O desastre ocorrido esta quarta-feira na fronteira entre o Nepal e a China voltou a colocar em causa a estabilidade das montanhas mais altas do mundo. O fenómeno causou centenas de mortos e mais de mil desaparecidos (entre eles três portugueses). A subida repentina de três rios inundou vales em poucos minutos. Centrais hidroelétricas, pontes e aldeias foram arrastadas, deixando um cenário de destruição numa das regiões mais montanhosas do planeta. E tudo por causa do colapso repentino de uma grande massa de gelo e rocha a 5.200 metros de altitude.
O que inicialmente foi registado pelas autoridades e pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla inglesa) como um sismo de magnitude 4.4 revelou-se, afinal, um evento de causalidade inversa. Não foi um tremor que causou o desabamento, mas sim o próprio colapso do gelo que gerou energia mecânica suficiente para a terra tremer. Uma parte maciça do glaciar com cerca de 0,2 quilómetros quadrados (o glaciar tinha no total uma dimensão entre 2 e 3 quilómetros quadrados), localizada na parte norte do pico Langtang Lirung, desprendeu-se e rolou cerca de 1.200 metros até ao fundo do vale.
O que aconteceu no Nepal foi um aviso? Poderá uma catástrofe semelhante repetir-se noutras montanhas com glaciares? Ou cada montanha é um caso, com características que tornam impossível prever um cenário semelhante?
Como é que a queda de gelo consegue provocar um terramoto?
Parece pouco provável que a simples queda de gelo faça a terra tremer. A explicação está na energia da gravidade. Como explica o geólogo Pedro Gabriel de Almeida ao Observador, “qualquer movimento ou choque, neste caso na superfície do planeta, gera sempre ondas sísmicas. Quanto maior a massa ou a velocidade a que se desloca, maior é a amplitude dessas ondas”.
Uma grande massa de gelo suspensa numa montanha funciona, em termos simples, como uma reserva de energia. Quanto maior for a massa e quanto maior for a altura a que se encontra, maior é a energia acumulada. E, quando essa massa cai, a energia é libertada de forma muito rápida. Parte dessa energia é transformada em movimento, calor e deformação do terreno. Mas uma pequena fração é convertida em ondas sísmicas, fazendo vibrar o solo. É este processo que explica a razão de um grande colapso glaciar poder produzir um sinal semelhante ao de um sismo, mesmo sem ter origem numa falha geológica.

“Este fenómeno leva muitas vezes à ideia de que cada vez há mais sismos, quando na verdade temos é uma maior capacidade de detetar eventos sísmicos cada vez mais ténues. Assim, qualquer movimento de massas como o que aconteceu no Nepal gera ondas sísmicas detetáveis porque a massa em movimento foi muito grande”, acrescentou o especialista em Ciências da Engenharia e Tecnologias da Universidade da Beira Interior (UBI).
Almeida recorda ainda que este tipo de propagação de ondas por impacto físico tem paralelos noutros contextos científicos, como “o programa lunar Apollo, no qual foi usado o impacto de um dos módulos na superfície para gerar ondas que foram registadas pelos equipamentos instalados”.
Gonçalo Vieira, geógrafo e investigador do IGOT, Universidade de Lisboa, corrobora a frequência deste fenómeno. “Tratando-se de uma grande massa de gelo e blocos caindo de uma parede vertical e extensa, a energia gerada é enorme e as ondas sísmicas são o reflexo desse impacte. Aliás, é muito comum os glaciares (e mesmo icebergues a desprenderem-se de glaciares para a água) gerarem ondas sísmicas, embora de menor magnitude”, explicou ao Observador. Vieira realçou ainda que alguns especialistas usam sismógrafos “para estudar os desprendimentos a partir de glaciares”.
Historicamente, este fenómeno de “sismicidade gerada por gravidade” tem precedentes marcantes na geologia de montanha, tais como o colapso do Glaciar Kolka no Cáucaso em 2002, o desastre de Chamoli no Himalaia Indiano em 2021 e a avalanche do Annapurna IV em 2012, como nota a agência noticiosa Reuters.
O que faz um glaciar colapsar em segundos em vez de derreter lentamente?
Quando pensamos em degelo, normalmente pensamos automaticamente num processo lento, com o gelo a derreter e a água a correr. Mas os colapsos repentinos são um problema de pressão e lubrificação.
Nas 24 horas anteriores ao desastre no Nepal, as imagens de satélite e dados meteorológicos registaram temperaturas elevadas, que causaram uma fusão acelerada da neve. Este volume de água líquida infiltrou-se rapidamente através de fendas até alcançar a base do glaciar. O processo funciona como uma aquaplanagem de um carro na autoestrada:
- Calor no topo. As temperaturas invulgarmente altas fazem derreter a neve na superfície do glaciar;
- Infiltração rápida. A água não fica no topo e escorre por fendas profundas até chegar à base do glaciar, onde o gelo toca na rocha da montanha;
- Efeito “macaco hidráulico”. À medida que a água se acumula na base da montanha sem conseguir sair, a pressão aumenta de tal forma que começa a empurrar o glaciar para cima, separando-o da rocha.
- Deslizamento. Se o chão que estiver por baixo do glaciar for feito de terra fina ou argila, a água transforma essa base numa pista de lama muito escorregadia.
Gonçalo Vieira resumiu o processo mecânico sob a perspetiva térmica. “Infelizmente, com o aquecimento global, os glaciares estão a aquecer. Mesmo em casos em que o gelo não derreta, a diferente temperatura do gelo faz com que as suas propriedades físicas se alterem e o gelo mais quente (mais próximo de 0ºC) deforma-se mais rapidamente. Se o glaciar estiver alcandorado no topo de uma vertente, isso — juntamente com o aumento das águas de fusão — pode ser suficiente para que o glaciar colapse”.
O investigador do IGOT notou ao Observador que “a questão essencial é ser ultrapassado um limiar de deformação do gelo que faz com que este se deforme mais, deixando de sustentar toda a massa de gelo que se encontra a montante, gerando o colapso quase instantâneo”.


Por sua vez, Pedro Gabriel de Almeida compara o fenómeno a uma detonação controlada. “Qualquer sistema que esteja num estado de energia limite necessita apenas de um pequeno evento para iniciar todo o processo de movimentação. Este tipo de eventos ‘gatilho’, que vem da expressão inglesa trigger, reflete a forma como se detona um explosivo usando cargas detonadoras de muito menor intensidade”.
No caso do Nepal, o gatilho pode ter sido “um ligeiro aumento de temperatura (que reduz o atrito entre partículas ou no contacto com o solo), um pequeno sismo ou mesmo uma trovoada”. Almeida realçou ainda que este equilíbrio é conhecido pelos que praticam desportos de neve: “Nas estâncias de inverno é comum as equipas especializadas usarem pequenas cargas explosivas para iniciarem avalanches controladas, eliminando o risco para os utilizadores. O princípio é o mesmo”.
Todas as montanhas do mundo com glaciares correm o mesmo risco?
Não se pode afirmar, de forma generalizada, que todas as cadeias montanhosas com glaciares partilham do mesmo nível de perigo. A resposta geomecânica de cada maciço é condicionada pelas características estruturais intrínsecas, que podem agir contra ou a favor de colapsos de larga escala, como explicam os especialistas.
Risco de colapso de uma montanha depende do tipo de rocha e da sua estrutura
Rochas frágeis e muito fraturadas, como arenitos, xistos e margas, tornam o terreno mais instável. O risco aumenta quando as camadas de rocha estão inclinadas no mesmo sentido da encosta e quando o recuo de um glaciar retira o apoio à base da montanha. A água que se infiltra pelas fraturas também pode aumentar a instabilidade.
Por outro lado, rochas resistentes, como granito e gnaisse, e uma estrutura geológica inclinada no sentido contrário ao da encosta ajudam a manter a montanha estável e reduzem o risco de grandes deslizamentos.
Segundo Gonçalo Vieira, o declive é fundamental para a ocorrência do fenómeno que se verificou esta quarta-feira no Nepal, que “parece ter sido causado pelo colapso de um glaciar a partir de uma vertente muito alta”. Para uma catástrofe semelhante acontecer, “é necessário que sejam montanhas que tenham bastante declive e diferenças de altitude marcadas. Ou seja, montanhas glaciadas, mas com relevo menos vigoroso, estão menos expostas”, disse ao Observador.
O geógrafo português notou ainda outros perigos relacionados com montanhas, tais como “a presença de permafrost e o seu aquecimento” ou ainda a possibilidade de existirem “lagos associados ao retrocesso glaciário e que se formaram devido, geralmente, a efeitos de barragem por detritos glaciários (as chamadas moreias)”.
Pedro Gabriel de Almeida realçou que as condições geológicas e a memória da paisagem definem o potencial de destruição. “O ambiente geológico poderá tornar algumas zonas mais sensíveis, gerando maiores desníveis e vertentes mais inclinadas e portanto com maior capacidade energética”. As formações rochosas poderão ser também algo a considerar para o especialista ouvido pelo Observador, em especial “a resistência à erosão provocada pelo movimento lento dos glaciares que as vão triturando ou arrancando em blocos, como se pode ainda ver na Serra da Estrela“.
Himalaia, Andes ou Alpes. Qual é a cordilheira mais instável?
O comportamento das montanhas e dos glaciares varia bastante entre os Himalaias, os Andes e os Alpes Europeus. As diferenças estão sobretudo relacionadas com a atividade tectónica das cordilheiras, a altitude e as condições climáticas.
Nos Himalaias, a atividade tectónica é muito elevada. A placa indiana continua a avançar contra a placa euroasiática, fazendo com que as montanhas continuem a subir mais de um centímetro por ano. De acordo com a imprensa internacional, esta atividade provoca muitos sismos e fraturação das rochas, aumentando a instabilidade das encostas. Os glaciares nesta cordilheira são ainda muito influenciados pelo aquecimento global, que está a acelerar o seu derretimento.
Nos Andes, o clima é muito mais seco e os glaciares encontram-se sobretudo a grandes altitudes. A região tem também uma vasta área de permafrost e muitos glaciares de rocha, que se deslocam lentamente e, por isso, apresentam geralmente um risco menor de colapsos rápidos, nota a revista científica Frontiers. No entanto, o aumento das temperaturas pode provocar o degelo do gelo existente no interior das encostas e contribuir para a sua instabilidade.
Nos Alpes Europeus, a atividade tectónica é bastante menor e as montanhas elevam-se muito mais lentamente. Os glaciares são temperados, estando próximos do ponto de fusão e, por isso, são particularmente sensíveis ao aumento das temperaturas. Podem, porém, sofrer colapsos localizados, sobretudo durante períodos de calor intenso no verão.
“Os Alpes têm tido também problemas importantes com desabamento de glaciares e desabamentos associados à degradação do permafrost. Vários destes eventos causaram enormes danos e vítimas nos últimos anos. A diferença principal é que são montanhas mais pequenas do que os Himalaias ou os Andes e a energia associada ao declive e altura das vertentes é, por isso, potencialmente, menor. No caso dos Himalaias, acresce o problema de a massa de gelo glaciário disponível ser muito maior do que nos Alpes e nos Andes”, explicou Gonçalo Vieira.
Embora as três cordilheiras estejam a ser afetadas pelo aquecimento global, os riscos não são iguais. Nos Himalaias, a combinação entre placas tectónicas, grandes altitudes e degelo aumenta a instabilidade. Já nos Andes, destaca-se sobretudo a degradação do permafrost. Nos Alpes, o principal problema é o efeito rápido do aquecimento sobre glaciares já próximos do ponto de fusão.
Afinal, o que é o permafrost e o que acontece quando derrete?
O permafrost é uma espécie de “cimento natural” que mantém a montanha unida. Em zonas de grande altitude, explica a Encyclopédie de l’Environnement, há água congelada dentro das fraturas das rochas e do solo e esse gelo ajuda a preencher os blocos de rocha, impedindo que deslizem encosta abaixo.
Quando as temperaturas sobem e esse gelo começa a derreter, esse efeito desaparece. As rochas ficam menos coesas e as encostas mais frágeis. Vários estudos explicados no mesmo site mostram que, depois de vários ciclos de congelamento e descongelamento, a resistência das rochas e dos solos pode cair significativamente.
Esta camada é, para Gonçalo Vieira, “muito importante, principalmente nas áreas sem glaciares, incluindo as vertentes em torno de alguns glaciares”. “Essencialmente, as rochas têm fendas que estão frequentemente preenchidas por gelo. Se esse gelo aquece, a possibilidade de colapso aumenta”, explicou ao Observador.
Por outro lado, disse, “em alguns locais existe rocha pouco coerente que, por estar congelada, ganha coesão. Se deixa de estar congelada ou se a sua temperatura se aproxima do ponto de fusão, facilmente se podem gerar grandes (e pequenos) movimentos de massa”.
Pedro Gabriel de Almeida explicou, por sua vez, que enquanto existe esta camada, “o solo tem uma capacidade de resistir ao movimento natural produzido pela gravidade em vertentes que perde quando entra em fusão, mesmo que parcial”. “Sendo um solo saturado em água, quando o gelo funde e, caso a morfologia seja desfavorável, como por exemplo em encostas, pode ficar em desequilíbrio, gerando movimentos de massas“, acrescentou.
Deste modo, se toda uma região se encontra próxima do desequilíbrio, bastará uma pequena área começar a movimentar-se para que toda uma encosta se desloque a grande velocidade, notou Almeida.
Conseguimos prever estes colapsos a tempo ou estamos limitados à reação pós-desastre?
Os satélites conseguem detetar sinais de instabilidade antes de um colapso, como o aumento da velocidade do gelo, a abertura de fendas e alterações na sua forma, como dá conta a União Europeia de Geociências (EGU, na sigla inglesa). No entanto, não conseguem prever com precisão o momento exato da rutura, que pode acontecer em apenas alguns segundos. Além disso, nuvens e tempestades podem impedir a observação.
Por isso, os sistemas de alerta mais eficazes recorrem também a sensores instalados no terreno. Sismómetros, medidores dos rios e outros equipamentos podem detetar movimentos bruscos e enviar alertas para as populações através de sirenes ou mensagens.
Estes sistemas enfrentam, porém, várias limitações, nota o site indiano Rediff News. Os equipamentos podem ser destruídos pelo próprio deslizamento, a manutenção em zonas de elevada altitude é difícil e as falhas nas comunicações podem impedir que os avisos cheguem às populações. Nos Himalaias, a partilha de dados entre países é também dificultada pelas tensões políticas na região.

Tendo em conta que “os Himalaias têm uma área enorme e de difícil acesso (e monitorizar no local implica um custo enorme e é virtualmente impossível)”, Gonçalo Vieira aponta a monitorização combinada como a única via viável. “A solução poderá ser ter sistemas de monitorização e alerta locais nos vales e ainda utilizar a monitorização através de imagens de satélite (com sensores óticos e de radar), alimentando modelos preditivos para monitorizar e criar sistemas de alerta precoce, que identifiquem setores potencialmente geradores de problemas e que permitam agir com um pouco mais de antecedência na prevenção”.
Perante a incerteza física, Pedro Gabriel de Almeida considera que a melhor prevenção “continua a ser um planeamento e utilização do território compatível com os riscos associados”, como por exemplo “interditar a construção em zonas onde é previsível que o fluxo circule, tal como acontece em caso de cheias e deslizamentos de vertentes, e limitar a atividade económica nessas zonas”.
Para o geólogo da UBI, a chave está na tomada de decisões públicas baseada na ciência: “Começar a escutar os técnicos e investigadores que estudam estes fenómenos, como geólogos e geógrafos, na altura de decidir os PDMs (Planos Diretores Municipais) será sempre a melhor prevenção, em particular quando as alterações climáticas introduzem novas variáveis num sistema complexo como é a superfície da Terra”.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]