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Deixar dívidas para o próximo, pagar menos impostos e jogar na Champions: como a Turquia está na corrida pelos melhores jogadores da Europa

Vlahovic, Salah e Leão passam a fazer companhia a Osimhen. Não houve Ronaldo, mas isso não impediu Turquia de se sentar à mesa dos mais poderosos e contratar os melhores – às vezes na melhor cadeira.

Manuel Conceição Carvalho
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A primeira coisa que Mohamed Salah disse quando aterrou em Istambul para assinar pelo Trabzonspor foi que nunca tinha vivido nada igual. “Mostraram-me tanto amor. Nunca esperava esta receção. Estou aqui para ganhar”, declarou, ainda com o eco da multidão como pano de fundo. O egípcio que marcou 257 golos em 442 jogos pelo Liverpool, que venceu oito títulos com os reds – incluindo duas Premier, a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes – estava a falar do Trabzonspor, o quarto clube mais popular da Turquia. Não estava a sair da reforma para jogar na Superliga turca. Não vinha de uma liga periférica. Não aterrou na Arábia Saudita. Tinha 34 anos e escolheu a Turquia. Agora, Rafael Leão, que tinha meia Europa à sua volta a segui-lo, fez a mesma escolha que Salah, mas com 27 anos e ainda com títulos internacionais por conquistar.

A chegada de ambos os jogadores ao campeonato turco não é uma história isolada. É a ponta de um fio histórico que a Turquia tem vindo a construir há mais de uma década, com uma paciência e uma ambição que ninguém levou a sério até ser tarde demais.

A Superliga turca não surgiu de repente no mapa do futebol europeu. O fenómeno tem raízes que remontam aos anos 2000, quando o Galatasaray venceu a Taça UEFA sob o comando de Fatih Terim, batendo o Arsenal na final. Foi o primeiro e único troféu europeu de um clube turco, mas ficou como prova de que o futebol do país podia sentar-se na mesma mesa que os grandes. Nas décadas seguintes, o crescimento económico da Turquia alimentou os orçamentos dos clubes, que foram gradualmente escalando a tabela dos maiores gastadores europeus. O processo foi lento, depois foi rápido, e agora é estrutural.

O Galatasaray foi o grande catalisador dessas primeiras chegadas. Gheorghe Hagi chegou em 1996 e ganhou tudo o que havia para ganhar. Roberto Carlos e Guti fizeram o mesmo caminho nos anos seguintes. Wesley Sneijder chegou em 2013, venceu o campeonato na primeira época e tornou-se ídolo num tempo recorde. Didier Drogba e Robin van Persie escolheram Istambul para os últimos anos das suas carreiras europeias, tal como Nicolas Anelka antes deles. Eram nomes que tinham ganho Ligas dos Campeões e Mundiais – e que escolheram a Turquia quando poderiam ter escolhido a reforma. O fenómeno não era recente nem abrupto. Era uma construção gradual, tijolo a tijolo, nome a nome, que foi tornando a Superliga num destino credível antes de a tornar num destino apetecível.

Durante anos, o modelo de negócio assentou sobretudo nos direitos televisivos domésticos e na receita dos sócios, tanto uns como os outros limitados pela dimensão da liga e pela depreciação da lira. A desvalorização da moeda foi, curiosamente, um problema e uma solução. Um problema porque os salários em euros ou dólares ficaram cada vez mais caros de suportar. Uma solução porque a Turquia se tornou, para jogadores vindos de mercados menores, um destino com salários competitivos em moeda forte. O grande salto qualitativo veio de outra direção: a entrada de capital estatal e semipúblico em alguns clubes, e a pressão competitiva exercida pela chegada da Arábia Saudita ao mercado europeu de transferências. Quando os clubes sauditas começaram a pagar valores altos pelos melhores jogadores do mundo, os preços no mercado secundário inflacionaram. O vice-presidente do Galatasaray, Erden Timur, foi direto ao ponto: “O preço médio dos jogadores multiplicou-se por dois ou mesmo por dois e meio”, explicou ao canal do clube.

A mudança de estratégia foi para o mercado dos jogadores livres e dos empréstimos de clubes grandes. E funcionou. Nas últimas temporadas, o Galatasaray contratou Wilfried Zaha a custo zero, Hakim Ziyech e Tanguy Ndombele por empréstimo do Chelsea e do Tottenham, e Mauro Icardi do PSG por apenas dez milhões de euros. O Fenerbahçe contratou Fred do Manchester United por 9,7 milhões e Dusan Tadic e Edin Dzeko no final dos respetivos contratos. O Besiktas trouxe Oxlade-Chamberlain e Eric Bailly, ambos a custo zero, do Liverpool e do Manchester United. O Trabzonspor assegurou Nicolas Pepe quando o seu vínculo com o Arsenal terminou. Nani chegou ao Basaksehir sem qualquer encargo de transferência. A lista continua – e a cada temporada que passou, os nomes ficam maiores.

O momento em que a Superliga turca deixou verdadeiramente de ser tratada como um “mercado marginal” ficou marcado a 30 de julho de 2025, quando o Galatasaray pagou 75 milhões de euros ao Nápoles por Victor Osimhen. Não era um empréstimo. Não era um jogador no fim da carreira. Era o melhor avançado de uma das ligas mais competitivas do mundo, numa transferência que pulverizou o recorde histórico do futebol turco — o anterior era de Youssef En-Nesyri, adquirido pelo Fenerbahçe por 20 milhões de euros, apenas um ano antes. Osimhen tinha recebido propostas do Manchester United e do Al-Hilal. Escolheu ficar em Istambul. “Quero continuar a ganhar aqui”, disse. A Turquia começou a reter quem poderia ir para qualquer lugar.

De onde vem o dinheiro na Turquia?

A pergunta que fica no ar depois de perceber o que o Trabzonspor pagou (e vai pagar) a Salah – e o que o Galatasaray paga a Osimhen, e o que o Fenerbahçe gastou nos últimos anos – é simples: de onde vem o dinheiro? Os quatro maiores clubes turcos – Galatasaray, Fenerbahçe, Besiktas e Trabzonspor – tiveram, na última década, perdas acumuladas de 1,6 mil milhões de euros. Gastaram 6,7 mil milhões, geraram 5,1 mil milhões em receitas. Em 2025, a dívida conjunta dos quatro clubes ultrapassava 1,14 mil milhões de euros. O relatório da UEFA de 2024 foi direto: os clubes turcos lideram os rankings europeus em capital negativo – as suas dívidas excedem em muito os seus ativos. Não são as vendas de jogadores que financiam as contratações. Os quatro maiores gastaram quase 120 milhões de euros numa só janela de verão, recebendo menos de 80 milhões em receitas de transferências.

O modelo tem várias peças. A primeira é imobiliária: o Galatasaray planeia lucrar entre 500 e 600 milhões de euros com a venda do seu antigo centro de treino em Florya, em Istambul. A segunda é o endividamento bancário facilitado: em 2021, um consórcio de quatro bancos turcos – Ziraat, DenizBank, HalkBank e Yapi Kredi – conseguiu uma reestruturação de 1,1 mil milhões de dólares de dívida dos quatro grandes clubes. A terceira é o modelo de governação: os grandes clubes turcos funcionam como associações de membros, com presidentes eleitos por períodos curtos que competem entre si com promessas de contratações (como se voltou a ver este verão no Fenerbahçe). O horizonte é curto por natureza. “Os donos destes clubes turcos, ou seja, os sócios, não se preocupam com os lucros. Só querem o máximo de vitórias em campo“, disse o analista de economia do desporto Alperen Koçsoy à CBS Sports. O resultado está à vista: quando um presidente sai, as dívidas ficam para o seguinte resolver. “Ninguém é responsável pelo dinheiro. Deixam para o próximo resolver”, resumiu um sócio do Fenerbahçe à Al-Jazeera, em 2019.

Há ainda uma quarta peça: o Estado. Não de forma direta, mas através de um ecossistema de bancos públicos, contratos de patrocínio de empresas estatais e, no caso do Basaksehir, uma relação com o poder político que vai muito além do futebol. O clube foi fundado em 1990 e refundado em 2014 com apoio da Câmara Municipal de Istambul, então controlada pelo AKP, o partido de Recep Tayyip Erdogan. A partir daí, cresceu de forma meteórica: contratou Gökhan Inler, Demba Ba, Emmanuel Adebayor e Robinho, chegou a ser campeão nacional em 2020 e qualificou-se para a Liga dos Campeões. A ligação entre Erdogan e o Başakşehir é tão evidente que a direção aposentou a camisola número 12 em sua homenagem – o número que usou numa partida amigável. Mesut Özil, que terminou a carreira no clube, acabou por ser eleito para o conselho central do partido do presidente turco.

O Basaksehir é, no entanto, um caso à parte. Os três grandes de Istambul – Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas – têm modelos de negócio diferentes, assentes numa massa associativa histórica e numa identidade que nenhum projeto político consegue replicar.

A vantagem fiscal e o caso Salah

A razão pela qual o Trabzonspor conseguiu sentar-se à mesa com um jogador que o Liverpool pagava 400.000 mil libras (cerca de 467 mil euros) por semana tem um nome: fiscalidade. Um estudo da KPMG de 2017, citado pelo Diário de Notícias – quando a Turquia ainda beneficiava de uma taxa especial de apenas 15% para desportistas – mostrava que, para oferecer um salário líquido de um milhão de euros a um jogador, um clube português tinha de pagar 2,46 milhões de euros em custos brutos totais. Um clube turco, pelo mesmo salário líquido, pagava apenas 1,19 milhões. Mais 106%. Para salários de cinco milhões líquidos, a diferença subia para 111%. Portugal ficava em penúltimo lugar nesta tabela de custos laborais – apenas à frente de França. Atrás de Inglaterra, Holanda, Itália, Alemanha, Espanha e, com larga margem, da Turquia.

Esse regime fiscal turco, com a taxa especial de 15%, vigorou até 2019. De 2019 a 2025/26, os jogadores da Superliga passaram a pagar uma taxa de retenção na fonte de 20% — ainda substancialmente inferior à carga fiscal portuguesa, que inclui uma taxa máxima de IRS de 48% acrescida de sobretaxa de solidariedade de 5% para os rendimentos mais altos, e contribuições sociais patronais de 23,75% sobre o salário bruto. A grande mudança estrutural chegou nesta época 2026/27: a responsabilidade fiscal passou dos clubes para os próprios jogadores, que passam a estar sujeitos às taxas gerais do IRS turco, podendo chegar aos 40%. As consequências desta mudança para a atratividade do mercado ainda estão por avaliar.

O caso de Salah ilustra o que está em jogo. O egípcio assinou pelo Trabzonspor num total de cerca de 36 milhões de euros pelos dois anos de contrato – aproximadamente 18 milhões de euros por época. É o salário mais alto de sempre no futebol turco, superando os 15 milhões anuais de Victor Osimhen no Galatasaray. O valor fica abaixo dos 26 milhões de euros anuais que recebia no Liverpool – mas supera qualquer oferta que chegou de clubes da Europa ocidental de topo. A isso juntou-se o facto de André Onana, guarda-redes cedido pelo Manchester United ao Trabzonspor, o ter contactado pessoalmente e lhe ter feito uma proposta descrita como “convincente” em conversas que o Sports Illustrated classificou como “significativas” na decisão final. O egípcio Trézéguet, ex-companheiro de seleção e ex-Trabzonspor, também ajudou a convencê-lo, revela o mesmo meio.

https://observador.pt/2026/08/06/as-criticas-de-carragher-nao-apagam-os-milhares-a-espera-dele-salah-fintou-arabia-e-e-o-novo-farao-do-trabzonspor/

Há, porém, uma nuance que raramente entra nesta conversa: o regime fiscal turco tem vindo a ser pressionado. Em 2024, as autoridades fiscais turcas abriram uma investigação a quase 4.600 desportistas por 134 milhões de dólares (cerca de 120 milhões de euros) em rendimentos não declarados, dos quais 94 milhões eram de futebolistas, noticiou o Türkiye Today em janeiro de 2025.

A Rússia saiu da mesa. A Turquia ficou

Antes de a Turquia chegar onde chegou, havia outro mercado periférico europeu que atraía jogadores de topo e lhes oferecia salários que as principais ligas não conseguiam igualar: a Rússia, um ex-El Dorado. O Zenit de São Petersburgo pagou a Hulk, a Axel Witsel e a outros salários que rivalizavam com os dos maiores clubes europeus. O CSKA de Moscovo e o Lokomotiv fizeram o mesmo. E, tal como a Turquia hoje, a liga russa oferecia algo que a Arábia Saudita e o Qatar não podiam dar: competições europeias.

A 24 de fevereiro de 2022, tudo mudou. A invasão russa da Ucrânia levou a UEFA a suspender todos os clubes e seleções russas das suas competições – uma suspensão que, em junho de 2026, foi prolongada pela quinta temporada consecutiva. A Premier russa deixou de ser um destino viável para quem quisesse competir na Champions, na Liga Europa ou na Liga Conferência. O fluxo de chegadas parou de um dia para o outro. A Turquia foi a principal beneficiária desta reconfiguração do mapa do futebol europeu. Já tinha o regime fiscal favorável, já tinha a cultura de contratações ambiciosas, já tinha os estádios e a intensidade dos adeptos. O que a guerra na Ucrânia lhe deu foi a eliminação do único concorrente que partilhava a sua principal vantagem competitiva: as competições europeias.

https://observador.pt/2026/02/12/uefa-demarca-se-da-fifa-e-mantem-se-firme-na-suspensao-as-equipas-russas/

A Ucrânia, por sua vez, não saiu do mapa – mas as questões de segurança tornaram-se um fator determinante nas decisões dos jogadores. O Shakhtar Donetsk, obrigado a jogar os seus jogos em casa em Varsóvia desde a invasão (e os jogos da Champions em Londres, onde jogará o Sporting), foi perdendo um a um os seus melhores jogadores para o mercado ocidental. Os números falam por si: em 2018/19, o clube gerou cerca de 680 milhões de grívnias (aproximadamente 22 milhões de euros) em receitas comerciais. Em 2023/24, esse valor tinha caído para cerca de 293 milhões de grívnias – pouco mais de 6,5 milhões de euros, já com a grívnia muito desvalorizada face ao euro. O CEO Sergei Palkin calculou que o clube perdeu cerca de 85 milhões de euros em receitas de transferências que nunca chegou a receber. A FIFA agravou o problema ao permitir que os jogadores estrangeiros em clubes ucranianos suspendessem os seus contratos e saíssem gratuitamente – uma decisão que o diretor desportivo do Shakhtar, Darijo Srna, resumiu em três palavras. “A FIFA matou-nos”, afirmou em abril ao The Guardian.

Trubin chegou ao Benfica em 2023. Sudakov seguiu-lhe os passos dois anos depois, em parte persuadido pelo próprio guarda-redes. Foram os casos mais mediáticos em Portugal – mas a lista é longa: Mudryk para o Chelsea, Zinchenko para o Arsenal, Dovbyk para a Roma, Lunin para o Real Madrid. A guerra redistribuiu talentos por toda a Europa. Portugal, e o Benfica em particular, foi um dos destinos.

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As transferências Portugal-Turquia

O fluxo entre Portugal e a Turquia não é simétrico, o que ajuda a explicar onde cada mercado está posicionado. Os jogadores saem de Portugal para a Turquia. Da Turquia para Portugal, chegam sobretudo jogadores de passagem ou em fim de ciclo.

Do lado das saídas, a lista de portugueses que foram ou estão na Superliga é longa. Gedson Fernandes foi o caso mais prolongado: formado no Benfica, passou pelo Galatasaray por empréstimo em 2021 e assinou pelo Besiktas em 2022, onde ficou três épocas antes de seguir para o Spartak Moscovo. Pizzi esteve cedido ao Basaksehir em 2022. Nélson Semedo deixou o Wolverhampton para assinar pelo Fenerbahçe em 2025. Rafa Silva passou pelo Besiktas numa das transferências mais mediáticas da relação entre os dois países e que incluiu capítulos polémicos: o treinador turco chegou a afirmar publicamente que o jogador “não queria jogar” e o clube ameaçou apresentar queixa na FIFA. Pepe esteve no Besiktas antes de regressar ao FC Porto — saiu a meio da época, alegadamente depois de ter chegado a pagar salários em atraso a funcionários do clube do seu próprio bolso. E agora, neste verão, Rafael Leão trocou o AC Milan pelo Galatasaray por 38 milhões de euros fixos, mais 20% de uma futura venda, com um salário de 10 milhões de euros líquidos por temporada durante quatro anos. O Galatasaray bateu o Aston Villa na corrida ao jogador.

https://twitter.com/GalatasaraySK/status/2094496706922533066

Da Turquia para Portugal, o movimento é diferente. Chegam jogadores que saem da Superliga por razões diversas — alguns cedidos, outros em fim de contrato. O fluxo mais rico e mais caro vai tendencialmente no mesmo sentido: de Oeste para Leste.

Como é a questão dos treinadores

Se o fluxo dos jogadores vai maioritariamente de Portugal para a Turquia, o dos treinadores tem uma particularidade ainda mais reveladora: há portugueses para quem a Turquia não foi um destino de passagem, mas um trampolim – ou até um pré-requisito – para regressar a Portugal em melhores condições do que tinham saído.

O caso mais simbólico é o de José Mourinho. Em junho de 2024, depois de ter deixado a Roma, o Special One assinou pelo Fenerbahçe. Em 62 jogos, acumulou 37 vitórias, 14 empates e 11 derrotas – aproveitamento positivo, mas sem títulos, e com polémicas extracampo que foram desde uma suspensão de quatro jogos até ao episódio em que agarrou o rosto do treinador do Galatasaray, Okan Buruk, após uma derrota na Taça. A eliminação para o Benfica nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões foi o ponto final. A ironia não passou despercebida: o clube que o mandou embora da Turquia tornou-se, semanas depois, o clube que o contratou. Em setembro de 2025, Mourinho regressou ao sítio onde tudo começou, em 2000, para a segunda passagem pelo Benfica. A Turquia foi a penúltima paragem antes de Portugal – e foi o Benfica que tornou essa paragem mais curta.

Jorge Jesus percorreu um caminho semelhante, ainda que com outras paragens pelo meio. Antes do Fenerbahçe, onde chegou em 2022, Jesus tinha estado no Al Hilal, na Arábia Saudita, e no Flamengo – o clube que o tornou internacionalmente reconhecido, com a conquista da Libertadores de 2019. Na Turquia, venceu a Taça da Turquia, mas não conseguiu o campeonato e acabou por sair ao fim de uma época. Seguiu para o Al Hilal novamente, onde somou três títulos na Arábia Saudita em 2023-24.

Carlos Carvalhal foi, de todos os treinadores portugueses com passagem pela Turquia, o que chegou mais cedo. Em 2011/12, orientou o Besiktas – um clube em dificuldades financeiras e em crise, tal como reconheceu na altura –, foi afastado em abril de 2012 após mudanças na direção, mas saiu com boa imagem suficiente para continuar no país: na época seguinte, estava no Basaksehir. Foi o primeiro grande salto internacional de uma carreira que o levaria depois à Premier League – com o Sheffield Wednesday, que levou duas épocas consecutivas ao playoff de acesso à principal divisão inglesa, e com o Swansea –, e que terminou a última época no Famalicão, já com 850 jogos como treinador no currículo.

Vítor Pereira foi o antecessor de Jorge Jesus no Fenerbahçe – e também o precedeu no Flamengo. A ligação ao futebol turco era antiga: Pereira tinha treinado o Fenerbahçe entre 2015 e 2016, numa das primeiras grandes experiências de um treinador português na Superliga.

Fernando Santos, oito anos depois de ser campeão europeu com Portugal em 2016, e depois de uma passagem pela seleção da Polónia que terminou mal, aceitou o desafio do Besiktas em janeiro de 2024. Durou pouco – 16 jogos, sete vitórias, cinco derrotas, demitido em abril. Era o regresso a um clube depois de 14 anos exclusivamente em seleções. A Turquia não lhe correu como esperava.

João Pereira é o caso mais recente – e talvez o mais curioso, porque a ligação à Turquia precede a carreira de treinador. Como jogador, representou o Trabzonspor durante quatro épocas e meia, entre 2017 e 2021, onde foi promovido a capitão e se despediu com uma placa de homenagem do clube. Regressou a Portugal, terminou a carreira no Sporting e iniciou a de treinador em Alvalade. Depois de uma curta e turbulenta passagem pela equipa principal dos leões – oito jogos, três vitórias e dispensa seis semanas depois – voltou à Turquia, agora como treinador do Alanyaspor, em março de 2025. “Estou muito feliz por estar de volta à Turquia. Este é um país que tratou muito bem a minha família”, disse ao ser apresentado.

Em campo, Portugal parece estar mais próximo do pelotão da frente do que a Turquia. Fora dele, a Superliga e os seus clubes sentam-se, muitas vezes, à mesma mesa que os tubarões europeus. E os treinadores portugueses – de Mourinho a João Pereira – continuam a orbitar essa mesa.

Turquia vs. Arábia Saudita: será igualmente abrupto?

Já não são apenas os mesmos de sempre a liderar este processo. Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas continuam a ser os endereços habituais para os grandes nomes – mas o Trabzonspor, o clube da costa do Mar Negro sete vezes campeão turco, antecipou-se a vários clubes europeus e ao próprio poder do Médio Oriente ao contratar Salah. O clube não tinha historial recente de atrair jogadores deste calibre. Salah, com 34 anos, podia ter ido para a Arábia Saudita por um salário provavelmente superior. Escolheu a Turquia porque ainda significa competir na Europa – e, nas suas próprias palavras, chegou para ganhar.

A pergunta que paira sobre tudo isto é simples: será o fenómeno turco tão duradouro quanto parece? E como se compara com o que a Arábia Saudita fez – e continua a fazer? As diferenças são estruturais e começam pela origem do dinheiro. A Saudi Pro League é um projeto de Estado. Em 2023, o Fundo de Investimento Público (PIF) saudita assumiu o controlo de quatro clubes – Al Nassr, Al Hilal, Al Ittihad e Al Ahli –, transformando-os em instrumentos de soft power com capacidade de gasto ilimitada. O resultado foi imediato: nesse verão, os clubes sauditas gastaram 957 milhões de dólares em transferências, tornando-se o segundo maior mercado comprador do mundo, atrás apenas da Premier League. A Turquia não tem PIF, não tem petróleo, não tem um Estado a financiar diretamente os clubes. Tem fiscalidade favorável, tem dívida bancária reestruturada e tem imobiliário. São instrumentos diferentes.

A segunda diferença é europeia – e é talvez a mais importante. A Superliga turca ocupa o nono lugar no ranking de coeficientes UEFA, o que garante aos seus melhores clubes acesso às competições europeias. A Arábia Saudita está fora da UEFA. Para um jogador como Salah, que saiu do Liverpool, que jogou quase uma centena de jogos na Champions, a Turquia é uma opção; a Arábia Saudita não o foi — pelo menos por razões desportivas. É precisamente essa diferença que explica por que razão Ronaldo foi para Al Nassr e Salah foi para Trabzonspor: dois perfis diferentes de jogador, duas fases diferentes de carreira, duas formas diferentes de valorizar o que resta dela.

A Turquia não teve um Cristiano Ronaldo. Quando o português assinou pelo Al-Nassr em janeiro de 2023, abriu uma porta que desde então não fechou – e por ela entraram Benzema, Neymar, Mahrez, Kanté, Firmino e dezenas de outros. A Arábia Saudita teve o seu embaixador, a sua âncora mediática, o jogador que legitimou o projeto perante o mundo. A Turquia cresceu de outra forma: mesmo com donos que “deixam para o próximo resolver”, mais gradual, consistente, sem uma figura que servisse de porta de entrada, mas com uma proposta que foi ficando cada vez mais difícil de recusar. Clubes com mais história, adeptos com paixão, cidades com vida, competições europeias, e salários que, mesmo sem igualar os das monarquias do Golfo, chegam para convencer quem ainda quer jogar futebol no futebol europeu.

https://observador.pt/2023/01/02/cristiano-ronaldo-ja-esta-na-arabia-saudita-para-assinar-pelo-al-nassr/

Será igualmente abrupta nos dois casos? A Turquia já está a ser mais sustentável do que a Arábia Saudita – ainda que por razões que têm tanto de fragilidade como de resiliência. Os clubes turcos têm dívidas avultadas, mas têm ativo imobiliário, têm competições europeias e têm um regime fiscal que continua a oferecer condições que Portugal, Espanha ou França não conseguem replicar sem reformas estruturais. A Arábia Saudita tem o Estado por detrás – uma garantia quase ilimitada, mas também uma dependência que torna o projeto tão frágil quanto a vontade política que o sustenta. Quando essa vontade mudar, o dinheiro para. Na Turquia, o dinheiro é privado, é bancário, é imobiliário – e isso, paradoxalmente, pode tornar o fenómeno mais difícil de reverter do que parece.

Salah é, até hoje, o nome mais sonante desta narrativa, a par de Osihmen e Leão, que não teriam tido muitas dificuldades para entrar num grande do top-5 europeu. Mas o fio histórico que o levou a Trabzon começou muito antes de ele chegar. Em campo, Portugal está mais próximo do topo do que a Turquia. Fora dele, a Superliga senta-se cada vez mais vezes à mesma mesa que os grandes – e às vezes numa cadeira melhor.