Há uma cegueira que não nasce da falta de luz. Nasce, talvez, do excesso de evidência que costumamos afirmar.
É a cegueira de quem vê, ouve, compreende e, ainda assim, não age. Reconhece os sinais, concorda com os alertas, inquieta-se durante alguns minutos e continua a viver como se a realidade pudesse ser adiada.
Não negamos necessariamente a crise climática, mas fazemos algo talvez mais perigoso: habituamo-nos a ela.
As cheias entram pelas casas, destroem ruas e interrompem vidas. O calor extremo permanece durante semanas, transforma as cidades em ilhas sufocantes e ameaça sobretudo as pessoas mais velhas, as crianças, as grávidas, quem trabalha ao ar livre e quem vive em habitações sem condições térmicas.
Reportamos, nas conversas e na realidade vivida, as características de clima tropical onde antes não existiam. Encontramos águas frias em lugares quentes e águas anormalmente quentes em zonas onde deveriam permanecer frescas. As ondas de calor no mar alteram, de forma significativa, os ecossistemas. As poeiras atravessam continentes. A seca prolonga-se. Os incêndios começam mais cedo, terminam mais tarde e regressam com uma violência que já não permite falar apenas de uma simples fatalidade.
O risco aumenta dia a dia e nos vamos peneirando o caos no nosso próprio dia-a-dia. O mundo está a mudar diante dos nossos olhos. E nós estamos diluídos pela cegueira.
Há relatórios, cimeiras, compromissos, planos de contingência e sistemas de alerta. Há especialistas que explicam, investigadores que demonstram, profissionais que se preparam e comunidades que tentam adaptar-se. Há palavras como “mitigação”, “resiliência”, “descarbonização” e “transição”. Porém, entre o conhecimento e a ação abriu-se uma distância perigosa de fosse, entre o “eu e a minha sorte” e “os outros”.
Sabemos, compreendemos, mas fazemos pouco.
Quando a cheia chega, perguntamos por que razão não houve prevenção. Quando o fogo avança, perguntamos quem falhou. Quando falta água, procuramos culpados. Quando o calor mata, falamos de um fenómeno excecional. Depois, a água baixa, o fogo apaga-se, a chuva regressa ou a temperatura desce — e retomamos os mesmos comportamentos. Dessensibilização para o caos? Talvez…
A crise climática deixa de ser uma emergência e transforma-se num cenário de fundo. Deixa de ser um “cisne negro” como referido por Nassim Taleb (2011), e transforma-se numa espécie de ruído permanente que já não nos mobiliza. E a catástrofe normaliza-se: não quando deixa de ser grave, mas quando deixa de nos surpreender, e sobretudo, agir.
Falamos da proteção do ambiente, mas continuamos a consumir como se os recursos fossem inesgotáveis. Defendemos a natureza, mas aceitamos a destruição dos ecossistemas quando esta se apresenta sob a forma de conveniência, crescimento ou lucro imediato. Preocupamo-nos com os gases poluentes, mas adiamos mudanças na mobilidade, na energia, na produção e no modo como organizamos as cidades e as tornamos mais seguras para as pessoas e mais adaptadas aos riscos que crescem dia a dia como o calor e as amplitudes térmicas.
Lamentamos o desperdício de água, embora ainda a deixemos correr sem necessidade. Quantas vezes lavamos os espaços públicos e privados em horas de maior calor, com perdas enormes nas redes de abastecimento.
Reciclamos mas compramos cada vez mais embalagens. Separamos resíduos, mas não reduzimos o consumo. Substituímos um saco de plástico, mas conservamos intacta toda uma cultura de descartabilidade. “Os sacos de papel duram menos, partem-se pelas asas e abrem -se quando chove”. Repensemos o reciclado para ser mais resistente, mas protector ambiental.
Não se trata de atribuir ao cidadão toda a responsabilidade por uma crise construída ao longo de décadas por modelos económicos, decisões políticas e sistemas de produção. A responsabilidade individual existe, mas não pode servir de cortina para esconder a responsabilidade das empresas, dos governos, das autarquias e das instituições. Pedir às pessoas que fechem a torneira enquanto se permitem desperdícios estruturais é de fato insuficiente. Recomendar que caminhem mais, e as cidades não oferecem asseios seguros, sombra ou transportes públicos eficazes é incoerente. Incentivar a reciclagem sem assegurar sistemas acessíveis, compreensíveis e eficientes, perto das pessoas, é transferir o problema sem o resolver.
A ação climática exige mais coerência entre aquilo que se pede às pessoas e aquilo que as estruturas lhes permitem fazer.
Exige também literacia climática e literacia em saúde. Não basta divulgar temperaturas máximas ou anunciar níveis de risco. É necessário garantir que todas as pessoas conseguem aceder à informação, compreendê-la e usá-la para se protegerem e tomarem decisões. Um alerta que não explica o que fazer, quando fazer e onde procurar ajuda é apenas uma mensagem. E uma mensagem que não chega às pessoas mais vulneráveis pode aumentar as desigualdades que pretendia reduzir.
Precisamos de transformar conhecimento em capacidade de ação. Nas escolas, nos locais de trabalho, nos centros de saúde, nas farmácias, nas autarquias e nos meios de comunicação. Precisamos de ensinar a reconhecer os riscos do calor, a proteger a água, a reduzir o desperdício, a preparar uma casa para cheias ou incêndios e a identificar quem, na comunidade, pode precisar de ajuda. Precisamos de comunicar sem alarmismo, mas também sem suavizar a gravidade do que enfrentamos.
A esperança não pode ser uma sala de espera atolada de intenções.
Ter esperança não é acreditar que tudo acabará por se resolver. É aceitar que alguma coisa ainda pode ser protegida se começarmos a agir com a dimensão e a urgência necessárias. É construir políticas públicas consistentes. É avaliar resultados. É responsabilizar quem decide. É premiar organizações sustentáveis e deixar de financiar práticas que comprometem o futuro. É compreender que proteger o ambiente não constitui um gesto romântico: é proteger a saúde, a economia, a alimentação, a habitação, a segurança e a própria democracia.
Cada crise climática revela também uma profunda crise de desigualdades. Nem todos conseguem abandonar uma casa em risco. Nem todos podem comprar ar condicionado, melhorar o isolamento térmico, trabalhar à distância ou escolher alimentos mais caros. Nem todos recebem a informação a tempo ou possuem recursos para seguir as recomendações. Nem todos têm um nível de literacia em saúde adequado para poder tomar decisões mais acertadas.
Os mais vulneráveis contribuem frequentemente menos para o problema, mas sofrem primeiro e com maior intensidade as suas consequências.
Talvez a verdadeira cegueira seja esta: continuarmos a considerar a crise climática um problema do ambiente, como se o ambiente fosse um lugar exterior a nós. Não é.
O ar entra nos nossos pulmões. A água atravessa o nosso corpo. O calor altera o coração, o cérebro, o sono e a saúde mental. A perda da biodiversidade compromete a alimentação e favorece novos riscos sanitários. A destruição da natureza regressa sempre à vida humana, embora nem sempre regresse de forma imediata ou igual para todos.
Vemos. Pensamos. Sabemos, e tantas vezes compreendemos o que se passa à nossa volta. Falta agir.
Antes que a cegueira de quem vê se transforme na memória amarga de quem poderia ter feito mais, e decidiu não fazer.