À exceção do futebol, tenho alguma dificuldade com maniqueísmos. Infelizmente, o debate público está pejado de confrontos sobre-humanos vendidos como combates entre iluminados e bestas. Hoje só se é inteligente quando se arrasa alguém ou se deixa o outro “sem pio”. Ceder, compreender ou dar a face é visto como fraqueza.
Na semana passada, o Expresso noticiou que os Estaleiros de Viana têm encomendas até 2030. A notícia tem gerado debate entre aqueles que se agarraram a estes números para enaltecer o sucesso da privatização e aqueles que preferem ver nestes dados uma viabilidade empresarial desperdiçada pelo Estado. Não quero falar sobre isso. O meu ponto é diferente. Creio que ambos os lados têm dificuldade em compreender o que as pessoas de Viana sentem face a isto e, em consequência, as mudanças de época que atravessamos. Para uns, os vianenses são uma espécie de primatas que não entendem a mais elementar racionalidade económica. Para outros, os vianenses são uns comodistas burgueses que desistiram de lutar. Nem uma coisa, nem outra.
Quando, ainda hoje, as pessoas falam com saudade dos Estaleiros, não têm saudades de uma empresa falida. Quando, na altura da transição para a Martifer, existiu um grande volume de protestos, a maioria das pessoas não queria continuar a trabalhar numa empresa em dificuldades. Não existiam pessoas mais insatisfeitas com a situação do que os próprios trabalhadores. As pessoas queriam era que os Estaleiros continuassem a ser o que sempre representaram para elas.
Para quem é de Viana, os Estaleiros representaram a reconfiguração do tecido social e laboral da região. Representavam a saída de uma sociedade rural, cheia de sacrifício, pobreza e abandono, para uma sociedade mais segura. Grande parte das pessoas, nomeadamente a geração dos meus bisavós, pôde deixar os antigos trabalhos agrícolas e passar a ter um trabalho com horário e salário certos, assegurando assim, mais facilmente, o sustento e a educação dos filhos. Todos os meus bisavós de Viana trabalharam nos Estaleiros. O meu avô, todos os seus irmãos e todos os irmãos da minha avó trabalharam nos Estaleiros. O meu pai teve o seu primeiro emprego nos Estaleiros. A minha mãe, com 20 anos, grávida de mim, estagiou nos Estaleiros. Quando fui para a escola, grande parte dos pais dos meus colegas trabalhava ou tinha trabalhado nos Estaleiros.
Ou seja, os Estaleiros de Viana representavam uma forma de unificação do tecido social. As pessoas trabalhavam, na sua maioria, no mesmo sítio, debaixo do mesmo teto, almoçavam juntas e tinham experiências semelhantes, da mesma forma que liam o mesmo jornal e viam o mesmo canal de televisão. Pessoas diferentes podiam ter interesses e origens diferentes, mas havia algo que as unia: os Estaleiros. Além disso, trabalhar nos Estaleiros, numa cidade pequena como Viana, permitia outra coisa: ter um emprego que, embora fosse estatal, não dependia diretamente do funcionalismo público. E foi essa independência que, mais tarde, permitiu a criação de um grupo desportivo e de uma associação cultural, que podiam equiparar-se às instituições camarárias. Pode parecer ridículo, mas muitas vezes ter um pai ou um avô a trabalhar nos Estaleiros era a única hipótese de: 1) ter uma prenda de Natal, 2) ter explicações, dado que os Estaleiros proporcionavam apoio escolar aos filhos dos trabalhadores, 3) ver os últimos filmes de animação. Pelo menos uma vez por ano, numa cidade onde havia uma só sala de cinema, sabíamos que, na festa de Natal dos Estaleiros, para onde os filhos e netos dos trabalhadores eram convidados, seria projetado, para os miúdos, o maior sucesso do ano em películas de animação. Foi nessa ocasião que vi A Idade do Gelo e Toy Story 2. Para quem é de Viana, os Estaleiros representavam uma dimensão de previsibilidade e estabilidade. No caso-limite do filho ou da filha de uma qualquer família serem calaceiros na escola, era muito provável que os pais não tivessem de viver sufocados com a ideia de que eles viveriam na miséria ou voltariam para o passado rural da família. Quantas vezes ouvi: “Não queres estudar, é muito fácil: não ficas em casa, vais trabalhar para os Estaleiros”. No universo cultural criado pelos Estaleiros, trabalhar era uma obrigação. Não havia lugar para espertinhos. Ias para os Estaleiros ganhar dinheiro e ver o que custa a vida. Eu próprio podia ter sido a 4.ª geração seguida da minha família a trabalhar nos Estaleiros.
Atenção: não estou a dizer que tudo isto é certo, legítimo ou aceitável. Não é preciso concordar com algo para o compreender. Mas a minha opinião é que não podemos entender as tensões do atual espaço público sem compreender que, para muitas pessoas, este tipo de decisões terminou com o mundo que elas tinham conhecido, sonhado e construído. É verdade que a decisão abriu uma enorme variedade de caminhos, mas também criou uma dificuldade: é mais exigente reconhecermo-nos como habitantes do mesmo espaço. Grande parte das pessoas que conheço, algumas extremamente implicadas na vida social e sindical dos Estaleiros, não têm mau perder face à situação. Ficam genuinamente contentes com as notícias que vêm a público e são as primeiras a satirizar o modo, por vezes informal (para dizer o mínimo), que a empresa tinha. Mas também são honestas ao afirmar que algo não lhes foi devolvido. Como elas, muitos de nós sentimos isso: na verdade, o mundo trouxe-nos progressos, mas pode ter-nos roubado algo mais essencial.
Hoje os Estaleiros produzem incomparavelmente mais riqueza. Mas isso não significa que produzam, necessariamente, uma vida com sentido e propósito. Hoje os Estaleiros têm mais viabilidade económica, mas isso não significa que criem uma comunidade.
Acima de tudo, esta é a minha tese: embora tenha sido lida como uma erupção revolucionária, influenciada pelo marxismo, aquilo que aconteceu em Viana com os protestos contra a privatização foi uma tentativa de revolução conservadora. Roubando a ideia ao grande Michael Oakeshott, o que muitos de nós temos é um apego ao familiar, um ceticismo face à mudança, uma valorização do hábito transmitido pelas gerações e uma enorme disposição para desfrutar do presente. Julgo que não perceber isto não é só não entender o Minho; é não entender o mundo em que vivemos.