Vantagem de dois golos conseguida na primeira mão na Luz. Vantagem de ter adiado o encontro da terceira jornada do Campeonato em Moreira de Cónegos para fazer uma semana “limpa” de trabalho. Vantagem de contar com mais unidades de treino para criar maiores rotinas na equipa. Vantagem individual e coletiva frente a um adversário demasiado fustigado por lesões de elementos habitualmente titulares num conjunto que é pouco mais do que uma sombra daquele que se sagrou campeão 40 anos depois. O Benfica chegava à Dinamarca com quatro grandes vantagens em relação ao Aarhus e era em cima dessas vantagens que queria construir a derradeira ponte para a entrada na Liga Europa que fechasse um ciclo atípico no arranque da temporada como há muito não se via na Luz com um total de oito encontros oficiais apenas em 28 dias.
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Ainda assim, apesar dessa maré de supremacia, Marco Silva deixava sobretudo alertas em relação à viragem da corrente do jogo caso a formação escandinava conseguisse assegurar um avanço inicial. “Esperamos uma entrada forte de uma equipa que vai querer aproveitar o fator casa. Vai querer deixar-nos intranquilos. É uma equipa que vai querer ter bola e que tem muita posse na sua liga. Tentaram isso na nossa casa mas não deixámos com um jogo muito competente. Temos de dar continuidade. Foi uma semana importante porque os muitos jogos de pré-temporada foram semanas totalmente diferentes”, frisava o técnico dos encarnados, sempre a evitar cair em cenários de favoritismo que pudessem resvalar depois em traços de facilitismo.
“É um cenário diferente, numa eliminatória muito positiva, depois de um jogo que nos deu muita confiança. O resultado em casa podia ter sido mais desequilibrado. Na nossa estratégia tática estivemos muito bem, apesar do golo sofrido num erro. Esperamos um adversário forte no arranque e teremos de continuar num bom nível. Esperamos uma pressão mais forte na primeira fase de construção”, reforçara numa conferência onde teve de pedir por duas ocasiões para se centrar mais na partida do que nas questões extra jogo, entre a oficialização de João Palhinha, a possível estreia de Circati ou a ausência por lesão de Aursnes. E foi à boleia disso que abordou um dos pontos que gostou menos da partida realizada há uma semana em Lisboa.
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“O Circati podia ter sido convocado no último jogo mas esteve apenas com os companheiros a ambientar-se. Depois de quatro sessões de treino, já entrou na convocatória. Já o Palhinha era o que nós procurávamos. Percebo todo o entusiasmo que gerou, é um internacional português e um jogador que conheço bem e vai acrescentar muito à equipa. Golo sofrido? Nem sempre quando se sofre, a culpa é do central. Se soubesse que deixava de sofrer golos com o Circati ele entrava de certeza… Concedemos muito poucas oportunidades no último jogo. Um erro não belisca um jogo muito bom a nível de organização defensiva”, fez questão de destacar, sem abordar muito das ideias que trazia para a Dinamarca no sexto jogo de qualificação.
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Como o próprio Marco Silva assumiu, “é muito difícil criar a equipa de sonho com apenas oito semanas de trabalho”. Mais: o Benfica de hoje, com Enzo Barrenechea e Leandro Barreiro no meio, terá pouco a ver com o Benfica de amanhã, contando com João Palhinha e Aursnes no corredor central. No entanto, e antes dessa operação que funcionará como matriz final da real mudança de identidade dos encarnados para esta época, havia trabalho a fazer entre a consolidação de tudo o que a equipa tem feito de bom do meio-campo para a frente e a afinação de tudo o que a equipa tem de fazer do meio-campo para trás. Ambos os objetivos foram alcançados, de novo com o maior empurrão para essa metamorfose: a colocação de Prestianni e Rafa nas posições certas não só promove a melhor versão de ambos como muda a dinâmica de todos os outros. Com isso, e tendo Leandro Barreiro a encher o campo, a vitória por 3-1 tornou-se quase natural numa noite em que apenas Sudakov voltou a ficar aquém daquilo que se espera estando também na “sua” posição.
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Ficha de jogo
Aarhus-Benfica, 1-3
2.ª mão do playoff da Liga Europa
Randers Stadion, em Randers (Dinamarca)
Árbitro: Daniel Siebert (Alemanha)
Aarhus: Hedenstadt; Andersen, Callö (Rösler, 69′), Camara; Carstensen, Jönsson, Arnstad (Knudsen, 62′), Anderson (Jörgensen, 62′), Links (Emmery, 83′); Bech e Serra (Tchamche, 46′)
Suplentes não utilizados: Hansen, Van der Raad, Solbakken, Molgaard, Kahl, Bogere e Storch
Treinador: Jakob Poulsen
Benfica: Samuel Soares; Bah, Tomás Araújo, Lenglet (Circati, 83′), Dahl; Enzo Barrenechea, Leandro Barreiro; Rafa Silva (Schjelderup, 65′), Sudakov (Gonçalo Moreira, 65′), Prestianni (Lukébakio, 75′) e Pavlidis (Jhon Durán, 75′)
Suplentes não utilizados: Trubin, Gabriel Índio, José Neto, Manu Silva, Richard Ríos, Kaminski e Anísio Cabral
Treinador: Marco Silva
Golos: Prestianni (19′ e 61′), Rafa (56′) e Carstensen (60′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Camara (25′) e Carstensen (45+1′)
A partida começou com um ponto comum e outro que fazia toda a diferença. Por um lado, as duas equipas apostavam em zonas de pressão mais altas sempre que possível para condicionarem as primeiras zonas de construção contrárias. Por outro, o Benfica mostrava muito melhor capacidade de controlar a partida com bola a partir de trás, com Enzo Barrenechea a descer para o meio dos centrais em posse antes da tentativa de saltar as linhas defensivas dos dinamarqueses para sair rápido ou trabalhar nos habituais triângulos entre lateral, ala e um dos médios interiores. De forma natural, os primeiros lances de perigo pertenceram aos encarnados tendo Leandro Barreiro em destaque, a desviar de cabeça ao poste um livre lateral da direita de Sudakov (7′) e a rematar depois de pé esquerdo ao lado na área, numa jogada que tinha iniciado com uma boa desmarcação num movimento de rutura mais descaído sobre a direita do ataque (12′).
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Parecia uma questão de tempo até chegar o primeiro golo mesmo sem aquela enxurrada ofensiva do Benfica que se tinha visto na Luz e bastou Rafa ser ativado nos movimentos por dentro para haver esse desbloqueio do marcador: jogada de envolvimento pela direita com o avançado a soltar para a subida de Bah, cruzamento rasteiro que passou por Sudakov sem que o ucraniano conseguisse tocar na bola e remate de primeira de Prestianni a desviar ainda num defesa contrário antes de entrar para o 1-0 (19′). Se não havia muitas dúvidas em relação à eliminatória, o seu destino ficava ainda mais traçado, com os encarnados a terem logo de seguida um lance que serviu de abre-olhos a qualquer tipo de relaxamento numa jogada em que Daniel Siebert chegou mesmo a marcar penálti por falta de Enzo Barrenechea mas anulou depois a decisão (23′).
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Assim, continuou a imperar a lógica das tais “vantagens” supracitadas. O Benfica era superior em todos os capítulos de jogo e ficava apenas a dever a si a vantagem pela margem mínima ao intervalo tendo em conta as oportunidades que continuou a criar neste caso sem a mesma eficácia, entre um desvio de cabeça na área de Leandro Barreiro após assistência de Prestianni que não conseguiu mudar a trajetória final (27′), um lance à Romário de Pavlidis na área que terminou também nas mãos de Hedenstadt na sequência de outro grande passe ao meio de Rafa (35′) e um remate em arco por cima de Prestianni (43′). O jovem argentino voltava a ser a principal chama das várias ignições do ataque dos encarnados e todos os assobios que ia ouvindo dos adeptos contrários nas bancadas mais não eram do que um elogio para tudo o que estava a fazer…
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A forma como Rafa, num dos últimos lances da primeira parte, foi fazer uma compensação à defesa quando Bah estava a receber ainda assistência médica e a maneira como Enzo Barrenechea varreu de carrinho na área uma jogada que podia levar perigo eram mais duas imagens de todo um retrato de total metamorfose do futebol dos encarnados em relação à última temporada. Agora, levantava-se outro “obstáculo”: manter essas mesmas dinâmicas ofensivas e a capacidade para controlar a partida com e sem bola tendo essa passagem virtualmente assegurada e frente a um Aarhus apostado em mostrar outra face no segundo tempo. Seria só uma questão de tempo até aparecer essa resposta – jogada de envolvimento na esquerda entre Prestianni e Dahl com cruzamento rasteiro do sueco e grande remate em arco de pé esquerdo de Rafa para o 2-0 (56′).
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Ficava tudo fechado de vez, sem que o Benfica fizesse a partir daí qualquer pacto de não agressão a pensar no encontro de segunda-feira frente ao Estoril mas sempre a mostrar que o melhor era mesmo não mexer com aquilo que estava decidido: Carstensen reduziu a desvantagem num lance em que intercetou um passe do eixo central recuado para Sudakov e fez um chapéu a Samuel Soares contando com um desvio no pé de Dahl (60′) mas, logo no minuto seguinte, Prestianni deixou em silêncio os adeptos do Aarhus com o melhor golo da noite, numa jogada em que recebeu um passe longo de Lenglet, fez a diagonal da esquerda para o meio e atirou em jeito ao ângulo para o 3-1 (61′). A história da estava de vez contada, numa noite que serviria ainda para Marco Silva promover a estreia do central Circati nos derradeiros dez minutos da partida.
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