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(A) :: Carris deixou de ter contratos de manutenção com MNTC depois de acidente do Elevador da Glória

Carris deixou de ter contratos de manutenção com MNTC depois de acidente do Elevador da Glória

A MNTC era a empresa que tinha o contrato de manutenção para o Elevador da Glória quando se deu o acidente de setembro de 2025. Depois disso deixou de ter relacionamento contratual com a Carris.

Alexandra Machado
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A Carris terminou todas as relações contratuais que tinha com a MNTC, empresa de manutenção que trabalhava no elevador da Glória quando se deu o acidente de 3 de setembro de 2025, que vitimou 16 pessoas e feriu outras 20. A MNTC, que ficou mais conhecida pelo nome comercial Main, trabalhava com a Carris pelo menos desde 2017, ainda que os principais contratos, no âmbito de concursos públicos, tenham sido assinados a partir de 2019.

A MNTC foi, depois do acidente no elevador da Glória, alvo de escrutínio público. Detida por Gustavo Pita Soares e Marieta Garcias, tinha, segundo dados do Insight View da Iberinform, 28 empregados no final de 2024, ano em que a faturação baixou para 1,29 milhões de euros, uma quebra de 16% face ao ano anterior, e teve um lucro de 136 mil euros (menos 2%).

https://observador.pt/especiais/elevador-da-gloria-quatro-momentos-que-levaram-ao-acidente-e-porque-o-acidente-resultou-em-tragedia/

No relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF), divulgado em outubro do ano passado, já se dizia que a MNTC não tinha o “necessário corpo de engenharia com o conhecimento técnico especializado em funiculares e meios para o desenvolvimento, atualização e adaptação das ações de manutenção à realidade da operação”, assumindo-se que, “na prática, o prestador de serviços de manutenção atua como mão de obra para tarefas de manutenção programada de alguma complexidade ou ações corretivas específicas, as quais são executadas sob as indicações e supervisão de dois técnicos da CCFL [Carris – Companhia de Carris de Ferro de Lisboa] alocados aos quatro ascensores e elevador”.

A própria Carris, num comentário a este relatório, admitia que, apesar de ter apresentado os requisitos de capacidade e habilitação, a MNTC “poderá não ter cumprido devidamente o contrato”, um eventual incumprimento que não foi reportado à administração da empresa de transportes públicos nem pela direção de manutenção do modo elétrico, nem pelo gestor do contrato que “reiteraram a máxima confiança no desempenho desta empresa, mesmo após o acidente ter ocorrido”.

"Não foi intentada qualquer ação judicial contra qualquer entidade, uma vez que ainda se aguardam os resultados das investigações:"
Fonte oficial da Carris

Mas não foi preciso esperar muito para a MNTC ser riscada do mapa de fornecedores da Carris. Em respostas a pedido do Observador, e que entretanto divulgou publicamente, a Carris assume agora que “o contrato com o anterior prestador de serviços de manutenção, MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, Lda, foi revogado a 04.11.2025“. Nenhuma outra empresa assumiu a manutenção dos equipamentos históricos porque ainda se encontram inoperacionais. “Todas as eventuais necessidades serão geridas pela equipa interna da Carris”. Com uma exceção. O Funicular da Graça, que reabriu ao público a 30 de abril deste ano, e “após validação de todas as condições aplicáveis”, tem um contrato de manutenção, que transitou da Emel para a Carris e que vigora até 2032. O Funicular da Graça era gerido pela Emel e passou entretanto para a Carris.

Quanto aos restantes equipamentos, a Carris indica que “prosseguem os trabalhos de avaliação, adaptação e preparação para reabertura e será oportunamente atribuído um responsável de manutenção (interno ou externo)”.

Revogado contrato com MNTC sem indemnização nem processo judicial (por enquanto)

A Carris indica que, após o acidente, foi a MNTC que propôs a cessão da posição contratual nos contratos de manutenção que estavam em vigor com a Carris. O que acabou por ser feito por “mútuo acordo”, o que significa que não houve pagamentos indemnizatórios à MNTC.

De igual modo, para já, “não foi intentada qualquer ação judicial contra qualquer entidade, uma vez que ainda se aguardam os resultados das investigações”, explica a Carris.

O GPIAAF ainda analisa o acidente, tendo adiado para o primeiro trimestre do próximo ano a divulgação do relatório final. Teve de contratar peritagens especializadas e teve, ainda, de concertar as suas investigações — nomeadamente por causa de alguns testes serem destrutivos e irrepetíveis — com o Ministério Público.

Em concreto sobre a manutenção, o GPIAAF, numa nota informativa a indicar que não concluirá o relatório final até à próxima semana (quando passa um ano sobre o acidente), especifica que, “paralelamente às peritagens dos sistemas técnicos, a investigação tem procedido também ao aprofundamento da análise dos fatores imateriais pertinentes, como sejam os fatores humanos e organizacionais envolvidos no acidente, procedimentos e práticas de manutenção, bem como o enquadramento legal da operação, entre outros aspetos”.

A Carris indicou ao GPIAAF algumas mudanças a que já procedeu sobre a manutenção. E indica também que a 4 de novembro de 2025 assinou um acordo de revogação do contrato de manutenção dos ascensores e elevadores com a empresa MNTC e posteriormente, em 17 de novembro de 2025, foi concretizada a cessão da posição contratual dos contratos de manutenção do Modo Elétrico para a empresa Liftech.

“A prestação dos serviços pela Liftech justifica-se pela sua experiência e conhecimento técnico especializado das infraestruturas em causa, enquanto entidade integrante do consórcio responsável pela construção, instalação e manutenção do Funicular da Graça, mantendo atualmente a responsabilidade contratual pela sua manutenção até fevereiro de 2032, bem como pela sua intervenção na remotorização do Elevador de Santa Justa. Esta experiência permite assegurar a continuidade e articulação entre as atividades de manutenção, acompanhamento técnico e exploração, garantindo o cumprimento dos requisitos de segurança e regulamentares aplicáveis”, especifica o GPIAAF na nota informativa tornada pública na semana passada.

E acrescenta que a Liftech “dispõe das certificações, competências técnicas e meios necessários ao desenvolvimento das atividades objeto das contratações, evidenciando a sua capacidade e experiência na área e o cumprimento dos requisitos de qualidade e segurança aplicáveis”.

Liftech é agora a principal fornecedora da manutenção

Se antes do acidente do elevador da Glória a MNTC era a principal responsável pela manutenção do modo elétrico na Carris, agora é a Liftech.

Informação da Carris especifica que a empresa tinha cinco contratos com a MNTC, tendo quatro deles passado para a Liftech que ainda tem a manutenção do Funicular da Graça — que já era seu antes deste equipamento passar para a Carris.

Os cinco contratos que tinha com a MNTC, segundo informação da Carris, eram:

  1. Serviços de manutenção dos Ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa – Revogação por mútuo acordo;
  2. Serviços de substituição de unidades de frenagem de cepos de carros elétricos históricos – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  3. Serviços para lavagem e lubrificação de 135 bogies dos carros elétricos remodelados – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  4. Serviços de manutenção preventiva e corretiva de carros elétricos históricos e carros elétricos articulados – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  5. Serviços de revisão dos elétricos do Museu da Carris – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech.

Ou seja, reforça a empresa de transportes, “a Carris já não tem qualquer relação contratual com a empresa MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, LDA”.

“Foi identificada a Liftech como a entidade que passaria a assumir os contratos existentes, mantendo-se integralmente em vigor todas as condições contratuais, obrigações, prazos e requisitos técnicos previamente estabelecidos”, diz a Carris, garantindo que, analisada a proposta de cessão da posição contratual, “a Liftech reunia as qualificações, certificações e a capacidade técnica necessárias para assegurar a execução dos serviços e o cumprimento das obrigações contratuais”, pelo que, concluída essa verificação, “a Carris autorizou a cessão da posição contratual, garantindo a continuidade da manutenção dos equipamentos e a preservação dos níveis de segurança e qualidade exigidos”.

No caso da Graça e de Santa Justa, no portal Base estão três contratos da Carris com a Liftech, com data de julho, e num total de quase meio milhão de euros (440.740 euros), sem concurso público. O contrato na Graça já existia ainda este equipamento estava na dependência da Emel e no caso de Santa Justa a Liftech já tinha sido a responsável pela remotorização do elevador em 2021.

A Liftech nasceu no seio do departamento de sistemas de elevadores da Efacec, tendo-se autonomizado como empresa independente em 2002. É atualmente detida, segundo dados da Insight View, por António Neves Garrido e Aida de Sousa. Tem 67 empregados e em 2024 faturou 11,72 milhões de euros. Está sediada na Maia.

Carris está a reforçar equipas internas mas assume que recorrerá sempre a entidades terceiras

A Carris tem recorrido a manutenção externa, mas assegura que “mantém sob sua responsabilidade o acompanhamento e fiscalização da manutenção realizada” por essas entidades terceiras. Em informação pública disponibilizada, a Carris diz ser importante “distinguir a execução técnica da manutenção, que pode ser assegurada por empresas subcontratadas, do acompanhamento, fiscalização e controlo do cumprimento dos requisitos definidos pela Carris, que permanecem sob responsabilidade da empresa, sem prejuízo das competências legalmente atribuídas às entidades reguladoras e de supervisão”.

No Funicular da Graça, que é o que está atualmente em funcionamento, “a manutenção preventiva é realizada por uma empresa subcontratada, de acordo com planos regulares, e a fiscalização dessa manutenção é executada por quadros da Carris dedicados a esse serviço. Assim, a subcontratação da execução da manutenção não significa a transferência para o prestador externo das responsabilidades de acompanhamento e fiscalização que cabem à Carris”.

Indica ainda que “está a reforçar as suas equipas e a apostar na formação técnica dos seus quadros”, ainda que realce que “por se tratar de equipamentos singulares e de grande complexidade, o recrutamento e a especialização são processos de médio e longo prazo”. Ainda assim, “mesmo com este reforço, algumas intervenções muito específicas terão sempre de ser asseguradas por parceiros externos certificados. Dado o reduzido número de equipamentos históricos existentes em Portugal, o recurso a equipas externas especializadas permite assegurar que estas intervenções são realizadas por profissionais com a experiência regular e intensiva exigida pelas rigorosas normas internacionais de segurança”.

Inquérito interno da Carris ainda não está concluído

A par das investigações do Ministério Público e do GPIAAF, também a Carris tem uma comissão de inquérito de acidente grave (CIAG), que é uma estrutura técnica, a investigar os acontecimentos de 3 de setembro de 2025.

A Carris assume que a auditoria interna não está terminada, argumentando que a CIAG “tem uma margem de atuação limitada, por estar sujeita às determinações do Ministério Público (segredo de justiça aplicável ao equipamento acidentado) e do GPIAAF”. E apesar de estar a colaborar com essas duas entidades não consegue aceder aos elementos todos, falando também da “complexidade e do caráter único do equipamento acidentado”.

Ainda assim, diz a Carris, “o facto de a CIAG não possuir conclusões fechadas não impede a Carris de atuar perante alguns elementos já conhecidos nos relatórios intercalares do GPIAAF e de responder com medidas de reforço e correção às quatro recomendações formuladas por aquela entidade”, dizendo que foi neste enquadramento que o Funicular da Graça foi reaberto. E assegura por outro lado que “está a revisitar e reavaliar o seu sistema de controlo específico, no âmbito de um processo de melhoria contínua, que passa também por acelerar a digitalização de todos os processos de manutenção”.

[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]