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(A) :: Gelo que derrete a uma "velocidade acentuada", um "tsunami fluvial" e a aldeia que sobreviveu: o glaciar de Langtang que abalou o Nepal

Gelo que derrete a uma "velocidade acentuada", um "tsunami fluvial" e a aldeia que sobreviveu: o glaciar de Langtang que abalou o Nepal

Uma larga porção do 99.º ponto mais alto do mundo caiu e, com ela, veio um grande glaciar que originou uma onda de destruição no Nepal. Região já tinha sido afetada por um sismo em 2015.

Martim Andrade
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Só uma casa ficou de pé após a avalanche. Antes do sismo, podia-se contar pelos dedos das mãos o número de turistas que visitavam a aldeia de Langtang de uma só vez. O destino, na maioria das vezes, era Langtang Lirung, o 99.º pico mais alto do mundo. A falta de infraestruturas turísticas prevenia aquele aldeamento no parque nacional homónimo de ter o seu boom de popularidade. Mas isso não impediu que, em maio de 2015, entre as vítimas da avalanche, tivessem sido descobertos os corpos de muitos cidadãos estrangeiros. Mais de uma década depois, aquela região voltaria a ser palco de uma nova tragédia que vitimou centenas, senão milhares, de nepaleses.

Como da tragédia se ergueu um hub turístico

No dia 25 de abril de 2015, mais de 8.000 pessoas morreram no Nepal, depois de um sismo de magnitude 7.9 ter abalado aquela região, deixando um rasto de destruição que atingiu ainda a China, a Índia e o Bangladesh. Mas a aldeia de Langtang foi uma das que mais sofreu. As forças do abalo provocaram uma avalanche no lado nepalês daquela cadeia montanhosa. E o deslizamento, que se estima ter tido uma largura de mais de dois quilómetros, não deu tréguas. Nos dias que se seguiram, o número de desaparecidos não parou de aumentar. Na altura, estimavam-se cerca de 300 desaparecidos. Mas a aldeia estava completamente soterrada e aquelas três centenas de pessoas nunca chegaram a ser encontradas com vida.

Mas daquela casa única que sobreviveu à catástrofe natural, haveria de emergir um autêntico hub turístico. As residências que foram reconstruídas em Langtang passaram a adotar uma mentalidade diferente, para começar a receber visitantes de todos os cantos do mundo, finalmente com uma infraestrutura qualificada para o elevado fluxo de alpinistas que queriam conquistar o Langtang Lirung, ou simplesmente chegar a este ponto remoto no mapa no meio dos Himalaias nepaleses. Afinal, várias organizações internacionais contribuíram para a reconstrução dos pontos mais afetados da região. E o Nepal aproveitou.

Durante pouco mais de uma década, Langtang tornou-se um destino popular, com vários hotéis e empreendimentos turísticos. Mas, até lá chegar, as autoridades locais tiveram de combater o “esquecimento” no panorama nacional, para reerguer a aldeia. “Nas semanas que se seguiram ao sismo, o governo admitiu que era possível que Langtang não regressasse”, explicou à Al Jazeera Austin Lord, um investigador norte-americano que estava na região durante o sismo e que acabou por escrever uma tese sobre a recuperação do território.

Tecnicamente, a “reconstrução” da aldeia de Langtang nunca aconteceu. Devido aos destroços provocados pela avalanche, a localização original do aldeamento tornou-se inacessível para os equipamentos de construção, pelo que toda a nova infraestrutura acabou por ser construída nas redondezas, num local livre dos escombros.

O trek até Langtang demora cerca de oito dias, de acordo com a maioria dos pacotes disponíveis online. O preço ronda valores entre os 300 e os 400 euros e inclui um guia e o alojamento ao longo do percurso. Os “melhores meses” para esta caminhada de dificuldade “moderada” vão de março a maio, e entre outubro e dezembro, deixando o verão fora dos períodos mais recomendados. E estas estas acabariam por ter razão, mesmo que a aldeia do lado sul da montanha tenha sobrevivido ao que aconteceu esta quarta-feira, quando um dos glaciares nos vales de Langtang voltou a separar-se da montanha a mais de 5 mil metros de altitude, num fenómeno que provocou a morte de mais de 350 pessoas, com milhares ainda desaparecidos entre os destroços.

Os glaciares que têm vindo a mirrar e um colapso da montanha

Desde 1974 que a área do glaciar de Yala tem vindo a diminuir. Se há 52 anos ocupava uma área de mais de 2 km2 nos vales de Langtang, aquela larga superfície gelada encolheu consideravelmente desde então. Aliás, um grupo de investigadores e especialistas em glaciologia chegaram a organizar uma cerimónia para assinalar o desaparecimento súbito do glaciar inserido na cordilheira nepalesa de Langtang Himal, que em 2025 estava 66% mais pequeno.

Hoje em dia, este glaciar é dos mais pequenos entre os principais daquela região. Mas é, ao mesmo tempo, um dos mais acompanhados pelos interessados nesta área científica. Sharad Prasad Joshi, o correspondente nepalês para o World Glacier Monitoring Service, admitiu que Yala pode desaparecer até 2040, apontando as culpas para os sucessivos registos de temperaturas altas que têm vindo a fazer derreter o glaciar nas últimas décadas. “Nestes últimos 40 anos em que tenho estudado este glaciar, vi-o mirrar com os próprios olhos. Receio que a próxima geração possa não ter a possibilidade de o ver”, admitiu à agência France Presse, à margem daquela cerimónia conduzida por monges budistas.

Mas não terá sido este case study a provocar a tragédia registada esta semana. As imagens satélite revelaram que uma “larga porção” do Langtang Lirung tinha desabado e, com ele, um glaciar, que repousava sobre aquela parte dos Himalaias nepaleses. “Foi um colapso muito maior do que tínhamos observado inicialmente”, admitiu a geomorfóloga Kristen Cook ao New York Times.

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António Guerner Dias, geólogo e professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, aponta para o facto de o Nepal estar a viver, neste mês de agosto, a sua época de maior atividade pluvial, mas também para o fenómeno que tem vindo a ser registado no glaciar Yala. “A transformação do gelo em água naquela região tem estado a ocorrer a uma velocidade mais acentuada que acontece noutros pontos do globo”, aponta o especialista ouvido pelo Observador.

Sendo ainda muito cedo para identificar o glaciar específico que desabou e arrastou lama e rocha pelo rio Bhotekoshi — que transbordou e inundou um largo caminho pela zona próxima da fronteira com o Tibete —, António Guerner Dias descreve o evento como um “tsunami fluvial”, derivado de um acontecimento “relativamente comum” em vales glaciares. “Este foi particularmente grave pela dimensão da montanha e do glaciar”, acrescenta.

A água do glaciar derretido, bem como da chuva que tem vindo a cair com força nos últimos meses, terá infiltrado as várias fraturas presentes na montanha. Como explica o geólogo da Universidade do Porto, estas fraturas são provocadas “naturalmente”, seja através de sismos — como o de 2015, cujas forças podem ter “fragilizado” a estrutura —, mas também pela pressão resultante da “massa sólida” sobre aquelas partes da montanha. Neste caso, um glaciar volumoso que, por ter acontecido numa região remota na face norte de Langtang, ainda não foi precisamente identificado.

A água nas fraturas é como um “lubrificante” que favorece o “deslizamento”, explica António Guerner Dias. E a este facto alia-se o caráter “dinâmico” dos glaciares, que estão sempre em movimento. “Parece estático, mas mexe-se muito devagarinho”, continua o geólogo ouvido pelo Observador. “Embora seja uma massa gelada, no contacto com a rocha, a gravidade ajuda a ir mais para baixo. E quando a água intensifica a sua presença na superfície que separa o glaciar da rocha, favorece o fenómeno”, indica.

Uma onda de destruição semelhante à “detonação de mais de mil toneladas de TNT”

Passavam poucos minutos após as 8h30 desta quarta-feira, quando um glaciar caiu milhares de metros pelo vale de Langtang. O impacto foi de tal modo significativo que acionou os sensores do serviço geológico norte-americano, que identificaram um sismo de magnitude 5,2. No fundo desse vale, foram-se acumulando grandes quantidades de água, lama, rocha e gelo, fruto daquele mesmo evento, mas de outras quedas menos intensas do passado, que foram transportadas em direção aos rios próximos daquela região dos Himalaias.

O rio Lhende foi o primeiro a receber os detritos, por estar diretamente na rota de colisão do glaciar que acabara de colapsar. Mas o ritmo acelerado da corrente deste “tsunami fluvial” não se deixou limitar pelo posto fronteiriço de Gyirong, que separa o Nepal e o Tibete, que acabou por ser arrasado pela mistura de água, lama e rocha que depressa afetou as urbanizações na base da cadeia montanhosa.

Casas, pontes e pessoas foram levadas pelas cheias, separando famílias, destruindo aldeias e desligando as comunicações naquela região do país, ao longo de quase uma centena de quilómetros. Como explica Dipesh Chapagain ao El País, o gelo de um glaciar é uma “massa extremamente densa”, e uma queda tão acentuada como a registada pode gerar “muito calor e fricção”, o que acelera o processo de descongelamento. “Quando o gelo começa a derreter, liberta um volume enorme de água muito rapidamente”, acrescenta o especialista do Instituto para o Ambiente e Segurança Humana das Nações Unidas.

"Estes rios, por se encontrarem muito próximos da sua nascente, são muito estreitos. Não têm margens que permitam que parte da água se disperse, pelo que se tornam cada vez mais concentrados, e o efeito é mais destrutivo"
Luis Carcavilla, investigador no Instituto Geológico e Mineiro de Espanha

Estas avalanches de gelo e destroços montanhosos podem “obstruir temporariamente a corrente de um rio”, fazendo com que a água se acumule e forme um “lago efémero”. “Em muitos casos, os blocos caem sobre lagos glaciares já existentes em zonas de alta montanha, provocando o seu esvaziamento repentino”, num fenómeno conhecido como “inundação por rutura de lago glaciar”.

Esta grande libertação de energia, que chegou a ser comparada pelo New York Times à “detonação de mais de mil toneladas de TNT”, acabou por transbordar três rios (para além do rio Lhende, foram também o Bhotekoshi e o Trishuli). “Estes rios, por se encontrarem muito próximos da sua nascente, são muito estreitos. Não têm margens que permitam que parte da água se disperse, pelo que se tornam cada vez mais concentrados, e o efeito é mais destrutivo”, acrescenta um especialista ouvido pelo El País.

Tudo isto aconteceu “numa questão de minutos”, como reconstruiu o Nepali Times. Para além de residências e aldeamentos, pelo menos seis das maiores centrais hidroelétricas do país, bem como outras estações elétricas na região, ficaram ou totalmente destruídas ou significativamente danificadas, com pelo menos um grande parque solar a ficar totalmente soterrado. A destruição continua a somar o número de vítimas, com milhares ainda desaparecidos, entre nacionais e turistas, mas com mais de 350 mortos.