Quando falamos do podcast ideal, a primeira reação é um suspiro, seguido de imediato por um brilho no olhar que se faz acompanhar pela palavra “livros”. Discuti-los, declamar trechos ou, até, ler livros inteiros. “Há qualquer coisa na leitura que me fascina”, explica Ivo Canelas. Fica aqui a ideia registada, mas enquanto não se concretiza, é possível ouvir o ator a narrar A Vida Dupla do Espião Traidor, o novo Podcast Plus do Observador sobre Frederico Carvalhão Gil, um agente que roubou e vendeu segredos à Rússia.
Para este projeto, não sentiu necessidade de ir investigar além do guião porque o texto já lhe pareceu muito completo. “Explicaram-me o tom de forma muito concreta, tinha de ter algo misterioso e entertaining, baseado no jornalismo detalhado, mas sempre com descrições.”
Ivo Canelas, o ator que tanto adora teatro, como televisão ou cinema — só não gosta da monotonia de fazer sempre o mesmo — foi transportado para um universo completamente novo e pincelou esta história de espionagem com uma energia muito pessoal e uma voz já reconhecida por todos.
[o trailer de “A Vida Dupla do Espião Traidor”:]
https://www.youtube.com/watch?v=E_CPMucDuwE
Antes de chegar aqui, acumulou no currículo papéis de sucesso em todas essas plataformas e quase o perdemos para os EUA. Porém, é pelo início que temos de começar esta história, ou seja, pelo centro da capital portuguesa.
Ivo Canelas nasceu em Lisboa a 23 de dezembro de 1973. Cresceu nas Olaias com a irmã, Patrícia, cinco anos mais nova — o irmão, Afonso, só chegaria 20 anos depois —, entre a escola e os mimos da casa da avó materna, Geninha. “Ah, nunca mais comi sardinhas descascadas, fazia-nos tudo.”
Sempre foi um “bicho do mato”, palavras dele. Na escola era um miúdo solitário e, em casa, gostava de ficar no canto dele. Por vezes lia um livro, mas o mais provável era estar horas e horas no sossego da própria imaginação. Na família ouvia-se muita música brasileira, francesa e italiana, “de Chico Buarque a Jacques Brel”. Experimentou tocar guitarra, mas garante que não vai além dos acordes básicos — também tem um saxofone que comprou por gostar do som —, e chegou a fazer parte de uma banda de garagem. Chamava-se Cosmic Joke, tocava covers e Ivo era o vocalista “porque alguém tinha de ser”.
Um miúdo cheio de incertezas encontrou o propósito
Aos 16 ou 17 anos descobriu o cinema, muito graças aos conteúdos que passavam na RTP2. “Lembro-me de um ano passarem uma data de documentários sobre o Lee Strasberg e o método dele em particular e ali abriu-se qualquer coisa.”
O primeiro filme que viu num ecrã gigante foi O Gato Que Veio do Espaço. Seguiram-se histórias medievais e de ficção científica, cujos nomes já não recorda, mas que o fascinaram. Um dia, chegou a casa e disse aos pais que queria estudar representação. “Não foi nada fácil. Os meus pais alertaram-me para todos os contras, mas eu, que tinha poucas certezas na vida, tinha a certeza daquilo.”
Entrou no Conservatório, mas aí deparou-se com um certo desencantamento. “Não fiz o curso seguido, demorei uns anos porque aquele tipo de ensino não me servia, não estava a dar-me o que precisava para evoluir.”
Ainda no primeiro ano, estreou-se no teatro com Amo-te (1991), um texto de Abel Neves encenado por Almeno Gonçalves, no Teatro Cornucópia. “Lembro-me da quantidade de bibliografia que ele tinha para preparar a encenação e isso abriu-me um lado teórico importante, acho que despertou a minha curiosidade pela leitura e pela preparação. Essa experiência marcou-me muito.”
Porém, esse não foi o primeiro trabalho pago de Ivo Canelas. “Fiz de preservativo na Avenida da Liberdade.”
Contextualizemos: O Século das Luzes foi um cortejo histórico e teatral encenado por Filipe La Féria no âmbito de Lisboa 94 — Capital Europeia da Cultura. Incluiu centenas de atores, figurantes, músicos e bailarinos que representavam várias décadas. Ivo Canelas não se lembra como lá foi parar — provavelmente recrutado no Conservatório —, mas representou os anos 2000. “Ia morrendo dentro daquele fato, com o calor, mas ganhei cinco contos, o que na altura era bastante.”
Mal acabou o curso no Conservatório, ganhou popularidade com O Fura Vidas (1999), na SIC — antes já tinha tido pequenas participações em Médico de Família (1997) ou Diário de Maria (1998). “Isso deu-me alguma exposição que, por um lado, achava excitante mas, por outro, com a qual não sabia lidar.”
Foi então o momento ideal para se mudar para Nova Iorque para estudar no The Lee Strasberg Theatre & Film Institute (a semente que vinha lá de trás), um passo incentivado pelos pais, depois de ultrapassado aquele primeiro impacto do “não quero ser engenheiro, quero ser artista”. “Apesar de serem ambos da área de química, são pessoas com características artísticas muito marcadas e aplicam isso até na forma como trabalham, mas sobretudo como veem o mundo.”
Conseguiu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) e, nessa altura, foi o máximo de preparação que fez. Arranjou um sítio onde ficar apenas 12 horas antes de viajar e praticamente por acaso. “Fui para os copos [em Lisboa] e uma amiga minha tinha um grande amigo mexicano que andava no Strasberg [Lee Strasberg, o instituto]. Ele disse-me: ‘Toma [faz um gesto a simular a entrega de chaves], ficas em minha casa um mês até eu voltar’.”
Nova Iorque, descreve, “é como em todos os filmes que vemos. Somos todos Sarah Jessica Parkers [a atriz que protagoniza a série O Sexo e a Cidade]”. Chegou lá no final de agosto de 2001 e comprou um cartão telefónico para ligar para casa. “Lembro-me de estar não sei quanto tempo numa cabine a tentar encontrar a ranhura para passar o cartão, porque cá era assim, mas lá aquilo tinha uns números que era preciso riscar.”
Viveu um mês perto de Madison Square Garden, depois viveu em Times Square, num quarto com vista para um saguão e ainda partilhou casa com a também atriz Adelaide de Sousa. “No final, tinha uma casa em Brooklyn num quinto andar sem elevador, a meia hora a pé do metro, mas era meu. Foi maravilhoso.”
Estava lá há cerca de um mês quando se deu o atentado do 11 de setembro. Nessa manhã, quando acordou, já um companheiro de casa estava colado à televisão. “Estava uma torre a arder e eu faço um comentário parvo, porque não tínhamos a mínima noção do que estava a acontecer: ‘Também ardem torres na América’. Estou a acabar de dizer isto e embate o segundo avião na torre.”
Olhando para trás, o ator reconhece que a ficha só caiu (a ele e a muita gente) nesse dia à noite. Até lá, para muitos parecia um dia normal. “Lembro-me de passar pelos cafés e ser ‘business as usual’, as pessoas a comerem e a lerem as notícias. Estupidamente eu tentei ir às aulas. Demorou a percebermos a dimensão daquilo.” Para voltar para casa, foi uma epopeia. “Estava tudo fechado abaixo da 14th Street e eu não tinha documentos que comprovassem onde morava.”
Seguiram-se semanas estranhas, de “um grau de emoção coletiva”, mas em que Ivo Canelas recorda uma vontade de as pessoas serem afáveis e humanas, “a contrariarem a capa que a cidade as obrigou a construir”.
Ficou nove meses seguidos nos EUA. “Nova Iorque era tudo aquilo que imaginei porque Nova Iorque pode ser qualquer coisa. A escola fazia parte dessa possibilidade porque a representação faz parte de um cliché do entretenimento americano. O objetivo era construir uma carreira lá. Mas nunca senti que esses momentos, se concretizados, fossem uma garantia de continuidade.”
Com um pé em Portugal, participou em O Navio dos Negros (no teatro) ou em O Princípio da Incerteza (filme de 2002). Porém, houve um momento em que o sonho americano esteve perto da realidade. Estava de passagem por Lisboa quando começou a receber uma catadupa de mensagens da agente americana. “‘Fuck, oh my god, you did it! Everything’s gonna change! Fuck [Foda-se, meu Deus, conseguiste! Tudo vai mudar! Foda-se]!’. Tinha conseguido o papel de protagonista numa série para o Discovery Channel.”
Estava a entrar numa piscina e sentiu-se a flutuar. “Caminhei sobre a água várias vezes. Durante uma hora vivi um sonho incrível dentro de água. Não sei explicar, marcou-me tanto, mas não me danificou”, admite. Mas, de regresso ao balneário, nova sequência de mensagens da agente: “Oh fuck, oh no! Oh fuck [Foda-se, oh não! Foda-se]!”.
Afinal, os títulos dos vários castings que tinha feito na mesma semana tinham sido trocados. Afinal, o que tinha conseguido era um papel com três falas numa série — não o de protagonista. “Mas disse aquelas três frases com toda a convicção. Já nem me lembro do nome da série, era uma coisa de kung fu fighting.”
Nessa altura, não conseguir um papel não era sinónimo de frustração. Um casting levava a outro, era sempre uma possibilidade em aberto. “A parte difícil é manter essa liberdade ao longo do tempo.”
No reverso da medalha, estava em Nova Iorque quando recebeu uma proposta para integrar o elenco do filme O Mistério da Serra de Sintra (2006). “Considerei se devia vir ou não e achei que sim. O filme permitiu-me aplicar um monte de coisas que havia experimentado na escola. E isso foi muito interessante.”
Recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator de Cinema pelo papel de Eça de Queirós. Apesar desse reconhecimento e de ter trabalho por cá, continuou a passar temporadas em Nova Iorque até à pandemia de Covid-19. “Ficava lá três meses e fazia uma data de audições.”
Porque é que parou? “É aquela velha máxima de querer ter resultados diferentes fazendo as mesmas ações. Estava cansado e já não encontrava a energia de ir para lá e estar bumba, bumba, bumba.”
Para se aguentar financeiramente por lá, fazia trabalhos temporários. “Havia sempre imensos eventos, por exemplo feiras de brinquedos, que te ocupavam o dia inteiro e não pagavam mal. Era das seis da manhã à meia-noite. Estava em contacto com o público e praticava o inglês, dava-me algum gozo.”

Nunca precisou de ter um plano B, admite. Diz várias vezes, modestamente, que teve sorte. Porém, não é da sorte, mas sim da versatilidade de papéis tão distintos como Lucas Mateus, em Refrigerantes e Canções de Amor (2016); Apeles Espanca, em Perdidamente Florbela (2012); ou o carismático doutor em O Americano (2024) que o público se lembra. No teatro, o monólogo Todas as Coisas Maravilhosas (2018-2023) é, sem dúvida, o grande marco da carreira de Ivo Canelas.
O traço de “bicho do mato” nunca desapareceu, mas reconhece que está muito melhor desde essa peça, não ficando tão constrangido quando o abordam na rua. “Fui sendo surpreendido com muitas gentilezas e gosto de tentar responder de forma igual, dentro do que é possível, claro. Porém, partimos sempre do desequilíbrio de aquela pessoa saber quem eu sou e de eu não saber quem ela é.”
Apesar de ser muito pontual, detesta uma rotina demasiado repetitiva. É por isso que não gosta de estar demasiado tempo a fazer teatro. “A minha única exceção teatral mais longa foi essa. Era um espetáculo particular porque a interação com o público nunca era igual.”
Na história, o protagonista vai enumerando as coisas maravilhosas da vida, muitas delas banais mas especiais (como por exemplo, “número 1: gelados”, “número 7: pessoas a tropeçar”, “número 999: luz do sol”), enquanto a cronologia da vida dele vai incluindo temas como depressão, suicídio, conquistas e separações.
1h10 da versão original de Duncan MacMillan foi esticada para duas horas de um monólogo insano de intensidade emocional e física de Ivo Canelas. Porém, quando o espetáculo se estreou, em 2018, nem dez bilhetes estavam vendidos. “Fizemos um espetáculo para amigos, um espetáculo para colegas, um espetáculo para alunos do conservatório. O feedback era bom, mas não vendemos.”
Continuaram então em modo soft opening. Distribuíram convites e foram enchendo a sala. De repente, o boca a boca começou a dar frutos. A partir daí, difícil foi arranjar bilhetes, todas as sessões estavam esgotadas com muitas semanas de antecedência.
Quando decorou o texto, diz que teve uma visão muito simples dele — “aliás, continuo a ter” —, foram as pessoas que lhe foram explicando a mensagem. “A seguir ao espetáculo as pessoas iam dizendo: ‘Esta cena para mim é isto, a minha mãe não sei o quê’. E aquilo deixou de ser só a minha experiência no sentido da produção material do ator.”
Foi uma experiência tão única que Ivo não conseguia desligar o botão e era como se o espetáculo continuasse, mesmo depois dos aplausos finais, pelo Instagram dentro. “Era uma loucura a quantidade de mensagens que recebia. Cheguei a ser contactado por psicólogos.”
Tratava o público por tu, olhava cada uma das pessoas nos olhos antes de começar. Era desconcertante. Logo ali identificava quem seriam as pessoas que chamaria para darem vida a determinadas personagens. “Para mim, nunca houve ninguém que não fosse absolutamente genial.”
Podíamos estar a recordar dezenas, mas Ivo Canelas escolheu um senhor que devia interpretar o pai do protagonista, cuja tarefa era fazer um discurso importante para o filho. “Ele diz: ‘Desculpa, não sei o que dizer. Desculpa’. Aquilo fez chorar as pedras da calçada, a única pessoa que não viu o que estava a acontecer foi aquele senhor. Ninguém fez pouco dele, foi de uma tristeza muito bonita porque fazia todo o sentido naquele momento.”
Na pandemia, quando as salas reabriram, o espetáculo regressou. “Amei essa temporada. Eram 120 pessoas, metade da sala. O Covid obrigou-me, como ator, a retirar-me ainda mais daquele centro. Foi o facto de estarmos todos com máscara, desconfiados, com medo, mas com vontade de estar ali. Isso tornou o espetáculo brutal.”
Fez 278 apresentações e, no final, já tinha de vasculhar muito a sala para encontrar pessoas que estivessem ali pela primeira vez. “Se gostava de fazer mais hoje, não. Amanhã não sei.”
Do mergulho à jardinagem, há 1001 coisas que quer fazer além de representar
Aceita os papéis por instinto, pela equipa envolvida e pela qualidade do material. Por isso, seguem-se duas experiências no teatro. Vai fazer Closer [no Teatro Variedades, em Lisboa, a partir de novembro] porque é um texto que adora e queria muito trabalhar com o encenador Ricardo Neves-Neves, e depois um monólogo escrito por Gonçalo M. Tavares sobre o pensador e filósofo Eduardo Lourenço.
Adorava escrever outro tipo de monólogo, um stand-up para o próprio interpretar, mas admite que ainda não se sentou ao computador disposto a escrever alguma coisa (ou a estar ali horas e não lhe sair nada). Apesar de tudo isto, tem muito claro que não quer trabalhar até morrer. “Amo ver produções com atores mais velhos. Quando o texto é bom, é maravilhoso perdurar esse registo. Se me chamarem para algo que me faça sentido, ótimo, mas espero não depender do trabalho para sobreviver.”

Ao longo dos anos foi descobrindo muitas outras coisas que o fascinam — algumas devido à preparação para alguns papéis, como o mergulho a que dedica algum tempo. Os braços, ambos repletos de arranhadelas, denunciam outra atividade. Podia ser radical, mas é apenas jardinagem — “caí para cima de um cacto”. Lá em casa tem um cantinho com plantas, flores, árvores, “mas nada para comer”. Na pandemia mudou-se para a Margem Sul, onde não se sente tão claustrofóbico.
Tira muitas fotos, quase todas a preto e branco, e chegou a fazer uma exposição logo depois da pandemia. Em casa guardou três imagens que não vendeu. Uma delas é da avó Geninha (que morreu recentemente, aos 101 anos). Registou-a inúmeras vezes, quase sempre colada ao ecrã da televisão para conseguir ouvir a emissão. Dela fala com um carinho que lhe abranda a voz, mas com o mesmo entusiasmo com que aborda quase tudo.
Já de gravador desligado, a conversa vai dos apagões que até podiam beneficiar-nos à educação financeira, passando pela paternidade que nunca lhe interessou (ou nunca calhou), pelas tradwives e pela geração jovem que enche salas de teatro. Se nada disto teve ligação? Não. Se foi maravilhoso conversar sem seguir as perguntas que estavam preparadas? Foi. Número 25 943 da lista: fazer entrevistas que não precisam de guião.