Claro. Podia, por estes dias, escrever acerca do robô que bateu o record dos 100 metros de Usain Bolt nos “Jogos Mundiais de Robôs Humanoides” em Pequim. Um pedaço de chapa e electrónica que ultrapassou o homem por miseráveis 19 centésimos, seguindo depois em frente até se espetar, amortecido, num colchão erguido junto aos placards publicitários e, a seguir, transportado para arranjo por meia dúzia de prestáveis funcionários humanos sob o clamor de não se sabe que multidão. Mas quão mais impressionante é a história de resistência e superação dos dois pescadores mexicanos que estiveram cinco dias à deriva no mar, a flutuar numa exígua geleira de peixe, a 240 quilómetros da costa?
Daniel Guerrero Martínez, 53 anos, e José Luis Portelas Villegas, 32, são dois pescadores da comunidade de Paredón, no município de Tonalá, estado de Chiapas. Tinham saído para pescar na quinta-feira, 13 de Agosto, a bordo do Camaronera; fizeram um último contacto por rádio no dia seguinte, quando estavam já a 120 quilómetros de terra; depois, silêncio. Durante a madrugada, terão acordado por volta das três da manhã, beberam água e voltaram a deitar-se por mais um pouco antes de começarem o dia de trabalho. Foi então que uma onda entrou violentamente na embarcação, tão violenta e abruptamente que não deixou tempo para salvar nada. Em poucos minutos, o Camaronera tinha afundado e Daniel e José Luis escapado a bordo de uma pequena caixa térmica, uma geleira destinada à captura que não chegou a acontecer, a peixes e não a homens, sem comida, sem bebida, sem rádio, sem qualquer coisa com que se protegerem do sol, com que fazerem sequer o que mais sabiam fazer: pescar.
Preocupados com a ausência de notícias, familiares e colegas da cooperativa deram o alerta no sábado e a marinha mexicana começou, enfim, as buscas: um navio, uma embarcação interceptora e um avião, contra a imensidão do Pacífico.
Durante cinco dias, Daniel e José Luis vogaram ao sabor das mesmas ondas que os tentaram atirar para a morte, sem saber exactamente onde estavam, para que direcção seguiam, a que distância ou, mais importante, se algum dia voltariam a casa. Nas declarações que prestaria dias mais tarde ao canal televisivo N+, José Luís confessou que chegaram a pensar que não iriam sobreviver. Terão conseguido dormir alguma vez durante aqueles dias? De que terão falado? Terão rezado? Que pazes terão tentado fazer dentro deles, se é que tentaram? E conseguiram? De que se despediram? Cercados pela imensidão do oceano paradoxalmente transformada num beco sem saída, que terão visto no fundo das suas almas? “Sentimos a morte”, resumiu José Luis. Azul, líquida, indiferente. Ainda assim, pensava na família, em voltar a vê-la, a mesma que, do lado de terra, a 130 milhas náuticas dali, pedia a Deus por ele.
Finalmente, cinco dias volvidos, a salvação chegou e, justamente, a partir dos céus: o avião da Marinha mexicana avistou a pequena caixa cúbica azul-claro no meio do azul-escuro informe do mar e, de lá, os homens acenaram com um saco de serapilheira, um movimento que os distinguisse de um qualquer destroço de lixo sem alma, à deriva no mundo. Uma vez resgatados, apresentavam sinais evidentes de desidratação, mas nada mais do que isso: estavam saudáveis e preparados para uma nova oportunidade na vida que Daniel, o mais velho dos dois, decidiu que não voltará a passar pelo mar.
A que deus rezam os robôs? Em que família pensarão? Por e para quem correrão? Se lhes faltarem as forças? Mesmo que Deus não exista, como suplantar aquela espécie de super-poderes que a fé e a esperança desbloqueiam nos humanos, em momentos assim? Certamente, como em “Blade Runner” ou “Será que os Andróides Sonham com Ovelhas Eléctricas?”, o romance que lhe deu origem, um dia será possível infiltrar-lhes memórias humanas, imagens de familiares e amigos e infâncias e lugares e todas essas coisas que talvez se confundam com razões para correr. Mas que interesse poderá ter vê-los fazê-lo? Ou à arte que possam criar?
Não sabemos quantos mais dias poderiam ter sobrevivido Daniel Martínez e José Luís Villegas naquele exíguo aquário de chapa e espuma, também ele obra da tecnologia, antes de encontrados por um avião, outra proeza do progresso. Sem desesperarem, sem se odiarem, sem se tentarem atirar borda fora, sem se matarem um ao outro. A humanidade é capaz do mais belo e do mais monstruoso. A mesma humanidade, no mesmo corpo. É isso que a torna tão fascinante.
Um dia, não teremos peixe nem pesca, não arriscaremos a vida no mar; alimentar-nos-emos de comprimidos e o céu será esquadrinhado por drones incansáveis que não deixarão ninguém à deriva. Os robôs percorrerão 100 metros em muito menos de 9,39 segundos, como já hoje fazem, tranquilamente, motos e automóveis. Mas que interesse poderão ter comparados com a criança que, já esta semana, leu estas histórias e sonhou que voava?