Luís Montenegro foi resistindo enquanto pôde, mas perante a repetição de perguntas dos alunos da Universidade de Verão do PSD acabou por falar sobre a reforma da Segurança Social. O primeiro-ministro reiterou que não vai fazê-la nesta legislatura e que, se algum dia “propuser essa transformação estrutural, será na base de um compromisso que assumirei com o povo português antes das eleições“. Além dessa garantia, Luís Montenegro propôs também um pacto aos restantes partidos para resolver os problemas de sustentabilidade: “O meu desejo era que nós pudéssemos ter um entendimento nacional para que, independentemente da força política que ganhasse as eleições, todos se comprometessem a executar a transformação estrutural que dá sustentabilidade a este sistema.”
Como mexer no sistema de pensões é altamente impopular, mas é necessário, Montenegro faz assim um pacto que vincula todos e permite a reforma se concretizar a médio prazo. “Temos de nos entender e para nos entendermos precisamos de partir muita pedra.” É depois dessa discussão entre partidos, sobre “soluções” e “fontes de financiamento” que as forças políticas devem, defende, decidir “se vale a pena mudar por aqui, se vale a pena mudar por ali, com que conteúdo e com que previsão temporal.”
Montenegro diz ainda que a acusação de que o PSD quer “privatizar a Segurança Social, isso é tudo conversa”. O primeiro-ministro disse ainda, utilizando a mesma frase que o Presidente da República no fim de semana, que “as reformas são sagradas”. E volta a deixar a promessa: “Demitir-me-ei se algum dia for obrigado a cortar uma pensão. Não o farei. É um contrato que tenho com os pensionistas portugueses.”
Antes disso, Luís Montenegro já tinha sido por duas vezes questionado sobre o assunto pelos alunos — numa sessão por videoconferência anunciada uma hora antes — mas tinha fugido. Uma aluna tinha até perguntado ao primeiro-ministro sobre que reforma escolheria caso soubesse que ia ser mesmo realizada, ao que Montenegro brincou: “Eu agora respondia que era a reforma da Segurança Social e abríamos os telejornais”. O primeiro-ministro respondia à distância a partir da sede do PSD, em Lisboa, aos alunos que estavam em Castelo de Vide. Foram 10 perguntas.
O primeiro-ministro atrasou-se meia hora no evento com alunos porque a reunião das terças-feiras com António José Seguro se realizou esta semana, excecionalmente, à quinta-feira. O pacto entre partidos que Montenegro propõe para a Segurança Social vai ao encontro da posição que o Presidente da República defende para estas matérias.
Pedidos de demissão? Montenegro: “São ataques sem fundamento”
Num dia em que se mostrou ao lado de Luís Neves numa visita matinal ao Aeroporto, em Lisboa, o primeiro-ministro foi questionado pelos alunos sobre os pedidos de demissão a ministros e voltou a sugerir que não está nos seus horizontes substituir o ministro da Administração Interna. Para Montenegro trata-se de “ataques sem fundamento“, destacando que o Governo tem “uma fibra, uma filosofia, que é intocável: vamos continuar a defender as convicções.”
O chefe de Governo acrescenta ainda que “independentemente da espuma dos dias, e de asfixiarem o debate com coisas que correm mal, a responsabilidade [do Governo] é continuar a executar a sua política, os seus compromissos”. E atira aos “que privilegiam o ataque, aos que à mínima coisa saltam e depois se arrependem e aos que respondem às notícias”.
Montenegro promete ter “paciência” e “tolerância democrática” com as oposições
Na resposta aos alunos sobre a forma como lida com o PS e o Chega, Luís Montenegro defendeu “tolerância democrática de perceber que aos partidos da oposição compete, sobretudo, mostrar o que está mal.” Faz parte, lembrou num surpreendente espírito de fair play, as oposições serem “vozes que anotam as debilidades, as incorreções” e que “ninguém exercerá bem o poder, se não tiver o respeito profundo e democrático pelo pensamento dos outros.”
O primeiro-ministro acrescentou, no entanto, que se existe esta postura de “respeitar a oposição, também convém que as oposições respeitem quem está no Governo”, o que inclui que “tenham respeito pela decisão que conduziu a que o Governo fosse este e o primeiro-ministro português fosse, que foi o povo que escolheu.”
Montenegro diz ainda que “as regras do jogo estão definidas” e, por isso, é “muito estranho quando a Assembleia da República toma decisões contrárias à linha e à estrutura da governação.” O primeiro-ministro diz que “é possível fazer oposição sem invadir a esfera do Governo.” O primeiro-ministro acaba a concluir, magnânime, que é preciso ter “paciência” com a oposição, apesar de fazer muitas “asneiras e disparates”.