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(A) :: Passagens da fronteira, peregrinações hindus e ajuda da China. Como o "boom económico" de Rawusa foi abalado por uma enxurrada

Passagens da fronteira, peregrinações hindus e ajuda da China. Como o "boom económico" de Rawusa foi abalado por uma enxurrada

Região tradicionalmente rural do Nepal beneficiou da proximidade à China para se tornar eixo comercial, turístico e alvo de investimentos energéticos. Agora, um glaciar pôs tudo em causa.

Madalena Moreira
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É a mais de 4 mil metros de altitude, na região montanhosa de Rasuwa, no Nepal, que fica o lago Gosainkunda, uma das maiores atrações turísticas na região e um local sagrado para o hinduísmo. “Os devotos acorrem em massa a este lago no dia propício de Janai Purnima, em julho, para dar um banho sagrado nas águas geladas e purificar-se dos seus pecados”, pode ler-se na página oficial de turismo do Nepal. Em 2026, contudo, o feriado, seguindo o calendário hindu, celebra-se apenas esta sexta-feira, dia 28 de agosto.

Foi no trilho até Gosainkunda que centenas de turistas e peregrinos foram, esta quarta-feira, apanhados pelas cheias repentinas que fizeram transbordar o rio Bhotekoshi e inundaram Rasuwa e as regiões vizinhas de Nuwakot e Dhading, depois do colapso de um glaciar no rio, a montante. Os números mais recentes das autoridades nepalesas dão conta de mais de 1.500 desaparecidos (entre os quais pelo menos 700 estrangeiros) e pelo menos 543 mortos. Mais de 3 mil pessoas já foram resgatadas.

O elevado número de vítimas não se explica apenas com o turismo associado ao Janai Purnima. É em Rasuwa que fica a Rasuwagadhi, uma das mais movimentadas passagens da fronteira entre o Nepal e o Tibete. Sendo o Nepal o único país que partilha uma fronteira com a região autónoma, o intenso trânsito comercial — mas também de turistas e peregrinos — é habitual. Para além das características sociopolíticas, também as características naturais da região, que a tornam particularmente suscetível a catástrofes naturais, pesaram na dimensão da tragédia.

“Uma região muito vulnerável” que a China tornou atrativa

A região de Rasuwa é habitada há séculos. Nos últimos censos do Nepal, em 2021, viviam em Rasuwa 50 mil pessoas, com uma parte significativa a pertencer à minoria étnica Tamang. Mas isso não quer dizer que esta seja uma região particularmente acolhedora no que toca às suas características naturais. Pelo contrário, “é uma região muito vulnerável”, aponta Galen Murton, geógrafo norte-americano que estudou as infraestruturas nepalesas, ao New York Times.

Geograficamente, Rasuwa destaca-se pelo perfil montanhoso com desfiladeiros acentuados, característicos da cordilheira dos Himalaias. No topo das montanhas ficam enormes glaciares, no sopé encontram-se as povoações nas margens do rio Bhotekoshi, que se estende ao longo de 720 quilómetros, desde o Tibete, até à Índia. A zona torna-se vulnerável a desastres quando as monções — a época de chuvas intensas característica do sistema meteorológico da região ocorre entre junho e setembro — “chocam” com os Himalaias, provocando inundações e deslizamentos de terras frequentes.

Estes riscos existem desde que foram feitos os primeiros assentamentos, mas tornaram-se mais frequentes com o acelerar das alterações climáticas. “Prevê-se que os desastres globais aumentem 40 por cento entre 2015 e 2030, impulsionados pelas alterações climáticas e pela subestimação sistémica dos riscos”, alertava, no ano passado, a agência da ONU para a redução do risco de desastres. No verão passado, uma outra inundação em Rasuwa matou sete pessoas, derrubou a Ponte da Amizade Nepal-China (um dos principais eixos de conexão entre os dois países) e destruiu várias estradas.

Apesar dos riscos, nos últimos anos a região testemunhou um “boom económico“, declarou Austin Lord, antropólogo que estudou os desastres naturais no Nepal, também ao New York Times. A justificação para esse desenvolvimento económico está, precisamente, na ligação à China, que Katmandu aprofundou durante os últimos anos. A reconstrução das estradas destruídas nas inundações do ano passado é um exemplo dessa cooperação.

As reparações numa secção de 16 quilómetros de uma estrada nepalesa que termina na fronteira com o Tibete foram efetuadas com recurso a financiamento de Pequim, que previa ainda os seus melhoramentos, transformando a via numa estrada de duas faixas. Essa nova secção foi totalmente destruída na enxurrada desta semana, detalhou o Ministério das Estradas do Nepal, citado pela imprensa local. Não foi a única. Ao todo, 19 estradas ficaram completamente intransitáveis, devido à destruição das vias — às quais se somam as que ficaram obstruídas. Uma das vias destruídas foi a estrada que, ao longo de 42 quilómetros, faz a conexão entre a passagem da fronteira em Rasuwagadhi e um outro local sagrado para os hindus, Betrawati, e que ficou completamente intransitável.

O investimento chinês nas estradas do Nepal é explicado com o desejo de facilitar as exportações através da fronteira terrestre — o New York Times aponta em particular a exportação de veículos elétricos. Mas a China desenvolveu ainda projetos na área da produção de energia. Para o Nepal, a aposta de Pequim foi ainda mais significativa, já que uma região historicamente rural passou a ser um eixo economicamente relevante. E, com isso, emergiram novas oportunidades de emprego: de camionistas a funcionários da construção civil, passando por operadores das novas infraestruturas e forças de segurança.

A presença desta força de trabalho reflete-se no número de nepaleses que estão desaparecidos na sequência da enxurrada. A maior parte (161) eram residentes da região de Rasuwa e 85 eram funcionários da polícia ou do Exército. Outros 113 nepaleses desaparecidos eram turistas, apontados pelo Turismo do Nepal como pessoas que celebravam o Janai Purnima. Mas a maior parte dos turistas desaparecidos na região são estrangeiros.

Um parque nacional, trilhos na montanha e peregrinações até ao Tibete

Em 2019, mais de 30 mil peregrinos indianos passaram a fronteira entre o Nepal e o Tibete, rumo a Kailash Manasarovar Yatra, local sagrado para hindus, budistas, jainas e bönpos (Bön é uma religião praticada no Tibete, próxima do budismo). Existem três roteiros populares para realizar a peregrinação desde a Índia até ao Tibete, passando pelo Nepal. Um deles vai desde a capital, Katmandu, até Rasuwagadhi — um trilho que segue pela zona afetada pela enxurrada. A montanha Kailash e o lago Manasarovar ficam mais de 500 quilómetros depois da fronteira, no planalto tibetano, descreve a imprensa indiana.

A popular peregrinação era uma fonte de rendimentos para as várias regiões do Nepal: os peregrinos (ou meros viajantes a percorrer o trilho) precisavam de alojamento e refeições, marcavam voos e transferes e contratavam guias turísticos para os acompanhar no percurso. Contudo, tudo isto esteve suspenso durante cinco anos, entre 2020 e 2025. Inicialmente, a passagem foi fechada na fronteira em 2020, devido à pandemia de Covid-19.

Porém, depois do fim das restrições, a China impediu a retoma da normal circulação, devido a disputas fronteiriças com a Índia. As disputas não estavam diretamente relacionadas com as zonas da fronteira onde ficam os trilhos para Kailash Manasarovar Yatra, mas a diplomacia trilateral entre China, Nepal e Índia neste sentido passou para segundo plano e apenas uma das três passagens foi reaberta — Rasuwagadhi foi uma das que permaneceu encerrada.

A circulação e as peregrinações oficiais organizadas pela Índia só foram retomadas no ano passado. Em janeiro deste ano, o crescimento do turismo já se fazia sentir: nos últimos seis meses de 2025, quase 33 mil turistas tinham visitado a região de Rasuwa, segundo dados do Parque Nacional Langtang. É dentro deste parque que fica o anteriormente mencionado lago Gosainkunda. O trilho para lá chegar pode durar um ou dois dias a percorrer, mas Langtang é ainda popular por quedas de água e a forte herança cultural Tamang.

As estimativas para este ano superavam os números do ano anterior, em que foram contabilizados cerca de 44 mil turistas — ao longo de 12 meses. Os dados relativos a 2025 detalhavam que quase 20% dos turistas eram estrangeiros — para quem a entrada no Parque Nacional é mais cara, gerando, portanto, mais lucro.

Os dados relativos ao turismo na região refletem-se no número de vítimas da enxurrada desta quarta-feira. Dos 540 turistas estrangeiros desaparecidos, 288 são indianos. Pelo menos três agências turísticas confirmaram o desaparecimento de dezenas de clientes que realizavam a peregrinação até Kailash Manasarovar Yatra. Pelo menos 90 cidadãos dos Estados Unidos, 51 da Malásia, 55 da Ucrânia, 39 da Austrália e 33 do Reino Unido continuam desaparecidos. O Turismo do Nepal relatou que há ainda desaparecidos de outras 25 nacionalidades, incluindo três portugueses. Para além dos trilhos montanhosos, muitos dos turistas foram ainda apanhados pela enxurrada no posto de fronteira entre o Nepal e o Tibete.