Todos os mercados de verão têm a sua principal novela. No ano passado, os suecos Viktor Gyökeres e Alexander Isak dividiram atenções com o tempo que demoraram a trocar Sporting e Newcastle por Arsenal e Liverpool. Antes, Kylian Mbappé trocou o PSG pelo Real Madrid um ano depois de Harry Kane deixar o Tottenham para rumar ao Bayern Munique — e a lista podia continuar de forma quase infindável e com protagonistas como Ronaldo, Messi ou Haaland.
Este verão, como já se percebeu, os episódios estão reservados para Julián Álvarez. O avançado argentino de 26 anos, que esteve na final do Mundial 2026 perdida para Espanha, está enredado num autêntico braço de ferro entre o Atl. Madrid e o Barcelona, com o Arsenal a querer intrometer-se e o Real Madrid a ter chegado a espreitar pelo canto do olho. Entre todas as indecisões, porém, existe uma certeza: Julián Álvarez quer sair do Atl. Madrid. E para contar essa história é preciso recuar a setembro de 2025.
Nessa altura, há praticamente um ano e num jogo contra o Maiorca, Diego Simeone trocou Julián Álvarez por Alexander Sorloth já durante a segunda parte. Quando chegou ao banco, depois de falhar uma grande penalidade e sendo substituído pela quarta vez nas primeiras cinco jornadas da La Liga, o argentino não escondeu o incómodo e apareceu na transmissão televisiva a dizer “siempre yo”, sempre eu. De acordo com a imprensa espanhola, o jogador terá mesmo comunicado oficialmente à estrutura do Atl. Madrid que queria sair no final da temporada logo em março, ainda antes de ajudar muito os colchoneros a chegarem às meias-finais da Liga dos Campeões.
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Ora, ainda em maio, depois de a La Liga acabar e antes de Julián Álvarez seguir para o Campeonato do Mundo, o Barcelona não quis esperar: apresentou uma proposta de 100 milhões de euros, antecipando-se a um eventual interesse que o Real Madrid, mais saudável e folgado financeiramente, pudesse ter. Em comunicado, o Atl. Madrid recusou publicamente a proposta dos catalães, remeteu todas as conversas para a cláusula de rescisão de 500 milhões de euros e garantiu que iria apresentar uma queixa na FIFA.
“O Barcelona falta-nos ao respeito, acredita que pode menosprezar-nos. A nossa responsabilidade é defender os interesses do Atl. Madrid e, por isso, vamos apresentar uma denúncia à FIFA contra o Barcelona por negociar com um jogador com contrato em vigor durante o período protegido. Mentem-nos a nós, ao jogador, aos meios de comunicação social e também aos seus próprios adeptos. Tentam fazer crer que podem realizar uma operação para a qual, na realidade, não têm capacidade. É verdade que o Julián falou connosco, mas também é verdade que conhece perfeitamente a nossa posição porque fomos muito claros. O Atl. Madrid não quer transferir os seus direitos”, disse Gil Marín, CEO dos colchoneros, recordando que o jogador tem contrato com o clube até 2030.
Pouco tempo depois, um dia após ser reeleito presidente do Real Madrid, Florentino Pérez posicionou-se e revelou em comunicado que também os merengues tinham apresentado uma proposta de 150 milhões de euros pelo jogador — que, entretanto, também já tinha sido recusada pelo Atl. Madrid. Em resposta, os colchoneros foram irónicos: “Devem ter confundido educação com gratidão, mas, para que não haja dúvidas, não vos agradecemos nada. Não estamos a analisar nem a considerar qualquer oferta pelo Julián. Como é que podemos não nos dar bem, se vocês nos fazem rir ainda mais do que o Barcelona”, podia ler-se, já depois de uma primeira publicação com emojis a rir em reação ao comunicado dos rivais.
Mas foi já nos EUA, em pleno Campeonato do Mundo, que a relação entre Julián Álvarez e o Atl. Madrid partiu de vez. Em declarações à ESPN, depois da vitória da Argentina contra a Áustria ainda na fase de grupos, o jogador defendeu que “o melhor para todos” era “uma transferência”. “Quero cumprir o meu sonho. Não posso esconder-me nem agir como se não quisesse ser claro, tento ser honesto. Falei com pessoas do Atl. Madrid e acredito que o melhor para todos os envolvidos é uma transferência. Quero cumprir o meu sonho”, vincou, referindo-se aparentemente ao “sonho” de jogar no Barcelona.
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O Mundial 2026 acabou e Julián Álvarez regressou ao Atl. Madrid. Nos jornais, os espanhóis garantem que os colchoneros não querem perder o avançado argentino para Barcelona ou Real Madrid, ou seja, não querem vender um dos principais jogadores para um dos principais rivais. Foi nesse sentido que, nos últimos dias, o Arsenal surgiu na equação. De acordo com o The Athletic, o Atl. Madrid estaria disponível para negociar Julián Álvarez com os gunners por um valor a rondar os 150 milhões de euros — ou inferior, no cenário de uma troca com Viktor Gyökeres que levaria o avançado sueco a reencontrar-se com Morten Hjulmand em Espanha.
A aproximação ao Arsenal, porém, cortou de vez qualquer entendimento entre Atl. Madrid e Julián Álvarez. O avançado ainda foi suplente utilizado no empate com o Villarreal no passado domingo, apesar de ter sido muito assobiado pelos adeptos e de não ter aplaudido as bancadas, mas falhou os dois últimos treinos e ficou claramente desagradado com o facto de os colchoneros pretenderem empurrá-lo para o Arsenal quando este só quer jogar no Barcelona. Entretanto, esta quarta-feira, Joan Laporta garantiu que os catalães continuam a tentar contratar o argentino.
“A verdade é que ainda estamos muito interessados e gostaríamos que a nossa oferta fosse aceite. Recebemos a informação de que o Atl. Madrid quer vender o jogador e é claro que a nossa oferta continua válida até ao final do mercado. Temos muito respeito pela direção do Atl. Madrid. Conhecemo-nos há muitos anos e liguei ao Gil Marín a confirmar a proposta. Eles sabem que, se estiverem dispostos a vendê-lo, estamos prontos para comprá-lo. Podemos chegar a um acordo à volta do valor que oferecemos”, disse o presidente do Barcelona em declarações ao jornal Mundo Deportivo.
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Num comunicado enviado ao jornal Marca, o Atl. Madrid não demorou a responder. “O jogador está a ser vitimizado, mas a única vítima somos nós. Eles prejudicaram-nos económica e socialmente. Há 0% de hipóteses de vendê-lo ao Barcelona. Não se trata de dinheiro, mas de dignidade. Existe uma campanha repleta de mentiras e meias verdades. O único que sofre com isto é o Atl. Madrid”, defenderam os colchoneros.
Já esta quinta-feira, a ideia foi ratificada por um comunicado do Conselho de Administração do clube. “Os membros do Conselho de Administração do Atl. Madrid querem expressar de forma unânime o absoluto apoio à decisão do clube de não negociar a transferência de Julián Álvarez com o Barcelona. Os membros entendem que o Atl. Madrid está aberto a negociações normais quando conduzidas de forma profissional, ética e respeitosa. Apoiamos por inteiro a posição já comunicada do clube de que o Barcelona não cumpriu esses requisitos e, como resultado, não existirão quaisquer negociações e existe zero consideração sobre uma transferência de Álvarez para o Barcelona. O Atl. Madrid confia que o nosso jogador vai entender a decisão e vai continuar focado em ajudar o clube a atingir os seus objetivos, assim como fez ao longo das duas temporadas em que defendeu as nossas cores”, pode ler-se.
Julián Álvarez, contudo, não terá entendido — até porque voltou a falhar o treino. A poucos dias do encerramento do mercado de transferências, a vida do jogador argentino parece complicar-se cada vez mais e existem aparentemente três alternativas viáveis: uma ida para o Arsenal por mais de 100 milhões de euros e por troca com Viktor Gyökeres, que também teria de aceitar a ideia do lado dos ingleses; uma ida para qualquer outro clube que não o Barcelona numa loucura milionária de última hora; ou a permanência no Atl. Madrid, onde a próxima temporada será recheada de jogos como suplente utilizado e muitos assobios nas bancadas do Metropolitano.