Ser espião nunca foi um sonho. Foi um acidente de percurso. Um escape a uma vida mais previsível. Assim que terminou o curso de Filosofia, em Coimbra, a meio da década de 1980, Frederico Carvalhão Gil voltou a “casa”, ao concelho de Penamacor. Ia ser professor no liceu da vila. Mas não por muito tempo.
A perspetiva de uma vida marcada pela incerteza sobre onde seria colocado a cada novo ano levou-o a um desabafo com um amigo — faltava-lhe a tal previsibilidade. Falaram-lhe de um serviço público que acabara de ser criado e sobre o qual ainda se sabia muito pouco. Ganhava-se acima da média, na altura. O jovem professor candidatou-se a um lugar. Foi avaliado e passou no teste: ainda antes de completar 30 anos, Carvalhão Gil entrava para o segundo curso do Serviço de Informações de Segurança. Ia mesmo ser espião.
A revolução que o libertou da guerra
Frederico cresceu entre a Aldeia do Souto e a Quinta da Lageosa. O pai, engenheiro agrónomo, tinha sido convidado para assumir a direção da escola agrícola e a família mudou-se de Belmonte para aquela localidade, em plena Serra da Estrela. A mãe também era professora. Frederico cresceu no meio dos livros e de uma família com uma formação académica claramente acima da média num país que vivia os anos finais do Estado Novo.
Teve formação religiosa, andou na catequese, fez o crisma. Na família, havia vários padres e um dos tios, irmão mais velho do pai, chegara mesmo a assumir as funções de reitor do seminário do Fundão. Mas a relação do pequeno Frederico com a Igreja ficou por aí. Também nunca foi propriamente a criança com o comportamento mais exemplar da sala, não era o ‘menino certinho’. Ao domingo, quando os pais estavam na missa, preferia subir à torre da igreja e ficar por ali, à conversa com amigos, até o padre terminar o sermão.
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Na manhã da Revolução, Frederico Carvalhão Gil preparava-se para completar 15 anos de idade — o aniversário seria dentro de menos de três semanas, a 11 de maio.
Está no carro, sentado ao lado do pai, que vai ao volante enquanto seguem a caminho do Colégio de Belmonte. Frederico foi transferido para ali naquele ano por estar a “sair do trilho”. Mudá-lo de escola foi a solução imediata encontrada pelos pais para que voltasse aos eixos. Precisava de um “acompanhamento mais próximo” e, pelo menos durante um ano, seria ali que ficaria a estudar. Na viagem entre casa e o colégio, nessa manhã, apercebe-se de que a emissão da rádio é diferente do habitual. Ficam-lhe na memória as marchas militares que ouve na Emissora Nacional.
Ainda sem perceber exatamente a transformação que está em curso com a saída dos militares à rua, há uma frase de que nunca mais se vai esquecer. Numa conversa sobre os acontecimentos daquele dia, um colega do Colégio da Lageosa desabafa: “Agora já não vamos para a guerra.”
Um liceu em convulsão
Segunda metade da década de 1970. Ainda distante do momento em que vai ter de tomar algumas decisões sobre o seu futuro profissional, Frederico é um jovem adolescente e aluno do Liceu Nacional da Covilhã. A convulsão política do 25 de abril já chegou àquela escola do interior do país. Numa primeira fase, com alguma violência à mistura. Luís Tourais de Matos era aluno do liceu nesses anos e recorda-se bem das ondas de choque da revolução. “É aquela explosão. Passa-se de um extremo ao outro. Deixa de haver regras e disciplina. É uma anarquia completa. Lembro-me de entrar no átrio do liceu e de haver uma quantidade de gente a destruir o quadro de honra, como se estivessem a partir algo simbólico. Não era simbólico. Era o meu nome e o meu nome estava lá e fiquei muito triste. Entrar e ver aquilo tudo partido no chão.”
Há professores a serem saneados, por ligações mais evidentes ao regime que acabara de ser deposto. Há uma contestação generalizada à avaliação e aos métodos usados para o controlo da frequência e da assiduidade dos alunos. Aulas suspensas, protestos. Uma contestação generalizada às regras do sistema. Mas, depois, os ânimos acabam por serenar. A instituição reorganiza-se e, em março de 1977, a comunidade escolar já está a envolver-se na organização das primeiras eleições para a Associação de Estudantes (no ano anterior, tinha havido um ensaio, mas a associação eleita nunca chegou a tomar posse). Nesta segunda tentativa de eleger uma associação representativa dos alunos, são apresentadas três listas: uma mais próxima do PCP (a lista B), outra alinhada com o PS (a lista C) e ainda uma terceira, conotada com os partidos mais à direita e que reunia alunos mais próximos do PPD/PSD, do CDS e também com alguns elementos à mistura que mostravam maior proximidade à causa monárquica.
Carvalhão Gil faz parte dessa terceira candidatura, a da “lista A”, como membro efetivo (vogal) para o conselho diretivo, tal como Tourais de Matos. Do grupo, que se candidata “Por um ensino novo e democrático”, faz também parte José Luís Arnaut, que décadas mais tarde será ministro adjunto de Durão Barroso e que naquele momento integra a candidatura como membro vogal do Conselho Fiscal da Associação de Estudantes; e também Miguel Castelo Branco Sousa, professor catedrático da Universidade da Beira Interior e antigo presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira.
A campanha é dura. Um intenso debate ideológico entre as diferentes listas, mas também alguns episódios de confrontação física. “Apesar de a direita ter maioria no liceu, os da esquerda eram muito mais ativos, muito mais aguerridos”, recorda Luís Tourais de Matos. “Às vezes, havia confrontos físicos. Normalmente, era à saída das aulas que havia pancadaria.” A “lista A” teve de socorrer-se dos meios que tinha à sua disposição. Mais próximos dos partidos mais à direita, vários dos elementos que compunham a lista de Carvalhão Gil mantinham relações com as estruturas locais do PSD e do CDS. Foi dos centristas que lhes chegou um recurso fundamental para lidar com esses episódios de “pancadaria” à porta do liceu: um militante que era, também, segurança do partido — “um fulano com grande cabedal, metia medo só de olhar”, recorda Tourais de Matos. Às quatro e meia, os alunos terminavam as aulas. A partir de certa altura, o tal segurança começa a marcar presença religiosa ao portão. “Se alguém nos tocasse, levava também. Era uma espécie de guarda-costas para a saída”, conta.
Francisco Bruno Ribeiro, então candidato a presidente da lista que acabaria por vencer as eleições, é quem desafia o jovem Frederico Carvalhão Gil a juntar-se ao grupo. Fê-lo, conta ao Observador, pelo posicionamento político do colega de liceu e porque lhe reconhecia já naquela fase uma capacidade intelectual acima da média. “Ele era monárquico. Convidei-o porque, quando o meu pai nos ia buscar, ele ia lá à casa e levava sempre alguns livros. Na minha casa — a minha biblioteca já é muito antiga —, ele lia aquilo tudo e na escola ou no liceu andava sempre com os livros às costas. Era filosofia, mais do que psicologia. Ele era só filosofia, filosofia, filosofia. Conhecia os livros todos, os autores todos”, recorda.
Filho de professores, a viver um período de convulsão política que marcaria o século XX português, Carvalhão Gil segue com interesse as teorias promovidas mais de meio século antes por alguns dos fundadores do Integralismo Lusitano, como Francisco Rolão Preto (que morreria no final desse ano de 1977, aos 84 anos) e de António de Sousa Sardinha. Seria, aos olhos dos seus contemporâneos na Covilhã, um convicto monárquico — agrada-lhe de forma muito particular a ideia de que a principal figura do Estado seja um reflexo da cultura do país e que essa responsabilidade seja passada de geração em geração, sempre na mesma família. Reconhece nesse tipo de regime a garantia de uma certa “harmonia nacional” mais permanente.
O Partido Popular Monárquico nasce um mês depois da Revolução, a 23 de maio de 1974, menos de duas semanas depois de o jovem Frederico fazer 15 anos. No jornal A Capital, Carvalhão Gil passa por uma notícia sobre a fundação do PPM. Decide escrever para a sede, queria tornar-se militante. É um dos primeiros a aderir ao partido que acaba de ser formado por iniciativa de Gonçalo Ribeiro Telles. Os dois acabariam mesmo por cruzar-se e trocar algumas palavras numa sessão de esclarecimento que os monárquicos organizam na Covilhã. A militância mantém-se durante os 15 anos seguintes. Só acaba quando a vida de Carvalhão Gil sofre uma mudança radical.
O “reclame” no jornal que o levaria a uma vida de espião
Carvalhão Gil termina o liceu e entra no curso de Filosofia. Ao longo da licenciatura, vai colaborando com jornais regionais — chega a ponderar a hipótese de tornar essas colaborações menos pontuais, encara o jornalismo como uma carreira possível. Segue, nesse campo, os mesmos passos que o pai já tinha dado, com colaborações frequentes nos jornais da região. Mas fazer do jornalismo profissão é uma ideia que nunca chega a amadurecer. Terceira geração de professores, é também para aí que se direciona quando o curso chega ao fim. Mesmo que por pouco tempo.
Janeiro de 1986. Colocado há três meses no Liceu de Penamacor, o professor Frederico sente-se cada vez mais insatisfeito. A instabilidade da vida docente, que ainda nem teve tempo de experimentar verdadeiramente, já o angustia profundamente. Não faz ideia de onde poderá ser colocado daqui a um ano — e ainda menos no ano a seguir a esse. Procura alternativas e chega a concorrer para um cargo na Direção-Geral de Alfândegas. Vai ser aceite, e as condições até são interessantes. Mas ele já está de olho noutra oportunidade.
Por essa altura, responde a um anúncio no jornal para candidatos a um novo organismo público que se prepara para abrir. O reclame é vago, não há grandes detalhes sobre as funções que se espera que venha a desempenhar. Refere-se apenas que as condições salariais são acima da média da Função Pública. Carvalhão Gil faz uma candidatura, nunca chega a receber uma resposta, mas há um amigo, que tem outro amigo, que poderá, eventualmente, pô-lo a falar com outras pessoas. Ainda está colocado em Penamacor quando começa o processo de recrutamento nas secretas. Frederico vai recorrendo a sucessivas dispensas de serviço para ir a Lisboa fazer os testes psicotécnicos.
“Os recursos humanos, no início, relacionam-se um pouco com a vivência e a mundivisão das pessoas que iniciaram a vida do SIS”, recorda o ex-ministro da Administração Interna Rui Pereira sobre os primórdios dos serviços secretos. Ele próprio assumiu a liderança do organismo já a meio da década de 1990. Ramiro Ladeiro Monteiro foi o primeiro responsável pelas secretas. “Tinha uma experiência de África, de Angola, e, enfim, vinha do Portugal profundo. Ele trouxe para os serviços pessoas para formar núcleo essencial, certamente em quem tinha muita confiança. Depois, abre concursos e nos concursos são apreciadas várias características”, contextualiza Rui Pereira.

Nos primeiros concursos dos serviços acabados de criar há, sobretudo, candidatos com experiência militar e inspetores da Polícia Judiciária. O candidato Carvalhão Gil vem da área do ensino. E a 2 de março de 1987, segunda-feira, véspera de Carnaval, chega finalmente a resposta do SIS: passou nos testes. Deve apresentar-se de imediato no serviço.
Uma semana depois, está em frente ao número 37 da Rua Alexandre Herculano, a dois quarteirões da Avenida da Liberdade. É um dos 20 recrutas do segundo curso do Serviço de Informações de Segurança. A maior parte, escolhida diretamente pelo primeiro diretor dos serviços, Ramiro Ladeiro Monteiro.
Uma promessa por cumprir
Os primeiros anos de Frederico Carvalhão Gil no SIS são de uma ascensão meteórica. A queda, dentro de 10 anos, vai acontecer de forma ainda mais rápida — e vai ser irreversível.
A forma como geriu esse momento foi determinante, fatal para a ambição profissional que pudesse ter. No mínimo, poder-se-ia dizer que o comportamento do espião do SIS em Israel — para onde foi enviado como orientador de um grupo de formandos, durante três semanas — marcou o início do declínio de um espião.
Foi no final da década de 1990. Carvalhão Gil estava há pouco mais de 10 anos no Serviço de Informações de Segurança, o ramo interno dos serviços secretos portugueses, e era já um responsável de nível intermédio. Naqueles primeiros anos, tinha-se destacado como um dos mais inteligentes e até promissores funcionários dos serviços. Mostrava, também ali, ter uma cultura geral acima da média.
Logo após concluir os três meses do curso antes da admissão nos serviços, foi colocado como coordenador de uma equipa operacional, no departamento de contraespionagem. Estava ainda nessas funções quando lhe foi confiada uma missão: acompanhar um grupo de novos recrutas para os serviços no estágio de final de curso.
O estágio durava menos de um mês e podia realizar-se nos Estados Unidos, Alemanha ou Israel. Naquele ano, os recrutas iam até ao Médio Oriente para conhecer de perto o modo de funcionamento da Mossad, um dos serviços de informações mais importantes em todo o mundo. Carvalhão Gil devia acompanhar o grupo, fazer a ponte entre os recrutas portugueses e os responsáveis israelitas; devia estar sempre por perto — mas não foi isso que aconteceu.
Quando o grupo regressa a Portugal, os relatórios daquelas semanas chegam ao conhecimento de Rui Pereira, então diretor do SIS. A informação não lhe é transmitida apenas pelos futuros espiões; também os responsáveis da Mossad, as secretas israelitas, informam o responsável do SIS de que as coisas não correram bem e que Carvalhão Gil simplesmente não esteve à altura da missão: passou boa parte do tempo ausente, não acompanhou o grupo como lhe competia. Em vez disso, decidiu passear-se por Israel, andou a fazer turismo pelo país. Pior: levou consigo uma namorada e foi com ela que passou boa parte das semanas em que esteve destacado no Médio Oriente.
Rui Pereira agiu rapidamente. Chamou o espião ao seu gabinete e deu-lhe “cinco minutos” para se demitir das funções de coordenador. Carvalhão Gil passaria a funcionário de base. E nunca mais voltaria a funções de destaque nos serviços. Aquele era um ponto de não retorno para o espião do SIS.
O homem das secretas nas reuniões da NATO
Nunca mais passaria de um funcionário de base nos serviços de informações. Isso não o impede, porém, de continuar a ter acesso a informação sensível — e a dezenas de documentos classificados.
Entre o final da primeira década dos anos 2000 e o início da segunda, é ele o representante do SIS em reuniões onde são partilhadas informações confidenciais da aliança atlântica, os exercícios de gestão de crise da NATO. E é aí que tem acesso a informações que a Rússia de Putin teria todo o interesse em obter: informações sobre procedimentos, capacidades, até vulnerabilidades da NATO num cenário em que um dos Estados-membros fosse atacado por uma potência exterior à organização. Num mundo de crescentes tensões geopolíticas, saber como o inimigo reagiria em diferentes situações daria a Moscovo aquilo que de que Moscovo mais precisa naquele momento: informações que lhe garantam capacidade de antecipação sobre os movimentos a ocidente.
Entre 2008 e 2012, participa em várias dessas reuniões. Como elemento designado pelo SIS para esses encontros, chegam-lhe às mãos documentos com vários níveis de classificação. Documentos que deveriam ser imediatamente entregues no serviço, no regresso a Lisboa, e que nunca poderiam ser mantidos em locais de acesso não controlado — como a PJ vai descobrir que aconteceu quando fizer buscas às casas do espião. Mas isso só acontecerá alguns anos mais tarde.
Um espião nas mãos da Rússia de Putin
Na gíria da espionagem, há um acrónimo universalmente conhecido. “MICE”: “Money, Ideology, Coercion and Ego”. Em português, pode traduzir-se por “dinheiro, ideologia, coação e ego”. São as quatro principais razões para um espião se tornar agente duplo.
Andrey Soldatov é um jornalista de investigação russo que se especializou nos serviços de informações de Moscovo. Ao Observador, explica que, “normalmente, são coisas muito básicas” que levam um espião a passar para o outro lado. “Pode haver dinheiro envolvido. Pode haver informação comprometedora. Se um agente se envolver com mulheres da Europa de Leste, isso pode criar oportunidades interessantes para os serviços russos. Pode também haver motivação ideológica. Já no final da década de 2010, muitas pessoas viam a Rússia, e Putin em particular, como alguém capaz de enfrentar a hegemonia americana. Algumas pessoas podem achar que ajudar a Rússia é uma forma de contrabalançar o domínio dos EUA.”
Ninguém sabe exatamente qual a razão, mas a convicção no Forte da Ameixoeira, sede do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) e do SIS, é a de que, pelo menos nos últimos anos em que esteve ligado às secretas portuguesas, Frederico Carvalhão Gil tornou-se próximo de espiões russos. Muito próximo mesmo.
Depois de um primeiro casamento falhado, o homem do SIS embarca numa nova relação. Dessa vez, com uma mulher que nasceu na Geórgia e que, em 2015, já passará a maior parte do tempo no país de origem. Não é a única ligação pessoal de Carvalhão Gil ao universo pós-soviético. Na casa que tem em nome dele, no Cacém, vive uma outra mulher, russa, que diz ser sua “amiga” e que não paga renda pelo quarto que ocupa há anos (na verdade, tem toda a casa à sua disposição porque são raros os períodos em que o espião ali se instala). E há uma terceira mulher, também russa, que trabalha no Bar VIP, em Lisboa, um dos locais de diversão noturna (entre bares e casas de alterne) que o espião frequenta com uma regularidade quase diária. Sobre Natalya, a russa do Bar VIP, Carvalhão Gil ainda vai desabafar o interesse que teria em ter uma relação com ela.
Depois, há a relação com o mundo da espionagem russa. No segundo semestre de 2015, um grupo muito restrito de dirigentes do SIS tem em curso uma investigação interna. Há fortes suspeitas de que os serviços têm uma toupeira e é urgente — uma missão de prioridade máxima — descobrir quem é essa toupeira. As secretas não podem conviver com a existência de um elemento interno que esteja a passar informações secretas, classificadas, a um serviço inimigo.
Rapidamente, as suspeitas recaem sobre Frederico Carvalhão Gil. E, em novembro desse ano, o homem do SIS é apanhado em flagrante num encontro em Liubliana com um espião do SVR, um dos serviços de espionagem russos descendentes do KGB. O encontro é filmado pelas secretas eslovenas, que ali estão a pedido do SIS, e as imagens são enviadas de imediato para Lisboa. Nesse momento, o responsável máximo do SIRP, entidade que coordena a ação do SIS, toma a decisão: aquela traição vai ser levada à justiça. Carvalhão Gil vai servir de exemplo. Todos vão perceber o que acontece a quem se vende ao inimigo.

A investigação dura seis meses. Uma equipa da Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária fica responsável pelo caso — que é mantido sob sigilo absoluto. É nessa investigação que a vida dupla do espião vai ser conhecida em mais detalhe. A vida boémia, as visitas regulares ao Bairro Alto para participar em encontros com “irmãos” maçons, as relações pessoais com mulheres do leste europeu e do contexto da antiga União Soviética. Todos os passos do espião são seguidos e essa investigação torna evidente o interesse de Carvalhão Gil naquela realidade muito particular.
Mas durante seis meses, é só isso: o espião tem, de facto, uma proximidade pessoal e afetiva com tudo o que diz respeito ao contexto russo, no sentido mais lato. Só que, em maio de 2016, a investigação entra numa nova velocidade: chega a informação de que o espião vai viajar para fora do país. Uma novidade para todos — incluindo os próprios serviços. A 20 de maio, uma equipa de inspetores da PJ segue-o até Roma. O momento pelo qual esperavam, um encontro apanhado em flagrante com um espião russo, pode estar prestes a acontecer.
https://observador.pt/2026/07/29/operacao-top-secret-servicos-secretos-dos-eua-queriam-lancar-armadilha-para-acelerar-detencao-do-espiao-do-sis/
É praticamente hora de almoço quando Frederico Carvalhão Gil é detido no Number One Caffe, na zona sul da capital italiana. Sentado à sua frente está Sergey Nicolaevich, o homem do SVR que “virou” o espião do SIS. São os dois detidos. Carvalhão Gil é extraditado para Lisboa; o russo desaparece do mapa para sempre.
A 8 de fevereiro de 2018, o homem do SIS é condenado a sete anos e quatro meses. Prisão efetiva. Vai cumprir pena em Évora. O crime: espionagem. Uma sentença sem paralelo no Portugal democrático.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]