Documentos recentemente divulgados sugerem que Robert F. Kennedy Jr. mentiu sobre o verdadeiro propósito de uma viagem a Samoa em 2019, pouco antes de um surto de sarampo na nação do Pacífico que matou 83 pessoas. Cartas consultadas pelo The Guardian e pela Associated Press contradizem declarações do atual secretário da Saúde dos EUA durante duas audições no Congresso norte-americano, nas quais garantiu que a visita “não teve nada a ver com vacinas”.
Antes da viagem, que viria a tornar-se um dos episódios mais controversos da sua carreira, Kennedy terá enviado uma carta, datada de 20 de janeiro de 2019, ao então primeiro-ministro samoano, Tuilaʻepa Saʻilele Malielegaoi, onde afirmou de forma explícita que pretendia estudar a vacina contra o sarampo, a papeira e a rubéola no país (VASPR), meses após a morte de duas crianças que a receberam. No documento, segundo o jornal britânico, recorre às palavras “vacina” ou “vacinação” por oito vezes.
“Escrevo esta carta na esperança de que possamos ser úteis ao povo da sua grande nação”, escreveu Robert F. Kennedy Jr., defendendo que a morte das duas crianças após a administração da VASPR poderia estar relacionada com problemas no fabrico das doses. Kennedy, então presidente da organização antivacinas Children’s Health Defense (CHD), propôs, por isso, que a sua equipa realizasse uma “avaliação informática dos registos de saúde” de Samoa para investigar o que tinha acontecido com as vacinas.
“Será certamente benéfico para Samoa contar com a avaliação independente de saúde da sua equipa sobre as nossas vacinas VASPR e eu receberia com grande expectativa a visita proposta da sua equipa às nossas ilhas”, respondeu o primeiro-ministro de Samoa um mês depois, segundo o The Guardian.
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Depois da morte das duas crianças em 2018, as autoridades samoanas concluíram que o problema estava na sua preparação e administração das vacinas por duas enfermeiras. As profissionais foram acusadas criminalmente no mês seguinte às mortes e, posteriormente, declararam-se culpadas de homicídio negligente, pondo em causa a suspeita levantada por Kennedy de que as vacinas poderiam ter problemas de fabrico.
Entretanto, o Governo samoano suspendeu a vacinação durante cerca de 10 meses, até abril de 2019, período em que as taxas de imunização caíram a pique. Foi nesta altura que a organização antivacinas liderada por Kennedy, a Children’s Health Defense (CHD), começou a contactar as autoridades samoanas, segundo os e-mails revistos pela AP e pelo The Guardian.
Kennedy, em conjunto com a mulher, a atriz Cheryl Hines, e o médico Michael Graven — membro da CHD — viajaram para Samoa um mês depois de a vacinação ter sido retomada e da principal autoridade de saúde do país ter anunciado publicamente que as mortes das crianças resultaram de erro humano e não de um problema com as vacinas.
Desde o início, a visita foi vista pelos críticos como um possível incentivo à atuação de ativistas antivacinas no arquipélago, sobretudo porque, durante a estadia, Kennedy se terá reunido com vários deles.
Meses depois, quando os níveis de vacinação continuavam “perigosamente baixos”, Samoa foi atingida por um surto de sarampo que infetou milhares de pessoas. No final da epidemia, 83 pessoas morreram, a maioria crianças com menos de cinco anos. Especialistas em saúde pública consideraram que a atuação de ativistas antivacinas prejudicou os esforços para conter o surto, acusando-os de terem sido encorajados pela visita de Kennedy.
“Não encontrarão um único samoano que diga que não se vacinou por causa de Bobby Kennedy”
Durante as audições no Congresso, e quando questionado sobre o propósito da viagem a Samoa, Kennedy insistiu que as vacinas não estiveram na origem da deslocação. “Não encontrarão um único samoano que diga que não se vacinou por causa de Bobby Kennedy”, disse, citado pelo The Guardian. “Fui lá para apresentar um sistema informático médico que digitalizasse os registos em Samoa e tornasse o sistema de saúde muito mais eficiente“.
“O meu propósito ao ir para lá não teve nada a ver com vacinas”, respondeu ao senador democrata Edward Markey, quando este o questionou sobre o assunto, numa outra audiência.
Entretanto, um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) afirmou que a visita de Kennedy a Samoa, em 2019, “não teve qualquer relação com as vacinas”, acrescentando que “qualquer alegação ou insinuação baseada nestas cartas de que o secretário Kennedy mentiu sob juramento ou ao Congresso não é apenas falsa, mas também flagrantemente difamatória”.
Mentir ao Congresso sobre uma questão relevante pode constituir crime e resultar numa pena de prisão, embora este tipo de acusação seja raramente levado a tribunal, de acordo com o jornal britânico. A legislação federal estabelece um prazo de prescrição de cinco anos, pelo que o caso poderá, em teoria, ser investigado por um futuro Departamento de Justiça, já sob a próxima administração, a partir de 2029.