Segunda-feira, 2 de janeiro de 2023. Quando o mundo chorava a morte de Pelé e do Papa Bento XVI, noutra parte do planeta um avião estelar fintava a noite cerrada de Riade para aterrar no aeroporto da capital da Arábia Saudita. No seu interior estava Cristiano Ronaldo que, no dia seguinte, foi apresentado aos adeptos no Al Awwal Park, aquela que era a sua nova casa e que continua a ser até aos dias de hoje. Esse foi o ponto alto do futebol saudita nos últimos três anos e meio e é um momento que transporta todo o simbolismo do que estava prestes a acontecer. Afinal, a Arábia Saudita queria afirmar-se como uma das potências do futebol mundial e a contratação de um dos melhores jogadores da história do futebol mostrava ambição nesse capítulo.
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Com o apoio do Ministério do Desporto local e do Fundo de Investimento Público, o chamado PIF, os sauditas investiram como nunca nas últimas quatro temporadas, ao ponto de continuarem a bater recordes. Em 2022/23, a época em que Ronaldo chegou ao Al Nassr, a Saudi Pro League estava avaliada em 350 milhões de euros, valor que quase triplicou na época seguinte (969 milhões) e superou a fasquia dos mil milhões em 2024/25 (1,02 mil milhões). O ano passado passou para 1,14 mil milhões, segundo os números do Transfermarkt, e, a poucos dias de a janela de transferências fechar no país do Médio Oriente (6 de setembro), os clubes sauditas da Primeira Divisão valem agora bem mais de 1,20 mil milhões de euros.
Curiosamente, este mercado ficou marcado por uma mudança no perfil das contratações, já que os clubes locais preferiram contratar jogadores mais jovens do que o habitual e no pico da carreira, em detrimento das estrelas em fim de carreira do passado. Esse fator vislumbra-se na média de idades, que se fixa agora nos 27 anos, contra os 25,8 da época passada e bastante próxima dos 26,8 de 2022/23. Para lá disso, também salta à vista uma quebra para menos de metade em termos de valor gasto pelos clubes da Saudi Pro League que, à data de publicação deste artigo, se encontrava abaixo dos 350 milhões de euros.
No ano passado foram gastos 790 milhões, ao passo que o recorde foi alcançado em 2023/24, com 974 milhões. No ano antes, já com Ronaldo, a Liga saudita movimentou apenas 64 milhões: 50 milhões em compras e 14 milhões em vendas. Deste modo, o balanço financeiro dos sauditas é, naturalmente, negativo, estendendo-se a 17 dos 27 clubes que estiveram na Saudi Pro League desde 2022. No topo da tabela estão, naturalmente, Al Hilal (-680 milhões), Al Ittihad (-406 milhões), Al Nassr (-404 milhões) e Al Ahli (-396 milhões) – sendo que o Al Hilal acaba de apresentar Ollie Watkins, do Aston Villa, por 60 milhões.
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Nas últimas semanas saltaram à tona os problemas financeiros a envolver os clubes sauditas, que acabaram por partir numa série de restrições impostas pelo PIF com vista à sustentabilidade financeira dos seus clubes e da Liga saudita no global. Nesse sentido, o Al Nassr fez apenas uma contratação até ao momento da publicação deste artigo e teve de esperar várias semanas para se conseguir libertar das amarras financeiras e assinar com Samu Costa, médio português que esteve no último Campeonato do Mundo e que custou 22 milhões de euros. Por outro lado, o Al Hilal gastou praticamente toda a sua verba em Crysencio Summerville (64,5 milhões), sendo que a estratégia foi idêntica no Al Ahli, que desembolsou 61 milhões em Francisco Trincão e Eduard Spertsyan, e no Al Qadisiyah, que pagou 61 milhões por Tijjani Reijnders. De referir que nenhum destes jogadores tem mais de 28 anos e que, embora as verbas das compras sejam mais baixas, só Al Riyadh (+7,7 milhões) e Al Fayha (+2,3 milhões) estão com um saldo positivo neste mercado.
A falta de experiência e o campeonato que decorre a “várias velocidades”
Armando Evangelista e Fábio Martins são dois exemplos do futebol português que rumaram à Arábia Saudita, embora em fases distintas. No caso do treinador de 52 anos, que se encontra atualmente sem clube, a entrada aconteceu há cerca de um ano, ao serviço do Damac. Antes, Armando tinha vindo a subir no futebol português, destacando-se primeiro no V. Guimarães B – colocou os vimaranenses na Segunda Liga em 2013/14 – antes de colocar o Arouca na Primeira Liga em 2020/21, conseguindo levar o clube à Liga Conferência em duas temporadas, entre passagens sólidas por Famalicão e Penafiel. Em 2023 teve a primeira experiência no estrangeiro ao serviço do Goiás.
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Na época passada, o treinador decidiu fazer um trajeto que tem sido comum nos últimos anos e deixou Portugal em direção à Arábia Saudita, onde encontrou um Damac com sérias dificuldades em manter-se na Primeira Divisão. Apesar de a experiência ter terminado em fevereiro e de o clube de Khamis Mushait não ter evitado a manutenção, Evangelista gostou do contacto com o futebol saudita e não descarta a hipótese de voltar à Saudi Pro League no futuro. “Não ponho de parte voltar, até porque acho que ainda posso dar mais à Liga saudita. Depois de compreender a Liga saudita e de entrar na cabeça das pessoas sauditas, uma segunda experiência poderia ajudar mais e ser mais benéfica para mim, porque perspetivo uma evolução grande na Liga saudita”, explicou. Foi no Médio Oriente que o treinador se cruzou com Fábio Martins, extremo de 33 anos que foi formado no FC Porto e destacou-se na Primeira Liga ao serviço de Desp. Chaves, Sp. Braga e Famalicão.
Ao contrário do técnico que, curiosamente, enfrentou pela primeira vez em 2011, ao serviço dos Sub-19 do FC Porto – Armando treinava o V. Guimarães –, Martins aterrou no Golfo Pérsico antes do fenómeno dos últimos anos, quando os bracarenses o emprestaram ao Al Shabab, em 2020. A experiência foi de tal forma positiva que, depois de meia época em Braga, o avançado regressou ao Médio Oriente, para jogar no Al Wahda, dos EAU. Já em 2022 regressou à Saudi Pro League através do Al Khaleej, representando o Al Hazm na última temporada, onde disputou 34 jogos (28 como titular) e anotou cinco golos e quatro assistências. Ainda assim, o contrato acabou em junho e, tal como Armando Evangelista, Fábio Martins procura um novo projeto. Em conversa com o Observador, treinador e jogador traçaram o perfil que se regista atualmente na Arábia Saudita.
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“Na Arábia Saudita existem duas realidades distintas. Se olharmos para os clubes de topo, como Al Nassr, Al Hilal, Al Ahli, Neom, Al Qadisiyah, estão muito bem estruturados e têm muitas pessoas com experiência europeia que levam uma organização diferente e trabalham de forma diferente. Depois temos clubes que estão algo atrasados na sua organização, que continuam presos ao passado e àquilo que sempre fizeram, porque estão sob a alçada de sauditas. Ainda não têm a experiência do que é o futebol europeu e um futebol mais evoluído. Normalmente os clubes que têm uma organização muito próxima da europeia são clubes que fazem parte e têm apoios do Ministério, embora, de forma direta ou indireta, todos tenham apoio. Os que têm um apoio maior, como Al Nassr, Al Ahli, Al Hilal, Neom ou Al Qadisiyah, contratam profissionais para outros departamentos, algo que os outros clubes não têm capacidade. Nota-se uma grande diferença em termos de organização”, explicou Evangelista.
“Quando cheguei, o Al Shabab era um clube com tradição no país e a verdade é que conseguimos lutar pelo título – ficámos a quatro pontos nesse ano [2020/21]. Desde então o Al Shabab nunca mais conseguiu [fazer] um campeonato como esse, também por conta do investimento que chegou, principalmente dos quatro principais clubes. Depois apareceu o Al Qadisiyah, agora há o Al Diriyah e o Al Ettifaq também teve um grande investimento. O Al Shabab também acabou por ter um grande investimento. O que se nota é que os clubes ficam para trás. Quando cheguei, o Al Khaleej era um clube que tinha acabado de subir de divisão, que lutava pela sobrevivência e que nunca tinha ficado mais de dois anos seguidos na Liga. Felizmente conseguimos a manutenção nesses dois anos e meio e fizemos história nesse aspeto. Ajudou bastante a consolidar o clube como um clube de meio da tabela. O Al Hazm foi um contexto muito parecido. O clube nunca tinha conseguido a manutenção e a verdade é que conseguimos, com um futebol até bastante atrativo”, analisou Martins.
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“Se olhar agora vejo o Al Shabab num patamar acima do Al Khaleej, que está um patamar acima do Al Hazm, mas foram experiências ótimas. Sem dúvida que há várias velocidades [na Liga saudita]. Há as equipas de cima e depois há um campeonato a meio, com o Al Shabab, o Al Ettifaq, o Al Taawoun, equipas que não têm um investimento tão grande, mas que têm algum investimento. Depois há as equipas que sabem desde o início que vão lutar para não descer de divisão, como foi o nosso caso [do Al Hazm], do Al Fateh, do Al Kholood, do Al Akhdoud. Vejo o campeonato quase como três campeonatos: as equipas de cima, as equipas do meio que podem fazer um brilharete – como aconteceu com o Al Taawoun o ano passado (6.º) — e todas as outras equipas, que sabem que vão lutar para não descer”, rematou o jogador.
A nova perspetiva de valorização da Liga em prol do espectáculo, os problemas do jogador saudita e o scouting do Ministério
Quando chegou à Arábia Saudita, o impacto foi imediato para Armando Evangelista, particularmente no que toca às “questões culturais e organizativas”. “Sabemos que é um país diferente em termos culturais. Houve algum impacto, embora os sauditas recebam muito bem e procuram que nos sintamos o melhor possível, dentro das diferenças culturais existentes. Depois há as questões de alimentação, que se sentem e têm diferenças grandes, mas não é nada que nos ultrapasse. As pessoas fazem com que olhemos para o país, para a Liga e para os clubes de forma positiva. Em relação ao Damac, é uma organização completamente diferente daquela a que estamos habituados aqui na Europa e também no Brasil. Em termos de pressão exterior não senti diferenças. A pressão é a que colocamos a nós mesmos porque queremos resultados, fazer um bom trabalho, acrescentar algo à Liga e contribuir para a evolução da Liga”, acrescentou.
“A maior pressão é mesmo o querer contribuir para que os clubes fiquem mais organizados em termos de departamentos, que grande parte dos clubes não tem – como o scouting. Estamos a falar de clubes do meio da tabela para baixo, porque os clubes de topo já têm tudo muito bem estruturado. Nos clubes do meio da tabela para baixo a pressão dos adeptos não existe ou existe muito pouco. São adeptos que acompanham principalmente pelas redes sociais. Presencialmente ainda acompanham muito pouco. Diferença? Quem trabalha nos clubes que não estão sob a alçada do Ministério nota. Em termos de contratações existe uma maior desorganização, o trabalho de scouting é feito praticamente pelas equipas técnicas, existem muitos entraves em relação aos jogadores que assinalámos e que podiam acrescentar algo ao clube, por vezes por falta de conhecimento de quem gere. Nos clubes que estão sob alçada do Ministério já existe um plano, uma estratégia de contratações e uma organização diferente, que facilita. Em termos de resultados a diferença é evidente”, realçou sobre a “nacionalização” a que se assiste no Campeonato da Arábia Saudita.
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“A Arábia Saudita e o Ministério saudita estão a perceber cada vez melhor o que é o futebol europeu, o que é o futebol e o que é o negócio do futebol. Vão introduzindo lentamente algumas regras dentro da Liga saudita para isso mesmo. Numa primeira fase, a Arábia Saudita queria criar alguma visibilidade e algum impacto, contratando jogadores que deram visibilidade à Liga, como Cristiano Ronaldo ou [Karim] Benzema. Hoje em dia a Liga saudita já abriu a possibilidade de inscrever mais dois estrangeiros para além dos oito que eram possíveis, mas têm de ser Sub-21. A Liga saudita está a perceber que tem de ter a capacidade de ter jogadores que possam valorizar para futuramente poderem negociar. Eles não querem só consumir, também querem ter jogadores mais novos para comercializar mais à frente. Já vemos clubes de topo a contratarem jogadores jovens e internacionais, como o [Nathan] Zeze, que foi contratado pelo Neom. Não era normal ver um [Francisco] Trincão a chegar à Liga saudita com 26 anos. É um jogador que, daqui a dois ou três anos, pode voltar a sair para a Europa. Por exemplo, o Rúben Neves saiu cedo de Inglaterra para o Al Hilal. Já têm a atenção do mundo, agora querem fazer parte do negócio”, justificou Evangelista.
Quanto à mudança no perfil de contratações, o treinador disse ao Observador que a Arábia Saudita sentiu que, depois de captar a atenção, quer “acrescentar qualidade para ter um produto válido que consiga comercializar”, de modo a “dar espectáculo” e a “valorizar a Liga”.
“É importante que, quem gere a Liga saudita, tenha a noção que é um processo demorado, até porque a mentalidade do atleta saudita ainda é muito amadora. A chegada de muitos técnicos estrangeiros também tem feito com que a Liga evolua. Poderá aproximar-se [das Ligas europeias], mas a médio/longo prazo, porque é necessário um trabalho de base para mudar, principalmente, a mentalidade do jogador saudita, que tem qualidade, mas é um jogador que cresce sem a exigência profissional. É difícil mentalizar e passar a paixão a um jogador saudita que não cresce dentro da paixão pelo futebol, que olha para o futebol como um passatempo, sem pensar nos sacrifícios que tem de fazer para ter um rendimento superior e ser melhor. Não chega investir muito na Liga saudita em estrangeiros. Acho que o investimento que eles vão ter de fazer neles próprios vai ditar muito o que vai ser a Liga saudita daqui a uns anos”, acrescentou.
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“O jogador saudita sempre foi um jogador que teve um papel muito confortável dentro da Liga saudita. Com a chegada e com o alargamento da Liga saudita ao número de jogadores estrangeiros que podem estar na Liga, o jogador saudita começou a sentir-se ameaçado. Antigamente só podiam usar cinco estrangeiros e hoje já podem usar oito com mais dois Sub-21. O jogador saudita ou evolui e se profissionaliza, ou começa a perder o seu espaço. Eles sentem isso e a convivência é um bocado difícil, porque sentem que começam a perder algum espaço dentro do que é a Primeira Divisão e os clubes de elite do futebol saudita. Por vezes isso atrapalha a convivência. É difícil [a gestão do jogador saudita]. Quando só podes utilizar um número de estrangeiros, precisas do jogador saudita. O jogador saudita tem dificuldades em cumprir horários de treino, em ter uma alimentação saudável e prefere ter duas ou três folgas do que estar a treinar. Não tem aquela paixão. Um jogador europeu tem que procurar gerir isto da melhor forma, por exemplo, a tentar motivá-los, a fazer com que estejam o maior tempo possível dentro das instalações do clube, a mostrar-lhes que uma alimentação adequada vai fazer com que ele renda mais. É uma luta diária para os tentar aproximar daquilo que é a realidade do futebol profissional”, explicou o treinador.
Se a gestão do jogador é um ponto negativo, o mesmo não se pode dizer dos conceitos táticos, com Armando Evangelista a destacar a riqueza que é empregada pelos treinadores de diversas nacionalidades. “Em termos táticos, o que vemos na Europa não difere muito do que vemos na Arábia Saudita. As equipas são bem trabalhadas e não fogem ao que vemos na Europa. Em grande parte do país e em grande parte do ano tens de escolher bem os horários para treinar porque, nas épocas de muito calor, é impossível treinar à hora a que se treina na Europa. Por vezes a temperatura até permitia treinar de manhã, mas o jogador saudita não está habituado e não quer treinar de manhã porque eles vivem muito de noite, por questões climatéricas e culturais. Querem a manhã para descansar e para dormir. Tentou-se mudar, há quem continue a tentar, mas não é fácil. A dimensão do país faz-me lembrar o que vivi no Brasil, com viagens longas – fora de casa tens de ir sempre de avião – e muita dificuldade na organização de uma saída para ir jogar fora. Os sauditas não valorizam muito isso. O que interessa é chegar lá, jogar e o dia de jogo. A forma como se prepara o jogo ainda é irrelevante para eles. Grande parte dos clubes de topo já viaja em aviões particulares, mas os clubes de baixo ainda têm esse problema, que é muito grande”, rematou.
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Quanto ao futuro, o ex-técnico do Al Hazm prevê que “vai haver mais clubes a lutar pelo título”. “Hoje em dia temos o Neom e o Al Qadisiyah com um investimento muito elevado – vemos o [Mateo] Retegui e o [Julián] Quiñones no Al Qadisiyah, que teve a capacidade de ir buscar o Otávio ao Al Nassr. Alguns clubes vão intrometer-se cada vez mais na luta pelo título. O Al Ittihad também está a lutar e o Al Ettifaq apareceu muito bem este ano. Na Segunda Divisão temos o Al Ula, que é treinado pelo José Peseiro, que é um clube que vai aparecer num futuro próximo porque também faz parte do Ministério e tem muita capacidade financeira. Se o projeto não regredir, vamos ter um campeonato mais evoluído. Acredito que a Arábia Saudita, se continuar com o rigor que tem tido, vá ter um campeonato evoluído e mais atrativo. O Ministério do Desporto da Arábia Saudita tem o seu próprio scouting, com pessoal espanhol, francês, marroquino, egípcio ou saudita, a trabalhar para o próprio país. São eles que validam ou não a entrada de determinados jogadores e propõem a determinados clubes alguns jogadores que vão vendo e acompanhando”, terminou Armando Evangelista.
Fábio Martins, do “sim” antes do fenómeno à tentativa de encontrar um projeto depois da Arábia Saudita
Quanto a Fábio Martins, o extremo de Mafamude realça que a principal mudança que aconteceu nos últimos anos está relacionada com o “marketing e a envolvência com o mundo”. “O olhar do mundo ficou muito mais presente, as pessoas ficaram muito mais interessadas em ver o que se passa ali. Com isso tiveram que melhorar automaticamente. Tiveram que melhorar as organizações dos clubes e tudo em torno do futebol. Acho que ainda há muita coisa por melhorar – disso não existe dúvida –, mas está muito melhor do que era há seis anos, quando eu cheguei. Apesar de serem apaixonados pelo futebol, de gostarem muito de futebol e de viverem o futebol de uma maneira muito própria, acho que essa paixão aumentou desde o momento em que todas estas estrelas chegaram ao país. Se compararmos com o que se via há seis anos, há uma clara diferença. São quase dois campeonatos distintos”, refletiu.
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“Acredito que essa mudança e transformação passe muito pelo jogador árabe, que noto que está mais comprometido, apesar de faltar muito comprometimento, empenho e profissionalismo. A verdade é que estão muito melhores do que estavam antes da chegada de todos estes craques. Sem dúvida que o fator principal foi essa chegada. Eles percebem que estão a ser vistos por mil olhos e que um jogador de futebol profissional tem de ter determinados comportamentos e fazer as coisas de determinada maneira. Já se notam jogadores mais preocupados com a alimentação e com a questão do treino. Tentam olhar para nós como exemplo e tentam replicar um bocadinho os nossos hábitos. Isso é muito bom. Mudou a maneira como a Europa e o mundo olham para o futebol saudita e para o país em si, mas também mudou muito o que é o futebol saudita por dentro. Tudo teve que melhorar. Para ter estrelas deste calibre, há muitas coisas que não podem ser como eram antes de eles chegarem. Foi um investimento enorme do país, da Liga e do PIF que, nesse aspeto, teve um excelente retorno, porque as coisas melhoraram bastante”, acrescentou.
“Sinto cada vez mais que os jogadores têm vontade de ir para a Arábia Saudita, porque a questão financeira é muito importante na nossa profissão e eles percebem que, para garantir a independência financeira e o melhor contrato da carreira, têm que ir para a Arábia Saudita. A verdade é que não há outro lugar que pague tanto como a Arábia Saudita. Os clubes da Europa, da América do Sul, da América do Norte e da Ásia olham para os jogadores que já estão há alguns anos nesta Liga de uma maneira diferente. Parece que, a partir dos 30 anos, já estão retirados e não têm condições para jogar a um bom nível. Vejo isso por mim e pelo Tozé [33 anos, terminou contrato com o Al Riyadh], porque estamos com alguma dificuldade… Os projetos aparecem, mas não são os projetos certos. Posso dizer que recebi abordagens do Iraque, da Líbia ou do Líbano, que não fazem sentido para mim neste momento. Tudo o que chega é com salários bem abaixo ou simplesmente não chega porque não acreditam que um jogador com 33 anos que esteve na Arábia Saudita cinco anos possa ter o rendimento que eles esperam”, partilhou Martins com o Observador.
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“Fisicamente e mentalmente, sou um jogador muito mais maduro do que era quando saí da Europa. Sou um jogador muito mais completo e sinto-me perfeitamente capaz de cumprir e de brilhar noutros palcos. Isso vai acontecer naturalmente, quando aparecer um projeto que eu ache que seja o ideal para mim e que faça sentido. Não tenho dúvidas nenhumas de que vou corresponder, porque tenho-me preparado para isso, sei da minha qualidade e acredito nas minhas capacidades. Não me arrependo da decisão de ter ido para a Arábia Saudita e acho que agora essa decisão seria ainda mais fácil, por todo o contexto e todos os jogadores que estão na Liga. Na minha altura não havia estes craques todos. Na minha equipa tinha apenas o [Éver] Banega. Atualmente é muito diferente. Há muito melhores jogadores, o contexto da Liga é muito diferente, paga-se muito mais… a decisão seria muito mais fácil do que foi há seis anos”, recordou.
“Sendo estrangeiro e um jogador importante para o clube em termos salariais e de imagem, o que sentia é que era praticamente obrigado a jogar. Só não jogava se não conseguisse andar. Se sofresse um toquezinho, na Europa provavelmente era gerido e não jogava para me poupar e agravar uma lesão. Ali os estrangeiros são obrigados a jogar porque há um pressing muito grande para que isso aconteça. A maneira de trabalhar também é diferente. Notei mais a questão dos horários. Na Europa treina-se quase sempre de manhã e ali os treinos são ao final da tarde. É um fator que é difícil de adaptar ao início. Fora isso, a verdade é que o futebol é futebol em qualquer lado. No final, depois dessas adaptações, acabas por estar a fazer o que mais gostas e colocas de parte essas diferenças”, disse ao Observador.
Quanto ao futuro, Fábio Martins também assinalou as mudanças que têm acontecido e vai aguardar com expectativa pelos “próximos dois anos”. “Notei um claro desinvestimento este ano. Não sei se é por conta da guerra, se perceberam que os jogadores vão na mesma se pagarem 40 em vez de pagarem 100. Este ano houve várias contratações de jogadores de países que, na teoria, nunca encaixariam neste contexto, como RD Congo ou Cabo Verde — com todo o respeito. Só porque estiveram no Mundial abriram portas. Também houve jogadores do Ruanda a assinar. Sabemos que, por vezes, o barato sai caro. É difícil para nós, europeus, porque sabemos a nossa qualidade e não vamos para qualquer lado por qualquer valor. Depois temos estas questões de outros países que, como estão habituados a receber menos ainda, aceitam ir para os mesmos contextos por muito menos. Isso acaba por nos fechar a porta. Vamos ver o que acontece nos próximos anos. Acho que, se este desinvestimento continuar, a Liga vai cair um bocadinho. Este ano já vejo equipas que não têm tanta qualidade individual como era suposto numa liga como a saudita. Vamos ver o que acontece”, concluiu.
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