Harald V sempre afastou o cenário da abdicação e foi diante deste quadro que o primogénito Haakon — agora Haakon VIII — passou a assumir nos últimos anos o papel de príncipe herdeiro regente do trono norueguês. A missão viria a ser entretanto alargada à filha Ingrid, princesa herdeira chamada para a linha da frente dos deveres reais perante a também instável condição de saúde da princesa real, Mette-Marit. A urgência do envolvimento deste núcleo duro intensificou-se com o agravar do estado de saúde do monarca — de resto, a notícia surgiu sem grandes surpresas, relançando consigo o histórico mantra: “O Rei morreu, viva o Rei”.
A morte do monarca, confirmada esta sexta-feira de manhã, é oficialmente anunciada pelo Palácio Real e pelo Gabinete do Primeiro-Ministro e sob o princípio da sucessão imediata, o príncipe herdeiro torna-se instantaneamente o novo Rei, assegurando a continuidade constitucional.


Ainda durante a manhã, o novo Rei desceu ao palácio e às 11h30 reuniu-se com o Governo numa reunião extraordinária do gabinete. Este foi o primeiro encontro do executivo com Haakon como monarca. Segundo o jornal norueguês VG, é também a primeira vez na história recente da Noruega que o segundo na linha de sucessão ao trono já atingiu a maioridade. Aos 22 anos, a princesa Ingrid Alexandra prestará também ela um juramento por escrito ao Storting (Parlamento norueguês), tal como o seu pai, um momento que, pelo menos para Haakon, está previsto para a próxima terça-feira, pelas 12h00 em Lisboa.
Pelas 11h20 (hora de Lisboa) desta sexta-feira, a Casa Real norueguesa partilhava a primeira foto oficial do novo monarca, Haakon VIII, e confirmava o lema adotado pelo novo soberano, que se manteve fiel a uma longa tradição na casa real: tanto o seu pai, Harald V, quanto o seu avô, Olav V, e o seu bisavô, Haakon VII, seguiam a máxima, “Tudo pela Noruega”.
Pelas 13h, o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre fez um discurso de caráter memorial. “Uma nação inteira está de luto, e um povo repleto de profunda gratidão. Lembraremos o Rei Harald pelo seu amor ao seu povo, pelo seu humor e afeto”, disse Støre. Ao final da tarde, faltava saber a partir de que horas começaria o velório no palácio real, bem como detalhes sobre o funeral.
Mal foi anunciado o agravamento do estado de saúde de Harald V, no começo desta quinta-feira, o presidente do Parlamento, Masud Gharahkhani, cancelou a sua agenda na Islândia e retornou de imediato à Noruega. De acordo com os regulamentos reais oficiais, ocupa o escalão mais alto na Noruega depois da família real, e desempenha um papel importante nos processos formais que envolvem a casa real, enquadra o jornal norueguês VG. Também a viagem que estava prevista de Haakon e Mette-Marit a Trøndelag foi cancelada.

Após a notícia da morte do monarca, por toda a Noruega as bandeiras públicas desceram a meia-haste. As fitas de luto são atadas à bandeira do Rei e os sinos das igrejas juntam-se à toada fúnebre. No Palácio Real é aberto ao público um livro de condolências.
Às 17h30 desta sexta-feira, estava previsto arrancar o cortejo real que acompanha a urna desde a capela do hospital onde Harald morreu até ao Palácio Real, com o Rei Haakon, a Rainha Mette-Marit, a princesa herdeira Ingrid Alexandra, a rainha Sonja, o príncipe Sverre Magnus e a princesa Märtha Louise a seguirem o percurso rua fora, um momento que antecipa as cerimónias fúnebres. Segundo o VG, Haakon e Ingrid terão passado as últimas horas em Bygdø Kongsgård, a residência de verão do Rei Harald e da Rainha Sonja desde 2007. Segundo as emissoras norueguesas SE e HØR, era aqui que Sonja se encontrava quando recebeu a notícia do Rikshospitalet, depois de no dia anterior ter passado 10 horas ao lado da cama de Harald. Aos 89 anos, foi levada de volta ao hospital cerca de uma hora após a morte do marido.

Ainda sem data fechada, estima-se que siga o padrão dos rituais modernos. O caixão é escoltado pelos militares e membros da Guarda Real, muitas vezes transportado numa carruagem de armas militares pelas ruas de Oslo. Em sinal de respeito, é comum o país parar as suas funções durante este momento, tal como sucedeu com o Rei Olav V, em 1991. O funeral oficial de Estado é realizado pelo Bispo da Igreja da Noruega na Catedral de Oslo, assistido por chefes de Estado estrangeiros, membros da realeza global e altos funcionários noruegueses.
A última morada do monarca é o mausoléu real, a Fortaleza de Akershus, para onde seguirá a urna, acompanhada por uma procissão menor e mais privada. Após uma curta cerimónia final na Capela do Castelo de Akershus, o caixão do rei é descido à cripta real. Imediatamente após o enterro, os sinais de luto são removidos, o estandarte real recupera a sua posição no Palácio Real, simbolizando que a transição para o novo reinado está totalmente realizada.
Da primeira cerimónia no reino ao fim da coroação física
Atualmente, a sucessão neste país nórdico é regida pelo Artigo 6 da Constituição, alterado mais recentemente em 1990 para introduzir a primogenitura absoluta entre os netos e descendentes mais elegíveis do rei Harald V. Os seus filhos foram ainda classificados de acordo com a primogenitura cognática de preferência masculina, que foi dada entre 1971 e 1990; é por essa razão que o príncipe herdeiro Haakon e seus descendentes elegíveis têm precedência sobre a sua irmã mais velha, a princesa Märtha Louise, e os seus descendentes elegíveis. É também por essa razão que a irmã mais velha do rei, a princesa Astrid e os seus descendentes, juntamente com descendentes da falecida irmã, a princesa Ragnhild, foram excluídos da linha de sucessão devido à primogenitura agnática que não foi dada antes de 1971.
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A primeira coroação na Noruega e em toda a Escandinávia ocorreu em Bergen por volta de 1163 ou 1164. Estes ritos continuaram na Catedral Velha até que a capital foi transferida para Oslo sob a égide de Haakon V da Noruega, que reinou entre 1299 e 1319. Enquanto algumas coroações decorreram em Oslo, a maioria teve lugar na Catedral de Nidaros, construída sobre o túmulo do rei Olav II (reinou entre 1015 e 1028), que trouxe o cristianismo para a Noruega e se tornou o padroeiro da nação. De recordar que no final do século XIV, Noruega, Suécia e Dinamarca estavam unidas na União Kalmar. Durante esta era, os monarcas foram coroados nos três países consecutivamente. Após a dissolução da federação, a Noruega permaneceu unificada com a Dinamarca até 1814.
Os Reis Haakon VII e a Rainha Maud foram os últimos soberanos a serem coroados, em 1906. Dois anos depois, a disposição que exigia uma coroação física e formal foi retirada da Constituição com apenas dois votos contra no Parlamento. Atualmente, um novo monarca só é obrigado a fazer um juramento formal de adesão no Conselho de Estado, e depois no Parlamento, o Storting, nos termos do artigo 9.º da Constituição norueguesa. Haakon deve assim jurar governar o Reino da Noruega de acordo com a sua constituição e leis. Caso o Parlamento não esteja em sessão quando a sucessão ocorre, o juramento é feito pela primeira vez por escrito perante o Conselho de Estado e repetido mais tarde no Storting.


A este processo junta-se uma nota religiosa, o momento mais cerimonial num contexto que ao longo dos anos se foi desembaraçando de algumas formalidades e notas simbólicas, e que marca o arranque do novo reinado. Quando Olav V subiu ao trono em 1957, sentiu a necessidade de uma cerimónia com este pendor, não só para encetar o seu reinado, mas também para se alinhar com os seus deveres enquanto novo chefe da Igreja da Noruega. O monarca propôs um ritual de consagração real, conhecido como Signing til kongsgjerning (ou ‘Bem-aventurado o Rei pelo seu Reino’), que foi realizada em 22 de junho de 1958. A ideia teve o acolhimento do primeiro-ministro Einar Gerhardsen e tornou-se um grande evento nacional.

Desde Olav que os soberanos modernos têm aderido voluntariamente a este modelo de cerimónia mais simples, uma bênção religiosa que normalmente ocorre na histórica Catedral de Nidaros, em Trondheim, com as vestes e insígnias reais a estarem presentes no altar, sem serem fisicamente usadas. Trata-se de um conjunto de objetos que simbolizam o poder e majestade do monarca norueguês. A maior parte do acervo atual remonta a 1818 e foi feita para a coroação de Jean-Baptiste Bernadotte como Rei Carl III Johan da Noruega, compreendendo nove itens principais: a coroa do rei, a espada do reino, o cetro do rei, a esfera do rei, a coroa da rainha, o cetro da rainha, a esfera da rainha, a coroa do príncipe e o chifre da unção. A coleção também inclui vários mantos, duas bandeiras do reino, e tronos de coroação. Se a coroa é dispensada durante a consagração, pode ser colocada sobre a urna do falecido monarca.
Esta sexta-feira à tarde, a polícia de Oslo informou que as joias, habitualmente guardadas e exibidas ao público no Palácio do Arcebispo em Trondheim, haviam chegado em segurança à capital, para que o ritual se cumpra junto à urna de Harald.

O anúncio oficial da morte de Olav, em 17 de janeiro de 1991, foi dado pelo novo rei no Conselho Extraordinário de Estado, no Palácio, à meia-noite. Em 18 de janeiro, Harald fez o seu primeiro discurso como monarca, no qual evocou o pai e pediu o apoio do povo para cumprir os deveres agora pela frente. Poucos dias depois, em 21 de janeiro, o rei Harald fez o seu juramento à Constituição. A 30 do mesmo mês realizar-se-iam as cerimónias fúnebres. A Família Real Norueguesa foi seguida pela Rainha Margrethe II e Príncipe Henrik da Dinamarca, Rei Carl XVI Gustaf da Suécia, Rei Juan Carlos da Espanha, Rainha Beatriz dos Países Baixos, Grão-Duque Jean de Luxemburgo, Rei Constantino II da Grécia, Príncipe Hans Adam II de Liechtenstein, Carlos, então Príncipe de Gales, Príncipe herdeiro Naruhito do Japão, Príncipe herdeiro Maha Vajiralongkorn da Tailândia e Príncipe Alberto de Mónaco.
Harald e a Rainha Sonja seriam consagrados apenas em 23 de junho de 1991, dando seguimento à tradição introduzida pelo rei Olav. Segundo a Casa Real, que recorda o momento, ao entrar na Catedral de Nidaros, o rei e a rainha foram recebidos pelo bispo de Nidaros, Finn Wagle, e pelo bispo de Oslo, Andreas Aarflot. O bispo Wagle saudou o Rei com as palavras: “Que o Senhor abençoe a tua entrada e a tua saída agora e para sempre”. A procissão continuou até o rei e a rainha se sentassem nas cadeiras da coroação usadas em 1818 por Charles III John, numa alternativa ao trono da coroação (que deixaria de ser usado depois de 1906).


Depois de o discurso ter sido dado e as lições serem lidas, o Rei Harald ajoelhou-se diante do altar-alto. À época, Wagle colocou a mão na cabeça do rei e recitou a oração da consagração, que incluía as palavras: “Bendito o Rei Harald V, fortalecê-lo e conduzi-lo no exercício de suas responsabilidades solenes.” Foi então a vez de a rainha se ajoelhar no altar-mor. Com a mão na cabeça, o bispo Wagle recitou uma oração pedindo a Deus que a ajudasse a usar suas habilidades em benefício do país e do povo. Seguiu-se nova oração, o hino nacional foi entoado, e lida a bênção. “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo, estejam convosco. Amém.”
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Resta saber se Haakon e Mette-Marit seguirão semelhante programa, e se irão ainda completar este processo de transferência de poderes com outro evento simbólico, tal como Harald e Sonja outrora fizeram. Em conexão com a consagração, o rei e a rainha cumpriram uma tour real de 10 dias pelo sul da Noruega, no final da qual navegaram de volta para Oslo a bordo do Royal Yacht Norge. No ano seguinte, toda a Família Real fez um périplo de 22 dias pelos quatro condados mais ao norte. Este costume é uma tradição que remonta à Idade Média, quando os soberanos viajavam pelo país para receber a homenagem dos seus súditos.
Outra incógnita no ar é quais serão em concreto as funções desempenhadas por Mette-Marit, que chega a consorte num ano especialmente turbulento para a coroa norueguesa, e cuja condição de saúde poderá condicionar os próximos passos. Em junho, a até aqui princesa real, que desde 2018 enfrentava os sintomas mais severos de uma fibrose pulmonar, foi submetida a um transplante de pulmão. A cirurgia coincidiu com outro capítulo preocupante. Na segunda-feira, 15 de junho, Marius Borg Høiby, o filho mais velho de Mette-Marit, fruto de uma relação anterior, foi condenado a quatro anos de prisão por 34 crimes, entre os quais duas violações.
No final de janeiro o Departamento de Justiça norte-americano divulgou a última tranche de ficheiros do caso Epstein, com mais de três milhões de páginas de documentos, mensagens e emails trocados entre o criminoso sexual e diversas personalidades da política, entretenimento e realeza. Foi nesta divulgação que ficou claro o teor das conversas entre a princesa da Noruega e Epstein, que incluíam comentários sobre Paris ser uma cidade “boa para o adultério”, ou que “escandinavas dão boas esposas”. Na altura da divulgação, Mette-Marit desculpou-se por se ter relacionado com Epstein: “Demonstrei falta de bom senso e lamento profundamente ter tido qualquer contacto com Epstein. É simplesmente confrangedor.”