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(A) :: A silly season de São José Almeida

A silly season de São José Almeida

É redondamente falso que exista em Portugal “um ensurdecedor silêncio e um real bloqueio da capacidade autocrítica de muitíssimos portugueses”, como São José Almeida garantiu.

João Pedro Marques
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Como estamos em plena silly season e os políticos estão de férias, a jornalista São José Almeida ficou sem assunto para o seu artigo semanal e meteu-se a escrever sobre coisas que não domina. É isso que explica o seu artigo do passado dia 15 de Agosto, no jornal Público, no qual censurou os portugueses por não terem dado importância a uma passagem da encíclica Magnifica Humanitas, de 15 de Maio de 2026, na qual, segundo escreveu equivocadamente a jornalista, “o Papa Leão XIV pede desculpa pelo silêncio e conivência da Igreja Católica Apostólica Romana para com a escravização entre os séculos XV e XIX”. São José Almeida sublinhou que o Papa lamentava “o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura”, e que tivesse sido preciso esperar até ao século XIX “para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Leão XIII”. Estas ideias do actual Papa trouxeram à memória de São José Almeida o discurso de Lídia Jorge proferido a 10 de Junho de 2025 e levaram-na a concluir que “existe em Portugal medo de olhar para a História do país, existe um ensurdecedor silêncio e um real bloqueio da capacidade autocrítica de muitíssimos portugueses. Talvez por isso, quer intelectuais, quer políticos continuem a calar o passado, em muito do que esse passado construiu de negativo”.

Ora, há aqui três erros de monta. É preciso dizer, em primeiro lugar, que São José Almeida leu mal pois, na encíclica, o Papa Leão XIV pediu desculpa por toda a escravatura, de todos os seres humanos — “em nome da Igreja, peço sinceramente perdão” —, e não apenas pela que envolveu africanos a partir do período dos Descobrimentos. Aliás, a encíclica nem sequer refere o século XV, ao contrário do que São José Almeida afirmou — o documento original, nomeadamente os seus pontos 175 e 176, pode ser lido aqui —, e fala, lamentando-a, em 18 séculos de tolerância da Igreja para com a escravatura, sendo, portanto, óbvio que não se refere apenas ao sistema escravista transatlântico que explorou escravos africanos e ameríndios e que existiu apenas durante quatro séculos.

Há, depois, um erro de interpretação por, suponho eu, desconhecimento. O Papa Leão XIV afirmou, e muito bem, que “os acontecimentos do passado não podem ser considerados de forma a-histórica, como se os critérios amadurecidos ao longo do tempo tivessem estado sempre disponíveis”. Todavia, logo acrescentou que “não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura”. São José Almeida não soube interpretar este sentimento de atraso, e o lamento a ele associado, e isso justifica que eu acrescente aqui algumas palavras sobre o assunto. Há claramente, da parte da actual Igreja um mau estar relativamente ao seu passado na matéria. Eu diria, conjecturando, que esse mau estar terá menos que ver com a forma como as autoridades religiosas lidaram com essa questão na Antiguidade, na Idade Média e na Idade Moderna, e mais com a forma como lidaram — ou, melhor dizendo, como demoraram a lidar — com o seu fim, no século XIX.

Nos séculos XV ou XVI a posição da Igreja face ao problema do tráfico e da escravidão foi coerente com o seu tempo e com a forma como esse problema era, desde São Paulo, e com uma ou outra rara excepção, entendido e resolvido no contexto do cristianismo. Foi a partir do último terço do século XVIII que começou a haver uma discrepância acentuada entre a posição da Igreja e as ideologias e iniciativas políticas que exigiam a abolição, e que já iam avançando nesse sentido. A Igreja Católica não foi pioneira no combate ao tráfico e à escravidão. Envolver-se-ia nesse combate mais tarde, no final do século XIX, nos tempos do Cardeal Lavigerie, por exemplo, combatendo, agora sim, activamente, a escravidão em África, mas não se envolveu inicialmente na luta contra o então chamado “odioso comércio” nem contra a escravidão colonial nas Américas. No campo religioso o movimento abolicionista foi propulsionado sobretudo pela Igreja Anglicana e por outras denominações protestantes.

Repare-se no seguinte: esta encíclica de Leão XIV remete-nos para o Papa Leão XIII, enaltecendo a sua posição anti-escravista, mas Leão XIII exerceu o seu pontificado de 1878 a 1903. Ou seja, a Igreja de Roma reagiu com um século de atraso em relação ao início do movimento abolicionista. Reagiu, até, depois de Portugal ter abolido a escravidão nas suas possessões. Aliás, aqui em Portugal, quando, a partir de 1836, Sá da Bandeira começou a agitar a questão da abolição da escravatura não contou com o apoio público de qualquer autoridade religiosa, e foi preciso esperar por 1849 para ver dois vultos da hierarquia católica — mas apenas dois —, o Bispo de Lamego e o Cardeal Patriarca, associarem-se à sua iniciativa. Convém lembrar, a talhe de foice, que a última grande defesa do sistema escravista em Portugal, publicada em Lisboa em 1808, foi obra de um homem da Igreja, o Bispo de Elvas, Dom José Joaquim de Azeredo Coutinho.

Quer isto dizer que há, para além das razões religiosas e morais, razões históricas para a actual Igreja de Roma lamentar a lentidão com que se moveu no sentido de condenar irremediavelmente e de proibir a escravatura, mas é preciso sublinhar que, ao contrário do que São José Almeida supõe, a problemática da Igreja relativamente a essa matéria não é exactamente a mesma da sociedade civil e política portuguesa, e há que não confundir uma coisa com a outra.

Por fim, há no artigo de São José Almeida, um terceiro e mais importante erro que é o recurso à lenda urbana, muito repetida pela esquerda nos últimos anos, segundo a qual Portugal teria problemas decorrentes do colonialismo que fariam com que se recusasse a abordar temas como a escravatura, o racismo, a violência colonial e outros assuntos ditos sensíveis ou incómodos. Ora, tem que se dizer logo de entrada que essa lenda é duas, três, cem vezes falsa. Tudo isso é ideologia woke. Os portugueses não se recusam a abordar nem a escravatura nem qualquer dos outros temas conexos. O que Portugal e os portugueses se recusam a aceitar é a versão que os activistas woke, negros e brancos, gostariam que eles aceitassem. E porque é que recusam? Porque essa versão é falsa, porque é ignorante e mal fundada.

Aparentemente São José Almeida não sabe isso e parece ignorar igualmente o debate que houve na sociedade portuguesa em Oitocentos. Talvez ignore, até, o papel de Sá da Bandeira, de Palmela, de Lavradio e de outros políticos abolicionistas portugueses. E é garantido que ignora que essas e outras pessoas já debateram esse assunto à exaustão. A autocrítica a que a jornalista se referiu, e que gostaria que os actuais portugueses fizessem, já foi feita no século XIX, isto é, foi feita no tempo em que o problema da escravatura existia de facto. São José Almeida ignora, ainda, o debate público que tem decorrido no nosso país desde 2017. Dir-se-ia que a jornalista chegou agora de outro planeta e que não está a par do que aqui se tem passado. Eu tenho sido um dos intervenientes nesse debate e só à minha conta não falando em livros, entrevistas, intervenções em rádios e televisões, foram 175 artigos em jornais diários e semanários.  Esses artigos responderam a (e foram contestados por) outros e todos eles — cerca de 300, no seu comjunto — suscitaram apoios ou reparos nas caixas de comentários dos jornais.

Ou seja, tem havido muita gente a pronunciar-se, num ou noutro sentido, sobre esta matéria e é, portanto, redondamente falso que exista em Portugal “um ensurdecedor silêncio e um real bloqueio da capacidade autocrítica de muitíssimos portugueses”, como São José Almeida garantiu. É igualmente falso que exista “medo de olhar para a História do país”. O que existe em Portugal é bom senso e, felizmente, pouca gente disposta a alinhar em histórias woke requentadas e mal contadas. Em 2017 escrevi, no jornal Público, um artigo que foi muito lido e partilhado nessa altura e a que dei o seguinte título: “Quantas vezes terá Portugal de pedir desculpa?”. Renovo essa pergunta, dirigindo-a especialmente a São José Almeida e a todos os que, neste assunto, pensam como ela: até quando gostariam que os portugueses ficassem a bater com a cabeça no seu muro das lamentações e a fazer autocrítica por factos ocorridos há vários séculos e já extensamente lamentados, totalmente proibidos e radicalmente suprimidos?