma das anfitriãs do príncipe William e de Catherine, então ainda duques de Cambridge, quando o casal visitou oficialmente a Noruega.

Mas foi em 31 de agosto de 2019 que viveu um dos momentos públicos de maior protagonismo, quando se realizou a confirmação da princesa na fé luterana, um ritual de passagem para muitos adolescentes noruegueses, e no caso em particular uma obrigação constitucional para os membros da coroa.
A cerimónia decorreu na capela do palácio real, em Oslo, e foi dirigida pelo bispo da capital, Kari Veiteberg, e ainda pela bispa Helga Haugland Byfuglien, com o clã real a assistir em peso ao momento, e ainda com a presença de representantes das coroas espanhola, sueca e dinamarquesa, com as quais aliás Ingrid Alexandra tem afinidade — segundo a tradição real, as crianças podem ter cinco a seis padrinhos, e Ingrid foi apadrinhada por figuras como o avô paterno, a avó materna (Marit Tjessem), a tia (a princesa Märtha Louise), o Rei Felipe VI de Espanha, o Rei Frederik X da Dinamarca e a princesa Victoria da Suécia.
Para a ocasião especial, Ingrid vestiu um fato tradicional oferecido pelos avós e ainda uma pregadeira que a rainha Sonja mencionou ser uma reprodução de um acessório da sua avó Maja. E porque a natureza é um dos gostos e focos de atenção da jovem princesa, recebeu como presente nada mais nada menos que uma reserva natural. Isto é, o Governo norueguês atribuiu o seu nome à reserva Hengsåsen, em Bygdøy, onde os avós têm desde 2007 a sua residência de verão, e onde o clã se refugiou por algumas horas esta sexta-feira, antes de alinhar no cortejo que acompanhou a urna de Harald, do hospital até ao Palácio Real.

A princesa seguiu os estudos secundários na Escola Uranienborg de Oslo, onde fazia parte do conselho estudantil, e no outono de 2020 começou a estudar na Escola Secundária Superior de Elvebakken, também na capital norueguesa. Depois de 2023, Ingrid Alexandra trabalhou como assistente escolar e trabalhadora ambiental na Escola Uranienborg.
Em janeiro de 2024, a filha de Haakon e Mette-Marit iniciava os seus 12 meses de serviço militar como recruta no Batalhão de Engenheiros de Combate na Brigada Nord. Ingrid foi uma das 9.900 jovens norueguesas selecionadas para o serviço militar obrigatório naquele ano, tendo servido no campo Skjold, Øverbygd. A princesa usou o seu segundo nome, Alexandra, como sobrenome durante este período em que recebeu educação militar básica. Após a recruta, recebeu um cargo de serviço, passando por um período profissional com formação específica, seguido de formação e prática setoriais. Em setembro de 2024, o Tribunal Real Norueguês anunciou que estendera o seu serviço militar para 15 meses, prazo que cumpriu a 4 de abril de 2025.
É nesse ano, em novembro, que Ingrid concede uma rara entrevista ao norueguês VG em que aborda alguns tópicos mais sensíveis. A jovem encontrava-se na Austrália, onde começou a estudar Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade de Sydney. “Claro que é muito difícil para todos”, desabafou sobre o escândalo que envolve o meio irmão Marius Borg. A princesa comentou ainda que a distância da família enquanto estudava na Austrália acentuava as dificuldades, descrevendo os contactos telefónicos com a mãe, as longas mensagens de texto da avó, a rainha Sonja, e o “pouco digital” avô Harald. “Penso que a minha educação será relevante para o papel que terei um dia”, dizia ainda. Já em junho de 2026, chegava a notícia de que a princesa fora perseguida por um homem de 63 anos.
O caso acontecia numa altura em que Ingrid Alexandra se preparava para regressar à Noruega, informou o seu pai, o príncipe Haakon, numa conferência de imprensa no primeiro dia da visita oficial ao Japão. “Isso tem a ver com a situação familiar. Ela quer ficar com a mãe“, disse o então herdeiro ao trono da Noruega. Sobre o incidente, Haakon não comentou. “Sim, falei com Ingrid, mas não gosto de falar muito sobre segurança. A responsabilidade geral é do PST”.
Dos contextos mais formais para os ambientes mais efusivos, a princesa e o irmão Sverre Magnus estiveram em grande plano este verão, no âmbito do Mundial de Futebol nos EUA, saudando a caminhada da equipa norueguesa e chegando mesmo a privar com os jogadores no balneário, devidamente equipados com as cores da bandeira da Noruega.
Quando anunciou recentemente as novas etapas académicas de Ingrid e Sverre, a casa real avançou que a prioridade de ambos nos próximos anos será estudar, devendo comparecer aos compromissos oficiais da família apenas quando estes não interferirem com a agenda de estudos. O tempo dirá como será feita esta gestão no futuro próximo.