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(A) :: "O Faria tem um talento incrível, pode chegar ao próximo nível." Mats Wilander sobre o US Open, o ténis português e aquela final em 88

"O Faria tem um talento incrível, pode chegar ao próximo nível." Mats Wilander sobre o US Open, o ténis português e aquela final em 88

Ao Observador, Mats Wilander explicou as diferenças entre Jaime Faria e Nuno Borges, defendeu que Zverev é favorito no US Open, lembrou final que ganhou em 88 e ainda aproveitou para falar de Federer.

Mariana Fernandes
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Foi a 11 de setembro de 1988, há praticamente 38 anos. Depois de conquistar o Open da Austrália e Roland Garros, Mats Wilander chegou ao US Open com a certeza de que uma vitória o levaria pela primeira vez ao topo do ranking ATP. Contra Ivan Lendl, em Flushing Meadows, disputou aquela que é ainda a final mais longa de sempre do Grand Slam norte-americano: quatro horas e 54 minutos. No fim, Wilander ganhou, tornou-se número 1 mundial e levantou o que acabaria por ser o último major da carreira.

É por tudo isto e muito mais que Mats Wilander é uma das pessoas indicadas para falar sobre o US Open. Comentador da Eurosport há vários anos, o antigo tenista sueco só venceu essa única vez em Nova Iorque – em comparação, nunca conseguiu sequer passar dos quartos de final em Wimbledon, mas ganhou três vezes tanto na Austrália como em Roland Garros. Na antecâmara de mais uma edição do US Open, falou com o Observador sobre o passado e o presente e não esqueceu aquele dia de setembro em que teve de mudar toda a estratégia para derrotar Ivan Lendl.

“Tudo o que me passou pela cabeça naquele dia apareceu logo no aquecimento. Daí para a frente percebi uma coisa que nunca tinha percebido antes a defrontar o Ivan: podia fazer um slice de backhand para a forehand dele. E assim conseguia sobreviver, porque se batesse a bola com topspin, ele batia o winner e acabava tudo. Percebi que podia fazer o slice e levei isso comigo, fiz exatamente isso durante quatro horas e 53 minutos. A estatística diz que bati mais de 100 bolas dessa maneira. E não estava no plano. Mas é o único jogo em que me lembro de ter mudado a maneira como ia jogar para algo completamente diferente daquilo que queria fazer. Servia e corria para a rede, servia e corria para a rede. Foi provavelmente a vitória mais satisfatória que tive. É disso que me lembro, de ser a vitória que significou mais para mim”, explica Mats Wilander, que acabou por terminar o ano de 1988 como número 1 mundial.

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O US Open arranca oficialmente este domingo, ainda que os últimos dias já tenham ficado marcados por jogos de exibição, com Roger Federer a fazer dupla com John McEnroe e ainda defrontou Andy Roddick em singulares, e também pelo torneio de pares mistos, onde Carlos Alcaraz apareceu num court pela primeira vez em meses para fazer par com Serena Williams, numa dupla com 30 Grand Slams que não passou dos quartos de final. No fim, os checos Jakub Mensik e Karolina Muchova venceram Flavio Cobolli e Belinda Bencic na final e ficaram com o troféu.

O regresso de Carlos Alcaraz é, naturalmente, um dos principais pontos de interesse do US Open. Depois de ganhar o Open da Austrália pela primeira vez no início do ano, o tenista espanhol lesionou-se no pulso em abril e falhou Roland Garros e Wimbledon. Chegou a apontar o regresso para o Open de Cincinnati que decorreu na semana passada, mas adiou o momento e vai mesmo voltar à competição em Flushing Meadows – e num Grand Slam onde o grande rival, Jannik Sinner, não vai estar devido a uma lesão no joelho.

Com Alcaraz ainda enquanto incógnita e sem Sinner na equação, Mats Wilander defende que o favoritismo do US Open cai nas costas de Alexander Zverev, alemão que aproveitou a ausência do espanhol em Roland Garros para capitalizar a eliminação precoce do italiano e conquistar o primeiro Grand Slam da carreira em Paris. “O Zverev é o favorito. Não diria que é um falhanço se não conseguir ganhar, porque tem de jogar muito bem durante sete jogos seguidos. Mas acho que Zverev, Djokovic e Alcaraz são os favoritos. Não sabemos como é que o Alcaraz vai aparecer, não posso dizer que é o grande favorito”, diz o sueco, que não esquece que as indecisões podem favorecer as chances de Taylor Fritz, Tommy Paul ou Ben Shelton.

Sobre Novak Djokovic, que coloca no restrito lote de favoritos, Mats Wilander tem mais esperanças para janeiro do que para setembro. O tenista sérvio chegou à final do Open da Austrália, não passou da terceira ronda em Roland Garros e foi até às meias-finais em Wimbledon e, para o comentador da Eurosport, é impossível descartá-lo apesar dos 39 anos de idade.

“Acho que o Novak teve uma chance nos últimos quatro Majors. E acho que pode ganhar na Austrália. Ele adora o Open da Austrália, já ganhou lá dez vezes. O US Open… Provavelmente não é a melhor superfície para ele, porque não é assim tão rápida, é até bastante lenta e física. Tens de trabalhar muito e vais cansar-te muito, vais jogar partidas muito longas. Acho que o Novak terá algumas dificuldades para ganhar no US Open. Colocava-o entre os favoritos para ganhar o Open da Austrália em janeiro e aqui diria que chega às meias-finais”, atira.

No quadro feminino e como tem sido verdadeiro apanágio nos últimos anos, a indecisão é maior. Elena Rybakina venceu na Austrália, Mirra Andreeva venceu em Roland Garros, Linda Noskova venceu em Wimbledon e Aryna Sabalenka aparece no US Open para defender os títulos consecutivos nos últimos anos, mas também para salvar uma época em que só chegou a uma final, em Melbourne, que perdeu. Para Mats Wilander, porém, é impossível antecipar a prestação da bielorrussa através das desilusões recentes no Canadá e em Cincinnati.

“Acho que a única coisa de que ela precisa é aparecer e jogar o US Open. Nos torneios mais pequenos podem acontecer-te coisas loucas, não há tanta disciplina. Quando aparecer no US Open vai estar totalmente disciplinada, não vai quebrar. Não vai fazer nada louco, não vai entrar em pânico, não vai irritar-se. Vai estar completamente estabelecida, porque sabe que este é um dos torneios mais importantes da vida que leva. Cincinnati ou Montreal, para ela… Não são assim tão importantes. Pode perder um jogo e está tudo bem. Mas o US Open é muito importante. E acho mesmo que vamos vê-la assentar, jogar um ténis inacreditável e, muito provavelmente, ganhar”, garante o antigo tenista, que coloca ainda Coco Gauff, Iga Swiatek, Elena Rybakina e Jessica Pegula no grupo de favoritas.

A conversa com Mats Wilander surge pouco depois de o ténis português ter vivido uma semana inédita. No Open de Cincinnati, Nuno Borges e Jaime Faria chegaram ambos aos oitavos de final, naquela que foi a primeira vez em que dois tenistas portugueses estiveram em simultâneo na quarta ronda de um Masters 1000. O sueco, que ao longo dos anos deixou sempre rasgados elogios a João Sousa, coloca Faria num patamar diferente do de Borges – e tudo devido ao serviço.

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“Acho que o Jaime Faria tem um talento incrível. Tem um jogo que pode levá-lo ao próximo nível, porque serve muito bem. E o Nuno Borges não serve bem o suficiente. O Borges terá sempre a bola devolvida, enquanto que o Faria serve muito bem nos seus melhores dias. Quando serve bem, a bola não volta. Acho que o Faria tem essa vantagem. Mas é muito difícil, o próximo nível a que eles estão a tentar chegar é muito renhido, não é permitido perder com ninguém sem ser do top 20. Tenho esperança de que o Faria e o Borges consigam ter a qualidade de chegar a um ponto em que não perdem com ninguém que não está no top 20″, detalha.

Por fim, para além de defender que o público de Nova Iorque será importante para os tenistas norte-americanos porque “não tem a expectativa de que nenhum deles possa ganhar”, Mats Wilander aproveitou os jogos de exibição do US Open para deixar uma certeza: Roger Federer ainda ganhava um jogo em Flushing Meadows. “Ele jogou com o McEnroe, o Roddick, o Agassi. Foi muito lento. Acho que jogou em segunda velocidade, talvez em terceira, e ainda pode jogar em quinta. O Roger Federer ainda conseguia ganhar um jogo no US Open. Ou dois. Claro que tem 45 anos, teria problemas com a recuperação. Mas no que toca ao jogo… Diria que ainda conseguia ganhar um jogo no US Open. É o quão bom ele ainda é”, termina.